Luciano Carlos Cunha[1]
Sumário:
- 1. Vieses que contribuem para resistência a revisar crenças e estratégias
- 2. Efeito de credencial moral
- 3. Vieses que inclinam a rejeitar ouvir os interlocutores
- 4. Vieses que inclinam a defender o modo como as coisas já são
- 5. Heurística de afeto e apelo a intuições
- 6. Vieses que influenciam por conta da repetição e pressão social
- 6.1. Vieses que influenciam por pressão social
- 6.2. Vieses que influenciam por repetição
- 7. Vieses que inclinam a uma resistência a mudar de estratégia
- 8. Vieses que inclinam as pessoas a pensarem que sabem mais do que realmente sabem
- 9. A relação entre saber menos, ter mais convicção e ter mais influência
- 10. Vieses que inclinam a um julgamento tendencioso
- 11. Vieses que conduzem à aceitação de argumentos ruins
- 12. Efeito de influência contínua
- 13. Vieses que induzem a uma resistência à argumentação séria
- 13.1. Falácia da taxa básica
- 13.2. Efeito de falso consenso, racionalização e aversão a discutir argumentos
- 14. Conclusões
1. Vieses que contribuem para resistência a revisar crenças e estratégias
Neste texto abordaremos vieses que podem influenciar as pessoas a resistirem discutir novas questões e a revisarem suas crenças, sejam crenças sobre fatos, sobre questões éticas ou sobre estratégias para alcançar uma meta.
Esses vieses influenciam não apenas as pessoas que nunca tiveram contato a causa animal, mas também os próprios ativistas da causa animal e autores da área de ética animal.
2. Efeito de credencial moral
O efeito de credencial moral ocorre quando alguém que faz algo de bom se permite não ser tão bom no futuro.
Esse viés pode estar na base da resistência que as pessoas que focam em resgatar animais abandonados têm ao veganismo (e mesmo da resistência que as pessoas em geral têm ao veganismo, uma vez que as pessoas em geral normalmente se consideram boas pessoas).
Entretanto, esse viés também pode influenciar as pessoas veganas a acharem que não precisam se preocupar com outras questões que afetam os animais, como as diferenças entre consideração pelos animais e ambientalismo, o sofrimento dos animais selvagens e questões relacionadas ao futuro em longo prazo.
Em resumo, o fato de alguém se considerar uma pessoa boa, paradoxalmente, pode incliná-la a se permitir negligenciar questões éticas importantes.
3. Vieses que inclinam a rejeitar ouvir os interlocutores
A resistência à mudança de crenças e de atitudes é algo extremamente comum. Por exemplo, muitas pessoas resistem fortemente a aceitarem que a exploração animal é injusta. Entretanto, a resistência também afeta os ativistas da causa animal. Por exemplo, como mencionado, há vários ativistas que apresentam uma resistência à pensarem em outras questões para além do veganismo, como a por exemplo a proposta de prevenir o sofrimento dos animais selvagens que decorre de processos naturais e a preocupação com o futuro em longo prazo. A resistência é algo comum mesmo em relação a sugestões de mudança de estratégia.
Em resumo, é comum que haja resistência a argumentos que apontem que estamos a fazer algo de errado. Inúmeras vezes essa resistência surge mesmo antes de se ouvir os argumentos do interlocutor. A seguir, estão alguns vieses que podem estar na base da tendência de se rejeitar uma ideia mesmo antes de se ouvir os argumentos que a embasam:
O viés de atribuição hostil é a tendência de interpretar o comportamento dos outros como tendo intenções hostis, mesmo quando o comportamento é ambíguo ou benigno.
Esse viés pode inclinar as pessoas a verem o interlocutor não como alguém que quer que corrijamos uma falha, mas como alguém que tem uma intenção maldosa oculta.
Já a desvalorização reativa refere-se à nossa tendência para menosprezar propostas feitas pelos outros, especialmente se esses outros forem vistos como antagônicos.
O efeito avestruz, por sua vez, ocorre quando as pessoas evitam informações negativas, incluindo as que poderiam ajudá-las a monitorar melhor o progresso de suas metas.
