Especismo assumido e especismo disfarçado

Luciano Carlos Cunha[1]

1. Introdução

Até mais ou menos 2010, quem se dizia vegano era claramente contra a exploração animal, e quem se dizia antiespecista ia além, defendendo, por exemplo, que os animais devem receber ajuda,  e que, dada a quantidade de vítimas e o grau de negligência, a causa animal deveria ser uma prioridade. Naquele cenário, devido ao trabalho feito em décadas anteriores, as bases para a crítica ao especismo já estavam estabelecidas. Era então possível prosseguir a discussão: já estavam em andamento debates sobre a oposição entre consideração pelos animais e ambientalismo, sobre nossos deveres em relação ao sofrimento dos animais selvagens que não decorre de práticas humanas e sobre quais as melhores estratégias para combater o especismo.

Entretanto, esse cenário mudou radicalmente nos últimos quinze anos com o crescimento do que chamarei de especismo disfarçado. Esse tipo de atitude chegou a se disseminar a tal ponto de, atualmente, os termos “veganismo” e “antiespecismo” muitas vezes não serem mais associados à luta pelos animais não humanos e, mais ainda, serem utilizados para defender posturas especistas e até mesmo para impedir que o especismo seja questionado.

Como resultado, já não estão mais estabelecidas as bases para a crítica ao especismo, e qualquer tentativa de discutir as questões mais atuais nesse debate (ou mesmo as que já estavam sendo discutidas há quinze anos atrás) acaba não surtindo muito efeito, pois agora é sempre necessário recomeçar do zero, explicando o que é veganismo, o que é antiespecismo e assim por diante. E, mesmo assim, há agora a difícil tarefa de convencer o público (e, sobretudo, os ativistas) de que veganismo não é sobre ambientalismo nem sobre saúde, que as vítimas do especismo não são os humanos, que adotar o veganismo implica ser contra a exploração animal etc. Em resumo, o especismo disfarçado conseguiu destruir todo o trabalho a favor dos animais que tinha sido aos poucos construído nas décadas anteriores.

2. Especismo assumido e especismo disfarçado

Tradicionalmente, o especismo era defendido de modo assumido. Seus defensores deixavam claro que acreditavam que os animais não humanos deveriam receber uma consideração menor (ou mesmo, que não deveriam receber consideração alguma). Entretanto, por deixarem clara sua posição, normalmente era solicitado que oferecessem algum argumento em sua defesa. Isso dava a chance de seus opositores apontarem os inúmeros problemas com os argumentos usados para tentar justificar o especismo.

Com o tempo, ficou cada vez mais nítida a falta de justificativa para o especismo. Como resultado, a defesa de posturas especistas passou a não ser vista com bons olhos por várias pessoas. Por essa razão, nos últimos anos surgiu (e se multiplicou rapidamente) uma nova estratégia para defender posturas especistas: se apresentar como antiespecista, mas defender de maneira disfarçada exatamente as mesmas coisas defendidas pelo especista. O especista disfarçado recebe menos oposição do que o especista assumido justamente por ser mais difícil de detectar, uma vez que se apresenta como rejeitando o especismo.

Assim, especismo assumido e especismo disfarçado não são duas formas diferentes de especismo, e sim, duas estratégias diferentes para defender as mesmas atitudes especistas.  Veremos a seguir três exemplos das diferenças entre essas duas estratégias.

  • Um defensor assumido do especismo defenderia, por exemplo, o consumo de carne ou o uso de animais em rituais alegando que os interesses dos humanos em comer uma comida específica ou em fazer determinado ritual importam mais do que o sofrimento e as mortes dos animais não humanos. Já um defensor disfarçado do especismo diria que rejeita a exploração animal, mas diria também que práticas como o consumo de carne e o uso de animais em rituais não devem ser criticadas, mesmo que estejam erradas (defenderia, por exemplo, esperar que os membros dos grupos que as praticam decidam por si próprios parar com elas[2]).