Neste item tratamos especificamente dos vieses que podem nos induzir a não querer ouvir argumentos contrários. Nos próximos itens, veremos vieses que podem nos induzir a resistir abandonar nossas crenças anteriores, mesmo que tenhamos escutado os argumentos contrários e concordado com eles.
4. Vieses que inclinam a defender o modo como as coisas já são
Frequentemente, uma ideia é rejeitada não porque achamos que há bons argumentos contra ela, mas, simplesmente por ela propor uma mudança em relação ao modo como já pensamos.
Os seguintes vieses, por si só, inclinam a criamos uma resistência a revisarmos nossas crenças e atitudes (seja quanto a questões éticas, seja quanto a estratégias):
Viés do status quo: é a tendência de preferir que as coisas permaneçam como já são.resultando em resistência à mudança[2].
Justificação do sistema: é a tendência para defender e reforçar o status quo, por vezes até mesmo às custas do interesse próprio individual e coletivo.
Viés do conservadorismo: é a tendência de insuficiência em revisar as próprias crenças quando apresentadas novas evidências.
A perseverança da crença é a tendência a se apegar às crenças que já temos mesmo diante de evidências contrárias, resultando em uma resistência a mudar de ideia.
Reflexo de Semmelweis: é a tendência de rejeitar novas evidências que contradizem um paradigma.
Efeito padrão: é a tendência de favorecer a opção padrão quando é possível escolher entre diversas opções.
O viés de ancoragem faz com que confiemos fortemente na primeira informação que recebemos sobre um assunto (a âncora). Interpretamos as informações posteriores a partir dessa âncora, em vez de vê-las objetivamente. Isto pode distorcer o nosso julgamento e impedir-nos de atualizar os nossos planos ou previsões.
O viés de compromisso é a tendência de permanecermos comprometidos com nossos comportamentos passados, especialmente aqueles exibidos publicamente, mesmo que não tenham resultados desejáveis.
A dissonância cognitiva é o desconforto que decorre de termos crenças conflitantes entre si ou atitudes conflitantes com nossas crenças. Uma maneira de lidar com essa dissonância é avaliar qual das crenças ou atitudes devemos rejeitar e em seguida agir de acordo. Entretanto, o conflito geralmente é “resolvido” rejeitando, desacreditando ou evitando as informações que possam apontar a incoerência.
5. Heurística de afeto e apelo a intuições
A heurística de afeto descreve como frequentemente, ao tomar decisões, confiamos em nossas emoções e intuições, em vez de em informações concretas. Isso permite-nos decidir de modo mais rápido e fácil, mas pode distorcer o nosso pensamento e levar-nos a escolhas abaixo do ideal ou mesmo a escolha ruins, por vezes muito ruins, seja em termos de escolher estratégias para alcançar uma meta, seja em termos de avaliar questões éticas.
A heurística de afeto pode induzir as pessoas a defenderem o status quo porque nossas intuições são moldadas tanto por fatores genéticos quanto ambientais. Por exemplo, o fato de termos acreditado em algo por muito tempo, e o restante das pessoas fazer o mesmo, provavelmente criará uma intuição forte de que estamos certos (a crença de que o especismo está certo é um bom exemplo). Suponhamos que depois façamos uma reflexão ponderada e concluamos que nossa crença inicial era completamente injustificável. Essa nova conclusão muito provavelmente não gerará (pelo menos no começo) um sentimento forte como gerava a intuição inicial.
É por essa razão que é tão arriscado nos apoiarmos em intuições para pensar em questões éticas, pois estas podem ser somente nossos preconceitos disfarçados como verdade evidente. Aliás, uma das principais razões pelas quais os vieses exercem tanta influência sobre nós é o próprio fato de serem bastante intuitivos, com uma aparência de estarem corretos, apesar de produzirem raciocínios totalmente equivocados.
É claro, o fato de uma crença ser intuitiva não implica que seja necessariamente errada. Entretanto, longe de mostrar que ela está correta, o fato de ela ser intuitiva é uma razão para duvidarmos dela e a colocarmos sob escrutínio, pois é possível que acreditemos nela não porque ela é razoável, e sim, simplesmente porque ela é intuitiva.
A seguir, falaremos mais sobre como nossas crenças frequentemente são moldadas por repetição e por pressão social.