(2) Enquanto um defensor assumido do especismo diria que é uma afronta comparar o especismo com o racismo e o sexismo, alegando que os animais não humanos são seres inferiores, um defensor disfarçado do especismo diria que os animais não humanos importam tanto quanto os humanos, mas diria que não devemos comparar o especismo com formas de discriminação que afetam os humanos, pois isso ofenderia algumas pessoas[3].

(3) Considere agora a utilização do termo estupro em referência ao que é feito às vacas na exploração animal, e dos termos escravidão animal e holocausto animal para se referir ao que os animais sofrem nas granjas e abatedouros[4]. Um defensor assumido do especismo diria que é uma afronta utilizar tais termos para se referir ao sofrimento e às mortes de “reles animais inferiores”. Já um defensor disfarçado do especismo afirmaria que ele próprio dá  igual consideração aos animais, mas que é “de mau gosto” fazer tais comparações porque ofenderia os humanos que pertencem a grupos tradicionalmente discriminados[5].

A lista poderia continuar, mas esses três exemplos são suficientes para mostrar a diferença principal entre a maneira assumida e a maneira disfarçada de defender as mesmas atitudes especistas.

3. A divergência é moral, mas é apresentada como estratégica

Poder-se-ia pensar que quem adota a atitude acima classificada como especismo disfarçado não o faz por ser especista, e sim por razões estratégicas: acredita que desse modo será mais fácil fazer as pessoas deixarem de ser especistas. De fato, é o que eles próprios alegam[6]. Porém, há algumas razões para pensarmos que esse não é o caso. Vejamos a seguir um exemplo.

Quem afirma que, por razões estratégicas, humanos e não humanos jamais devem ser comparados, normalmente aponta para o risco de a comparação gerar rejeição à causa animal por parte de humanos que pertencem a grupos discriminados (pois são tradicionalmente comparados de modo pejorativo a animais não humanos). Contudo, quando é feita a seguinte pergunta: “e, se essas comparações se revelarem mais eficientes para mudar a situação dos animais, você as aprovaria?”, normalmente essas pessoas respondem: “não, pois os fins não justificam os meios”. Essa resposta revela que sua objeção é moral, e não estratégica como afirmam.

Além disso, se sua preocupação fosse estratégica, se preocupariam com o risco de rejeição por parte de qualquer pessoa, e não apenas por parte de quem pertence a grupos tradicionalmente discriminados. Igualmente, se preocupariam também com o risco de a escolha por deixar de fazer tais comparações fortalecer ainda mais o especismo.

Na verdade, quando dizem “temos a mesma meta, mas discordamos dos meios”, o que querem expressar não é uma divergência estratégica. Não estão dizendo “essa atitude não é eficiente para alcançar a meta de combater o especismo, e por isso a rejeitamos”. O que querem dizer é “essa atitude é errada, mesmo se for a maneira mais eficiente de combater o especismo”. O que estão a defender é uma espécie de regra moral que diz que é errado questionar o especismo se isso ofender determinadas pessoas[7], mesmo que o resultado de cumprir essa regra seja não mudar a situação dos animais. Em resumo, assim como disfarçam uma posição especista de antiespecista, disfarçam uma objeção moral de objeção estratégica.

Observe que, no contexto das lutas humanas, essas mesmas pessoas normalmente não afirmam que os ativistas devem, por razões estratégicas, amenizar suas reivindicações. Muito menos diriam que não devem criticar o racismo ou o machismo em respeito aos que se sentiriam ofendidos com tais críticas e pertencem a grupos tradicionalmente discriminados. Essa disparidade de atitudes revela, novamente, que são especistas disfarçados.

Há uma série de posturas comumente defendidas por quem defende o especismo disfarçado. Nem todas as pessoas que defendem uma dessas atitudes defendem as outras. No entanto, é comum que elas andem em conjunto. Nos próximos itens discutiremos várias dessas atitudes.

4.  A posição contrária a comparar especismo com discriminações intra humanas

Considere as seguintes posições: (1) comparar o especismo a discriminações que afetam humanos, como o racismo, o sexismo, o capacitismo etc. (2) comparar a exploração animal com a escravidão humana e o holocausto; (3) dizer que as vacas são estupradas na exploração animal); (4) afirmar que os animais não humanos são escravos e (5) usar o termo abolicionismo para se referir à luta pelo fim da exploração animal[8].