6. Vieses que influenciam por conta da repetição e pressão social
Considere as seguintes crenças:
- De que o especismo é justificável.
- De que o ambientalismo tem como meta garantir o bem dos animais.
- De que, se deixarmos a natureza seguir o seu curso, isso será melhor para os animais.
- De que não devemos intervir no que é natural.
- De que qualquer tentativa de ajudar os animais na natureza só tornará tudo pior.
- De que não somos moralmente responsáveis por danos naturais.
- De que não precisamos nos preocupar com o futuro em longo prazo.
Essas são crenças que ouvimos repetidamente desde que nascemos. Além disso, são predominantes na sociedade. Esses dois fatores (repetição e pressão social) podem nos inclinar a resistir questionar essas e várias outras crenças. A seguir estão alguns exemplos de vieses conectados a esses dois fatores:
6.1. Vieses que influenciam por pressão social
As normas sociais são crenças coletivas sobre que tipo de comportamento é apropriado em uma determinada situação. É comum as pessoas terem um desejo por serem aceitas na sociedade ou em grupos específicos, e isso as leva a aceitarem as normas sociais frequentemente sem parar para avaliar se são normas razoáveis ou não.
Efeito adesão é o hábito de adotar certos comportamentos ou crenças porque muitas outras pessoas fazem o mesmo[3].
A sugestionabilidade refere-se a quão suscetíveis somos a alterar nosso comportamento com base nas sugestões dos outros.
A ignorância pluralista ocorre quando acreditamos equivocadamente que as nossas opiniões são diferentes das da maioria. Isso muitas vezes nos leva a suprimir nossas próprias crenças e comportamentos para que se conformarem ao que consideramos a norma social. Por exemplo, uma pessoa pode ser contra o especismo, mas ter vergonha de dizer por achar que nenhuma outra pessoa vai concordar. Entretanto, é possível que muitas outras pessoas também sejam contra o especismo e também tenham vergonha de dizer pelo mesmo motivo.
6.2. Vieses que influenciam por repetição
O efeito de mera exposição é a tendência de desenvolver preferências por coisas simplesmente porque estamos familiarizados com elas.
Um viés relacionado é a cascata de disponibilidade, que ocorre quando uma crença coletiva ganha cada vez mais aceitação por meio da sua crescente repetição no discurso público, mesmo que não seja plausível.
Outro efeito relacionado é o efeito de verdade ilusória. É mais provável que as pessoas identifiquem como verdadeiras afirmações que ouviram anteriormente (mesmo que não se lembrem conscientemente de as terem ouvido), independentemente da validade real da afirmação[4]. Em outras palavras, é mais provável que uma pessoa acredite em uma afirmação familiar do que em uma desconhecida. Em resumo, quando ouvimos uma informação falsa repetida muitas vezes, é comum passarmos a acreditar que ela é verdadeira. Curiosamente, esse efeito acontece mesmo que saibamos inicialmente que a informação é falsa.
7. Vieses que inclinam a uma resistência a mudar de estratégia
Os vieses a seguir podem inclinar os ativistas a insistirem em estratégias que já utilizam há muito tempo (mesmo que percebam que elas não são eficientes ou que haveria outras mais eficiemtes) e a resistirem tentar novas estratégias.
Efeito de mera exposição: é a tendência de desenvolver preferências por coisas simplesmente porque estamos familiarizados com elas. Esse viés pode influenciar não apenas em insistirmos nas mesmas estratégias, como a uma resistência a abordar novas questões.
Lei do instrumento: é a confiança excessiva em uma ferramenta ou métodos familiares, ignorando ou subvalorizando abordagens alternativas.
Fixação funcional: é a tendência a não usarmos um objeto de maneiras além de seu uso tradicional, prejudicando a capacidade de inovar e ser criativo na resolução de desafios.
Viés de continuação do plano: é a falha em reconhecer que o plano de ação original já não é apropriado para a situação atual.
Efeito Einstellung: ocorre quando abordamos um problema da maneira que funcionou no passado, mesmo que agora exista outra solução melhor. Isso nos influencia a não considerar outras perspectivas ou opções.
Viés de apoio à escolha: é a tendência de lembrar das próprias escolhas como melhores do que realmente foram.
Justificação do esforço: é a tendência de atribuirmos maior valor a um resultado dependendo do quanto nos esforçamos para alcançá-lo, mesmo que o resultado não seja muito bom.
Escalada de compromisso: acontece quando tenta-se justificar o aumento do investimento atual com base no investimento anterior cumulativo, apesar de novas evidências sugerirem que a decisão provavelmente estava errada.
Falácia do custo irrecuperável: é a tendência de levar adiante uma estratégia se já tivermos investido nela, independentemente de os custos superarem ou não os benefícios.
Efeito de ambiguidade: é a tendência para evitar opções para as quais a probabilidade de um resultado favorável é desconhecida. Esse efeito pode nos inclinar a uma aversão a tentar novas estratégias.
Racionalidade limitada: é a tendência a buscamos uma decisão que seja boa o suficiente, em vez da melhor decisão possível.
8. Vieses que inclinam as pessoas a pensarem que sabem mais do que realmente sabem
Os vieses a seguir podem nos inclinar a acharmos que sabemos muito mais do que realmente sabemos e, e isso resultar em uma falta de interesse em avaliarmos nossos valores, metas e estratégias. Em resumo, esses vieses nos inclinam a acharmos que somos muito inteligentes, e isso nos induz a não pensarmos na possibilidade de estarmos cometendo erros. Frequentemente, esses vieses também induzem as pessoas a pensarem que o público com o qual se comunicam não é muito inteligente.
Viés egocêntrico: é a tendência de confiar demais na própria perspectiva e/ou ter uma percepção diferente de si mesmo em relação aos outros.
Ilusão de validade: é a tendência de se ter excesso de confiança na precisão dos próprios julgamentos[5]. Esse viés produz frequentemente o efeito de excesso de confiança, explicado a seguir.
Efeito de excesso de confiança. Tendência a ter confiança excessiva nas próprias respostas às perguntas. Por exemplo, para certos tipos de perguntas, as respostas que as pessoas classificam como “100% de certeza” acabam por estar erradas 20% das vezes[6].
Superioridade ilusória: é a tendência de superestimar as próprias qualidades desejáveis e de subestimar as qualidades indesejáveis, em comparação a outras pessoas. Também é conhecido como “efeito melhor que a média” ou “viés de superioridade”.
Realismo ingênuo: é a tendência de acreditar que nossa percepção do mundo o reflete exatamente como ele é, sem vieses e sem filtros[7].
Viés de ponto cego: é a tendência de se ver como menos tendencioso do que as outras pessoas e de identificar mais vieses cognitivos nos outros do que em si mesmo.
Cinismo ingênuo: é esperar mais vieses egocêntricos nos outros do que em si mesmo.
Ilusão de objetividade: é a tendência de acreditar que se é mais objetivo e imparcial do que os outros. Inclusive, as pessoas podem ser capazes de perceber quando os outros são afetados pela ilusão de objetividade, mas incapazes de perceber isso em si mesmas.
Ilusão de profundidade explicativa: ocorre quando pensamos que entendemos mais sobre o mundo do que realmente entendemos. Muitas vezes, é somente quando nos pedem para explicarmos um conceito que percebemos a nossa compreensão limitada dele.
Todos esses vieses estão relacionados ao efeito Dunning-Kruger e ao ultracrepidarianismo, abordados no próximo item.
9. A relação entre saber menos, ter mais convicção e ter mais influência
O efeito Dunning-Kruger recebe esse nome em referência aos pesquisadores que o descobriram. O efeito ocorre quando a falta de conhecimento e habilidade de uma pessoa em uma determinada área faz com que ela superestime sua própria competência. Esse efeito também induz as pessoas que são competentes em uma área a pensarem que a tarefa é simples para todos, levando-as a subestimarem as suas capacidades. Em resumo, esse efeito diz respeito à tendência dos indivíduos não qualificados superestimarem sua própria capacidade e dos especialistas para subestimarem a sua[8].