Quem é contra tais comparações normalmente afirma que não as aceita porque cada forma de discriminação tem suas particularidades[9]. Porém, isso pode ser uma maneira de disfarçar que enxergam o especismo, por afetar animais não humanos, como algo não tão grave quanto as discriminações que afetam humanos – o que é, em si, uma postura especista.

Como vimos, normalmente essas comparações são rejeitadas alegando-se que os humanos de grupos oprimidos já foram comparados pejorativamente a animais não humanos. Mas, se esse fosse o real motivo pelo qual rejeitam tais comparações,  também seriam contra fazer afirmações do tipo “lute como uma mulher” para enfatizar coragem, uma vez que tradicionalmente, devido ao machismo, os homens com falta de coragem já foram comparados pejorativamente a mulheres. Mas, não é isso o que fazem. Nesse caso, adotam a postura oposta: afirmam (corretamente), que ser comparado a uma mulher não tem nada de pejorativo, muito pelo contrário. Mas, então, por que não afirmam que comparar alguém a um animal não humano não tem nada de pejorativo, e que quem pensa que é pejorativo só o faz porque é especista? Simples: porque são especistas.

5. O especismo antropocêntrico não é questionado

Como os especistas disfarçados são contrários a comparar animais não humanos com humanos, são contrários a dizer “essa atitude é especista porque jamais seus proponentes a aceitariam se as vítimas fossem humanas” (que é, aliás, a forma principal de se testar se uma atitude especista). Admitem apenas questionamentos ao especismo não antropocêntrico. Por exemplo, aceitariam dizer apenas “essa atitude é especista porque jamais seus proponentes a aceitariam se as vítimas fossem cães”. Mas, não aceitam críticas ao especismo antropocêntrico – que é, de fato, a forma de especismo mais abundante de todas, e que produz um número esmagadoramente maior de vítimas.

Um exemplo é a oposição ao uso do argumento da sobreposição das espécies. Tal argumento observa que, se a falta de certas capacidades nos animais não humanos justificasse aquilo que é feito rotineiramente a eles, automaticamente justificaria fazer o mesmo com humanos que também carecem de tais capacidades. Tal argumento tem sido central em toda a defesa dos animais, desde a antiguidade até os dias atuais[10].

Entretanto, há quem considere tal argumento ofensivo aos humanos que não possuem tais capacidades[11]. O especista disfarçado inverte as coisas: sugere que quem está a propor desrespeitar esses humanos é quem aponta que o critério das capacidades justificaria explorá-los também, e não, quem defende que só deve ser respeitado quem possui tais capacidades. Em suma, em vez de questionar o critério das capacidades, o especista disfarçado prefere fingir que todos os humanos possuem iguais capacidades, apenas para evitar comparações entre humanos e não humanos.

6. São contrários a descrever o sofrimento

 Especistas disfarçados normalmente também são contrários a descrever o sofrimento dos animais explorados, seja em termos de mostrar um vídeo, fotografias ou mesmo textos. Novamente, afirmam que o motivo é que fazê-lo pode ser ofensivo para algumas pessoas. Essa resposta revela que trata-se de especismo disfarçado, pois deixa implícito que não mostrar aquilo que os humanos financiam e não querem ver é mais importante do que tentar evitar o sofrimento e as mortes dos animais.

Como resultado da disseminação dessa atitude, atualmente no movimento vegano vemos muito menos os ativistas compartilharem descrições do sofrimento dos animais explorados. Por exemplo, de 2005 até 2015 uma das ações mais comuns no movimento vegano era os ativistas compartilharem documentários como Earthlings (Terráqueos) ou Meet Your Meat. Isso é algo muito menos frequente atualmente.

7. O seu discurso é centrado nos humanos

Especistas disfarçados raramente falam algo a favor dos animais não humanos. O seu discurso, mesmo quando falam de especismo, tende a ser focado em humanos. Por exemplo, costumam enfatizar que uma postura antiespecista implica em dar consideração moral aos humanos também[12], desconsiderando o fato de que a maioria das pessoas já aceita que os humanos devem receber consideração moral, e que são os animais não humanos que são usados como comida, modelo de testes, vestuário, ferramentas, entretenimento etc.

Também utilizam a tática da cortina de fumaça: toda vez que o especismo antropocêntrico é questionado, focam em supostos comportamentos reprováveis por parte dos defensores dos animais (comportamentos que, muitas vezes, simplesmente não existem, como a acusação de que os defensores dos animais não se importam com humanos)[13]. A tática consiste em desviar a atenção para que as práticas especistas não sejam questionadas.

Prava (2017), crítico dessas táticas, lista as atitudes mais comuns por parte de especistas disfarçados que exemplificam a cortina de fumaça. A seguir destaco algumas das principais: (1) acusam de racismo quem afirma que os animais são escravizados; (2) acusam de xenofobia quem usa o termo holocausto em referência à exploração animal; (3) acusam de sexista quem compara a exploração sobre fêmeas não humanas à exploração sobre mulheres; (4) diante de analogias interespécies, fingem que não entendem que o objetivo é melhorar a consideração pelos animais, e afirmam que o objetivo é rebaixar os humanos.

8. Cobram que o ativista da causa animal lute por humanos, mas não o inverso

Outro padrão comum é a afirmação de que lutar por animais não humanos e não militar também por causas humanas é uma atitude especista[14]. Isso revela uma confusão no entendimento do que consiste o especismo. Rejeitar o especismo implica dar o mesmo peso a prejuízos/benefícios de magnitude similar, independentemente da espécie dos afetados. Mas, isso não implica que todas as causas são igualmente importantes. Pelo contrário: implica que não são, pois as diferentes causas lidam com quantidades de vítimas distintas, que padecem de magnitudes de sofrimento distintas, e que são problemas negligenciados e tratáveis em diferentes graus.

É por essa razão que, rejeitando-se o especismo, há a implicação de priorizar melhorar a situação dos animais não humanos, pois: (1) a quantidade de vítimas é astronomicamente maior; (2) estão tipicamente em uma situação muito pior; (3) o problema é muito mais negligenciado e; (4) o problema é altamente tratável, pois não depende, por exemplo, de alguma descoberta científica (boa parte do problema poderia ser resolvido simplesmente evitando-se atividades que prejudicam os animais direta ou indiretamente).

Priorizar a causa animal não é especista justamente porque é o que decidiríamos se não soubéssemos a espécie dos afetados por cada problema. Então, o que é especista é afirmar que, a despeito da situação dos animais cumprir todos os critérios imparciais de prioridade, as pessoas que decidem priorizar esse problema estão erradas, porque não lutam também por outros problemas que não passam nos critérios de prioridade, mas possuem vítimas humanas.

Especistas disfarçados não criticam ativistas pelos humanos que não lutam por animais não humanos[15]. Não criticam as pessoas que não lutam por causa alguma. Aliás, sequer criticam quem prejudica os animais, consumindo-os ou usando-os para outros propósitos. Pelo contrário: frequentemente defendem que deveríamos esperar que cada pessoa que participa das práticas de exploração animal reflita por si própria, e que é um desrespeito para com elas apresentar argumentos que sugiram que o que fazem é injusto.

Isso evidencia que consideram que lutar pelos animais não humanos e ao mesmo tempo não lutar por humanos é: (1) pior do que lutar por causas humanas e não lutar por animais não humanos; (2) pior do que não lutar por causa alguma e; (3) pior do que prejudicar os animais não humanos. Aliás, parecem acreditar que argumentar a favor dos animais é pior do que ativamente causar sofrimento e mortes aos animais. Basta ver o quanto escrevem criticando os defensores dos animais por “dizerem a verdade, doa a quem doer” e o quão pouco escrevem criticando quem defende a exploração animal.