Essa tendência pode fazer com que, quanto menos alguém saiba sobre um assunto, mais ela pense que sabe muito e tenha bastante certeza de suas convicções (inclusive, pode incliná-la a pensar que sabe mais do que os especialistas, e até mesmo que os especialistas são ignorantes ou estúpidos). Analogamente, essa tendência faz com que os especialistas, por saberem da complexidade do tema, pensem que sabem muito pouco e tenham mais incertezas em relação às suas convicções sobre o assunto.
Um viés similar é o ultracrepidarianismo, que é a tendência de se fazer afirmações com confiança em assuntos sobre os quais não se conhece muito (isso frequentemente ocorre por conta da tendência de alguém pensar que, porque sabe bastante sobre algum assunto, então sabe bastante sobre outros).
Entretanto, existem também críticas à metodologia e às conclusões dos estudos realizados por Dunning e Kruger. De acordo com essas críticas, os estudos de Dunning e Kruger mostram que as pessoas possuem uma tendência a se considerarem mais competentes do que a média, mas não mostram que as pessoas que sabem pouco necessariamente pensam que sabem muito e vice-versa, nem que essa tendência é intrínseca à maneira como o cérebro humano funciona.
Porém, mesmo que essa crítica esteja correta e não haja essa tendência em termos gerais, certamente há pessoas que sabem pouco sobre um assunto mas pensam que sabem muito. Como a ignorância geralmente produz uma sensação de certeza (exatamente por não se saber o quão complexa é a questão), geralmente essas pessoas falam com muita convicção. Entretanto, quanto maior a convicção com que uma ideia é apresentada, maior a tendência do público acreditar nela, mesmo que ela não seja lógica[9]. Por conta disso, as pessoas que sabem menos acabam tendo uma vantagem em termos de influência.
10. Vieses que inclinam a um julgamento tendencioso
Os vieses a seguir, que induzem a um julgamento tendencioso, podem estar presentes ao avaliarmos os argumentos em relação a determinada questão ética e também ao avaliarmos as diversas estratégias possíveis para alcançar uma meta.
O raciocínio motivado consiste em avaliar as informações e argumentos visando chegar na conclusão que preferimos. Ele produz um viés de confirmação, que consiste em reparar apenas naquilo que confirma nossas crenças e hipóteses, negligenciando aquilo que contraria aquilo que já queremos acreditar[10]. Em outras palavras, ele nos induz a perceber, focar e dar maior credibilidade às evidências e argumentos que confirmam as nossas crenças prévias. Ao mesmo tempo, nos induz a não perceber, não dar tanto peso, ou mesmo a descartar sem analisar, os argumentos e evidências que sugerem que podemos estar errados.
Esses vieses podem influenciar, por exemplo, as pessoas a negarem que os animais sofram terrivelmente na exploração animal, ou na natureza em decorrência dos processos naturais, a negarem que o veganismo tem impacto prático, a negarem que a possibilidade de ajudar os animais na natureza, ou a afirmarem que qualquer tentativa de ajudar só pioraria as coisas, sem investigar se essas afirmações realmente são plausíveis.
Um viés relacionado e similar é o viés do observador/experimentador (ou viés de expectativa), que é a tendência de repararmos em dados que confirmam nossas expectativas descartarmos dados que entram em conflito com essas expectativas .
Relacionado a isso tudo está a heurística escolha-a-melhor que é um atalho que utilizamos na tomada de decisões entre alternativas com o objetivo de tomarmos decisões rapidamente sem precisar saber todas as informações sobre cada alternativa. Quando empregamos essa heurística, em vez de considerar todas as razões pelas quais poderíamos escolher uma alternativa em vez de outra, escolhemos uma razão e baseamos a nossa decisão exclusivamente nessa razão.
Um exemplo clássico disso é a tendência de se pensar que apontar um único efeito negativo de um curso de ação com o qual não se simpatiza inicialmente é suficiente para mostrar que não devemos adotá-lo. Isso é tendencioso, uma vez que não se está a computar os possíveis efeitos positivos de tal curso de ação. E, mesmo que tivesse apenas efeitos negativos, ainda é possível que fosse o curso de ação menos negativo, em comparação às outras opções disponíveis.