Em resumo, estão dizendo (de maneira disfarçada) “por que não vão cuidar de criancinhas?”, que é exatamente o que o especista declarado diria escancaradamente.

9. A estratégia de usar a causa animal para angariar adeptos para pautas humanas

Vimos no item anterior que uma parte do discurso dos especistas disfarçados é a ideia de que, como devemos considerar todos os seres sencientes, então o veganismo também é sobre pautas humanas (e, por isso, criticam quem foca o seu ativismo em defender os animais). Isso não apenas oferece uma desculpa para fazerem ativismo por causas humanas e chamarem isso de veganismo sem falar dos animais não humanos, como também oferece um motivo para cobrarem dos defensores dos animais que abracem pautas humanas.

Um exemplo é o discurso de que, “se você é vegano, tem que ser anticapitalista[16]“. Esse argumento é fraco porque alguém poderia achar sinceramente que, em outros sistemas econômicos, o resultado poderia ser ainda pior, levando em conta todos os seres sencientes afetados. Ou, poderia achar sinceramente que, uma vez que o capitalismo é o sistema vigente na maioria dos locais, é necessário trabalhar dentro dele[17]. É claro, o anticapitalista poderia questionar quem pensa dessa maneira, e assim o debate prosseguiria. Entretanto, o ponto aqui não é sobre se devemos ser ou não anticapitalistas (esse é um tópico à parte), e sim, que as práticas especistas são injustificáveis, seja lá em que sistema econômico ocorram, algo que o especista disfarçado costuma não mencionar. Se alguém vê como um problema menor o uso de animais que ocorre fora do sistema capitalista, isso revela que sua intenção é acabar com o capitalismo, e não com o especismo, e que utiliza a retórica de luta contra o especismo para recrutar, dentre ativistas da causa animal, pessoas para a luta anticapitalista. Vemos muito mais, por parte dessas pessoas, a defesa de que veganos tem que ser anticapitalistas, e muito menos de que anticapitalistas, ou qualquer outra pessoa, tem que ser veganos. Por outro lado, ativistas que defendem que o veganismo precisa levar em conta a pluralidade política escancaram esse ponto. Por exemplo, Carvalho (2018) defende: “Queremos que qualquer pessoa – negra, branca, LGBT, da periferia, conservadora, eleitora da extrema esquerda, eleitora da extrema direita, pobre ou rica – considere o veganismo igualmente”.

Quando especistas disfarçados afirmam que a causa animal precisa ser uma luta política, o que normalmente querem dizer é que o ativismo da causa animal deve também ser anticapitalista, ou pelo menos, centrado nos humanos de grupos discriminados[18]. Não querem dizer, como poderíamos pensar à primeira vista, que os interesses dos animais não humanos devem ser incluídos na esfera de discussão política.

Outro exemplo é a postura contrária a produtos veganos de grandes empresas[19]. O argumento é o de que essas empresas usarão o dinheiro da venda desses produtos para continuar explorando animais. Entretanto, essa análise não leva em conta o que aconteceria se não houvesse esses produtos: a empresa em questão exploraria um número ainda maior de animais, pois investiriam todos os seus recursos na exploração animal. Além disso, muito menos pessoas se alimentariam de maneira vegana, pois, não havendo produtos veganos de grandes empresas, o alcance do veganismo seria muito menor[20]. Isso confirma que a preocupação de quem tem essa postura é combater grandes empresas por si, e a alegada preocupação com os animais é um instrumento de retórica.

Curiosamente, ao mesmo tempo que escrevem contra produtos veganos de grandes empresas, não escrevem contra produtos de origem animal das grandes empresas: muito pelo contrário, são contrários a aumentar o preço desses produtos[21]. Entretanto, uma vez que observamos que o que move esse discurso é o especismo, percebemos que tal atitude é esperável.

Em resumo, o especista disfarçado, em vez de querer que todos, independentemente de ideologia política, não explorem os animais, afirma que o respeito pelos animais é compatível apenas com determinados posicionamentos políticos. O objetivo com isso é fazer com que defensores dos animais passem a adotar esses posicionamentos. Porém, na prática, oe feito dessa estratégia é fazer com que as pessoas que não seguem esses posicionamentos políticos pensem que estão justificadas a explorar os animais.

10. A tática da distorção dos termos

    Especistas disfarçados costumam usar termos como antiespecismo, veganismo e direitos animais quando fazem grupos de ativismo, blogs, eventos e setoriais em partidos políticos. Entretanto, normalmente quase toda (ou mesmo toda) a discussão que fazem é centrada principallmente em pautas humanas. Tentam justificar essa atitude alegando que “humanos também são animais”. Por vezes, para não ficar tão nítido que sua preocupação é primordialmente com os humanos ou com valores ambientalistas[22], fazem alguma menção aos animais não humanos, mas de maneira muito periférica, e sem questionar o antropocentrismo. Em resumo, deixam os animais não humanos em último lugar (e, por vezes, nem aparecem[23]). Não é à toa que sua atitude tem sido apelidada de “humans first” – isto é, “humanos primeiro”.

    Essa distorção da definição de termos centrais nesse debate (como antiespecismo e veganismo) é feita com o intuito de defender que práticas de exploração animal são veganas, e que práticas claramente tendenciosas a favor dos humanos são o que se espera de um antiespecista. Por exemplo, em UVA (2020c) é defendido que “precisamos nos desvencilhar do nome zoológico, pois culturalmente carrega a imagem dos animais expostos como fonte de lazer”, e é sugerido, no lugar, utilizar os nomes “zonas ambientais animalistas, zonas ambientalistas antiespecistas, espaços ambientalistas e animalistas, centros ambientalistas de conservação, centros animalistas de conservação”. Esse é um bom exemplo de sugestão de troca de nome, em vez de criticar a prática, pois a conclusão que defendem é “as atividades que consideramos que contribuem para os cuidados animais, de acordo com a atual estrutura e funcionamento do zoológico, não são atividades lucrativas, mas sim investimentos necessários para a manutenção e conservação de espécies” (UVA, 2020c). Esse é também um bom exemplo de defesa de valores ambientalistas (centrado em conservação de espécies e escossistemas) camuflados como defesa dos animais.

    11. Dois pesos e duas medidas quanto a leis

      Outra atitude comum por parte de especistas disfarçados é serem contra projetos de lei que proibiriam certas formas de exploração animal, mas não todas[24]. Esse posicionamento ocorre mais comumente quando a forma de exploração animal em questão é bastante valorizada por humanos de grupos oprimidos que o especista disfarçado pretende defender[25].

      Diante disso, uma possível pergunta é: “quanto a isso, qual diferença entre o posicionamento do especista disfarçado e do especista assumido?”. A diferença é que o especista assumido diria que nenhuma forma de exploração animal deve ser proibida porque “humanos devem ter o direito de usar os animais como bem entenderem”. Já o argumento do especista disfarçado normalmente é o de que proibir certas formas de exploração anima é injusto para com os animais que serão explorados nas outras formas de exploração cujo projeto de lei em questão não proíbe. Mas, obviamente, os especistas disfarçados sabem que é impossível conseguir proibirtodas as formas de exploração animal de uma única vez. Se realmente estivessem preocupados com os animais, prefeririam que, se não é possível proibir todas as formas de exploração animal, que sejam proibidas pelo menos algumas. Então, essa atitude, mais uma vez, evidencia que o seu objetivo é manter as práticas especistas, mas disfarçando tal objetivo com o discurso de preocupação com os animais.

      Outro fato que evidencia que a sua motivação real é especista, é que não defendem a mesma posição em relação a humanos[26]. Isto é, se um projeto de lei pretende proibir práticas específicas prejudiciais a humanos, eles não se posicionam contrariamente a tal projeto alegando que isso é injusto para com os outros humanos que são vítimas de outras práticas que o projeto não cobre.