Analogamente, outro exemplo é a tendência de se pensar que apontar um único efeito positivo de um curso de ação com o qual se simpatiza inicialmente é suficiente para mostrar que devemos adotá-lo. Novamente, isso é tendencioso, uma vez que não se está a computar os possíveis efeitos negativos de tal curso de ação. E, mesmo que tivesse apenas efeitos positivos, ainda é possível que houvesse outras opções melhores disponíveis.
11. Vieses que conduzem à aceitação de argumentos ruins
Os vieses a seguir desempenham um papel fundamental em induzir à aceitação de argumentos ruins:
Viés de crença: é um efeito no qual a avaliação de alguém sobre a força lógica de um argumento é enviesada devido ao fato de ela acreditar na conclusão. Por exemplo, esse viés pode nos induzir a aceitar e replicar os argumentos com os quais concordamos com a conclusão (mesmo que os argumentos sejam ruins) e descartarmos os argumentos que desafiam nossas crenças (mesmo que os argumentos sejam bons). Isso está relacionado também ao viés do conservadorismo em relação a revisão de crenças, que vimos no item 4.
Efeito de verdade ilusória: é a tendência de acreditar que uma afirmação é verdadeira se for mais fácil de processar, ou se tiver sido afirmada múltiplas vezes, independentemente da sua veracidade real.
Heurística de fluência: quanto mais habilmente ou elegantemente uma ideia for comunicada, maior será a probabilidade de ela ser considerada seriamente, seja ela plausível ou não.
Rima como efeito de razão: afirmações rimadas são percebidas como mais verdadeiras.
Viés de autoridade: é a tendência de atribuir maior precisão à opinião de alguém que percebemos como uma autoridade no assunto e de sermos mais influenciado por essa opinião, independentemente de a opinião ser ou não plausível. Esse efeito ocorre independentemente de se a pessoa é mesmo uma autoridade no assunto ou não (basta que nós a consideremos uma autoridade).
12. Efeito de influência contínua
O efeito de influência contínua ocorre quando uma crença equivocada continua a influenciar a memória e o raciocínio, apesar de já ter sido corrigida e concordarmos com a correção. Um viés relacionado é o efeito de desinformação, onde a memória original é afetada por informações incorretas recebidas posteriormente.
No ativismo animal, dois tipos de atitudes que parecem ser exemplos desse vieses são as seguintes:
(1) Não é raro ativistas da causa animal mencionarem que 80 bilhões de animais são mortos para consumo mundialmente ao ano. Quando lhes é informado que esse é apenas o número de mamíferos e aves mortos, e que isso representa no máximo 0,2% dos animais mortos para consumo (a esmagadora maioria são animais aquáticos, invertebrados e vertebrados, e invertebrados terrestres), sua reação é normalmente concordarem que é essencial corrigir a estatística que mencionavam. Entretanto, normalmente a atitude posterior é continuarem a mencionar que 80 bilhões de animais são mortos para consumo anualmente.
(2) Não é raro ativistas da causa animal pensarem que o ambientalismo valoriza em si o bem dos animais, e que visa preservar o meio ambiente enquanto recurso para os animais. Quando é explicado que ocorre exatamente o oposto — isto é, que o ambientalismo valoriza em si entidades não sencientes como ecossistemas e espécies, e normalmente enxerga os animais apenas enquanto meros recursos para a manutenção dessas entidades — vários ativistas reconhecem que estavam enganados, e que é importante explicar isso ao público. Entretanto, normalmente, continuam a enfatizar que a meta final do ambientalismo é o bem dos animais, e a apoiar medidas ambientalistas bastante prejudiciais aos animais.
13. Vieses que induzem a uma resistência à argumentação séria
13.1. Falácia da taxa básica
A falácia da taxa básica é a tendência de se ignorar informações gerais e focar apenas nas informações do caso específico, mesmo quando as informações gerais são mais importantes.
Esse viés pode influenciar os ativistas a pensarem que discutir os argumentos sobre a consideração moral dos seres sencientes e as teorias éticas são perda de tempo (porque são argumentos e teorias que se aplicam de forma geral) e a focarem em discutir casos particulares. Quando isso acontece, a discussão sobre os casos particulares é feita geralmente de maneira enviesada e reforçando preconceitos especistas ou de outro tipo, justamente porque não se parou para conhecer os argumentos gerais e não se percebeu que o papel das teorias da ética são justamente darem um guia geral para os casos particulares. .