      12. Fingem que não há conflito de metas

        Quando há aumento no preço de algum produto de origem animal, como a carne por exemplo, há pessoas que se intitulam veganas e protestam contra tal aumento[27]. Um dos principais argumentos que usam é o de que as pessoas aumentarão o seu consumo de outros produtos de origem animal, como ovos e leite, que implicam em ainda mais sofrimento para os animais do que a carne. Outro argumento é o de que o aumento do preço não diminuiria a quantidade de animais mortos, pois a carne seria exportada. Além disso, normalmente também enfatizam que a redução do consumo de carne vermelha não é algo a ser comemorado, pois seria resultado da diminuição do poder de compra do povo em geral.

        A alegação de que o aumento do preço da carne aumenta o consumo de outros produtos que implicam em ainda mais sofrimento para os animais é um ponto importante. Igualmente importante é verificar se o aumento do preço implica em redução das mortes totais de animais ou se outros locais consumirão em maior medida esses produtos. Entretanto, diante disso, qual seria a reivindicação óbvia de qualquer defensor sério dos animais? Que, se não é possível proibir a exploração animal, então que todos os produtos da exploração animal deveriam ter seus preços aumentados, e em todos os locais. Na, verdade, se fosse computado no preço o sofrimento e os anos de vida que os animais perdem, esses produtos teriam de ser caríssimos[28]. Mas, não é isso o que essas pessoas dizem. Em vez disso, apontam que a redução do consumo de carne veremelha é um fato triste que revela que o povo possui menor poder aquisitivo. Isso sugere que acreditam que seria uma boa notícia se o consumo de produtos de origem animal aumentasse como um todo por conta de um aumento no poder aquisitivo do povo em geral.

        É claro, poderia ser dito que o ideal é aumentar o poder aquisitivo do povo em geral e também educar contra o especismo. Entretanto, se o especismo não diminui mais rapidamente do que sobe o poder aquisitivo do povo em geral, o resultado é um aumento no número de animais mortos. Pode-se comprovar isso no caso de países como China e Índia: à medida que esses países foram crescendo economicamente, aumentou também drasticamente neles o consumo de produtos de origem animal[29].

        O fato de que alguns países estão melhorando suas condições econômicas é bom para os humanos menos favorecidos nesses países. Agora, se levarmos em conta todos os seres sencientes afetados, incluindo animais não humanos, muito provavelmente isso representa um aumento considerável no sofrimento e na quantidade de mortes totais. Isso mostra que a meta de melhorar o poder aquisitivo dos humanos e a meta de reduzir a quantidade de sofrimento e mortes totais de seres sencientes pode conflitar. Qualquer ativismo sério precisa levar em conta essa questão. Entretanto, especistas disfarçados podem tranquilamente fingir que o conflito não existe, uma vez que o ônus recairá sobre os animais não humanos.

        13. Por que surgiu o especismo disfarçado? 

          Um dos fatores que colaborou para o surgimento e consolidação do especismo disfarçado é a tendência de, em vez de se discutir abertamente os argumentos de posições contrárias, simplesmente censurar certas ideias sem explicar o que há de errado com elas. Se alguém pretende defender o especismo em um contexto onde sua defesa é censurada, o que resta para essa pessoa fazer é fingir que condena o especismo, ao mesmo tempo que o defende.

          Essa tendência (censurar em vez de debater) cresceu também dentro da academia. Em vez de haver uma análise dos argumentos de cada posição e uma abertura a mudar de posição caso os argumentos do outro lado forem melhores — atitudes essenciais para uma investigação séria em qualquer área — a discordância é tomada como ofensa pessoal. Um resultado disso é que as pessoas começam então a fingir que não discordam uma das outras e, por não analisarem a fundo as ideias contrárias, passam a falar como se ideias contraditórias fossem, na verdade, compatíveis, e a fingir que não querem convencer ninguém[30] quando, na verdade, estão não apenas fazendo isso, mas tentando  impedir, na base da intimidação, que sua posição seja questionada.