13.2. Efeito de falso consenso, racionalização e aversão a discutir argumentos
Frequentemente, ativistas da causa animal afirmam que é perda de tempo apresentar os argumentos a favor da consideração moral dos seres sencientes, discutir o especismo, falar sobre ética, ou mesmo discutir e analisar seriamente qualquer questão. De acordo com essas pessoas, seria perda de tempo “porque ninguém quer ler e avaliar seriamente nada”.
Entretanto, essa alegação pode está a ser fortemente influenciada pelo efeito de falso consenso, que ocorre quando superestimamos o quanto os outros compartilham de nossas crenças, valores e comportamentos. Ele induz as pessoas a projetarem suas atitudes e ideias pessoais nos outros. Assim, esse viés pode induzir os ativistas a pensarem que, como eles próprios não se interessam por ler e discutir seriamente essas questões, então ninguém vai se interessar.
Entretanto, não necessariamente essa atitude é resultado do efeito de falso consenso. Por exemplo, dependendo do caso, pode ser que a alegação de que o público não se interessará por essas questões não seja motivo real pelo qual alguém quer nos convencer a não discutir essas questões. Pode ser que própria a pessoa não se interesse por essas questões, mas acredite que outras pessoas se interessariam. Entretanto, talvez ela esteja dizendo que as outras pessoas não se interessariam como uma tentativa de nos convencer a não discutirmos essas questões (mas porque ela própria acha essa discussão irrelevante, apesar de dizer que é porque as outras pessoas não teriam interesse no tema). Quando esse é o caso, não estamos diante do efeito de falso consenso, mas de uma racionalização (afirmar que o motivo para um comportamento é um quando de fato é outro).
14. Conclusões
Neste texto listamos alguns vieses que podem influenciar as pessoas a terem uma resistência em pensarem em novas questões e a revisarem seus posicionamentos sobre questões éticas e sobre estratégias para alcançarem suas metas. Vimos como isso influencia, em especial, a percepção das pessoas em relação às suas decisões que afetam animais não humanos.
Aqui nos limitamos a listar uma série de vieses sem uma análise mais detalhada do quanto cada um deles realmente influencia as pessoas. Além disso, muitos vieses também foram deixados de fora. E, obviamente, provavelmente muito do que foi dito neste texto precisará ser corrigido, e desenvolvimentos posteriores precisam ser adicionados.
Por exemplo, não fizemos aqui uma revisão da metodologia dos experimentos nas pesquisas que constatam a existência dos vieses mencionados. Por exemplo, é possível que alguns dos vieses citados não sejam tendências inevitáveis de como o cérebro humano opera, mas que estejam presentes em alguma medida. Investigar essas questões seria um importante desenvolvimento posterior a ser feito, principalmente em termos de avaliar quais desses vieses são mais fáceis ou mais difíceis de tentarmos diminuir sua influência.
Entretanto, a intenção aqui é apenas dar um pontapé inicial em uma discussão sobre a influência de vieses em questões relacionadas à causa animal, uma discussão que raramente é feita, e que precisa ser feita se nossa meta é sermos eficientes em tornarmos o mundo um lugar menos ruim para os animais.
Notas:
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2] Ver taembém https://en.wikipedia.org/wiki/Status_quo_bias
[3] Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Bandwagon_effect
[4] Sobre isso, ver https://en.wikipedia.org/wiki/Illusory_truth_effect
[5] Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Illusion_of_validity
[6] Ver LICHTENSTEIN, S; FISCHHOFF, B; PHILLIPS, L D. Calibration of probabilities: The state of the art to 1980. In KAHNEMAN, D; SLOVIC, P; TVERSKY, A (eds.). Judgment Under Uncertainty: Heuristics and Biases. Cambridge University Press, 1982, pp. 306–334.
[7] Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Na%C3%AFve_realism_(psychology)
[8] Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Dunning%E2%80%93Kruger_effect
[9] Para ler sobre isso, veja a seção “efeitos sistêmicos” deste texto.
[10] Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Confirmation_bias
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