          Boa parte dos defensores disfarçados do especismo surge de grupos avessos a debates e à argumentação racional. Enxergam a atividade de avaliar os argumentos oferecidos como arrogância, e como uma maneira de “impor o seu ponto de vista”. Esse é um reflexo mais geral de um panorama que, infelizmente, também tem crescido na academia, tanto por parte de alunos quanto de professores. Em vez de as sociedades democráticas em geral (e, mais ainda, os ambientes acadêmicos) serem espaços de livre discussão, onde toda e qualquer ideia pode ser defendida sem medo de represálias, o que se instaurou foi a censura da defesa de certos posicionamentos que foram cada vez mais reconhecidos como injustificáveis.

          A atitude de livre discussão diminuiria esse problema, por vários motivos[31]. Primeiro, porque permitir que toda e qualquer ideia seja defendida, por mais absurda, ofensiva ou mesmo hedionda que possa parecer, dá a oportunidade de explicar o que há de errado com ela. Fazer uma intimidação à defesa de certas ideias faz com que as pessoas finjam que ninguém defende tais ideias quando, na verdade, prevalecem mais do que nunca. Segundo, porque é possível que ideias que inicialmente pareçam absurdas, ofensivas ou mesmo hediondas, no final das contas, estejam corretas. Só é possível descobrir se esse é ou não o caso se for permitido defender toda e qualquer ideia sem medo de represálias (por exemplo, sem medo de receber cancelamento). Terceiro, porque se for legítimo censurar a defesa de determinadas ideias porque há quem se ofenda com elas, então não parece haver como traçar um limite do que é ou não aceitável dizer e, então, está aberta a porta da censura. Assim, permitir defender ideias que as pessoas julgam ofensivas é um preço pequeno a se pagar para haver possibilidade de discussão livre de ideias e uma importante ferramenta para barrar a cultura do fingimento que tem se instalado na sociedade em geral, incluindo ambientes acadêmicos.

          A atitude avessa à discussão de argumentos apresenta-se como tolerante e democrática, quando é, na verdade, autoritária. A estratégia não é explicar o motivo pelo qual consideram erradas certas crenças e atitudes, e sim intimidar para que certas ideias não sejam defendidas. Seja por ignorância, seja de modo planejado, classificam análises dos argumentos como tentativas de imposições pessoais, e tentativas de calar o debate como atitudes democráticas.

          14. A tática de que não importa o que foi dito: importa quem disse

            Dado o que vimos no item anterior, outra tática comum dos especistas disfarçados é impedir o debate, em vez de discordar. Em vez de discutir o argumento do opositor, tentam convencê-lo a não falar (geralmente, apontando que alguém poderia se ofender com o que seria dito, ou mesmo com ameaças de cancelamento). Se nada disso surte efeito, e o opositor continua a falar, a tática geral passa a ser utilizar algum ad hominem contra o opositor[32]. Por exemplo, é sugerido que, se o opositor pertence a um grupo historicamente privilegiado, ele já está automaticamente errado[33] (ou, mais do que isso, que ele deveria ser proibido de falar sobre o assunto: “não é seu lugar de fala[34]”).

            Da mesma maneira, é sugerido que membros de grupos discriminados estão sempre certos, ou pior, que não deveríamos discordar deles, mesmo que estejam errados: “o lugar de fala é deles”. Nesse sentido, uma tática comum é acusar de racismo e de machismo quem aponta o especismo por parte de membros de grupos discriminados.

            Em resumo, nessa concepção, não importa o que foi dito: importa apenas quem disse. É a consolidação política do culto às falácias ad hominem e apelo à autoridade (que geralmente sequer autoridades no assunto são). Ora, isso é exatamente o extremo oposto do que qualquer pensamento intelectualmente honesto deveria ser. O primeiro passo para a honestidade intelectual é reconhecer que um argumento é bom ou ruim independentemente de quem o pronunciou.

            Entretanto, por vezes as pessoas de grupos discriminados discordam do que o especista disfarçado defende. Nesse caso, a tática comum do especista disfarçado é fingir que não existe tal discordância, mas, caso não seja possível escondê-la, a tática passa a ser, ou ameaçar de cancelamento as pessoas de grupos oprimidos que discordam, ou afirmar que foram manipulados. Isso é no mínimo curioso, pois o “lugar de fala” é dos membros dos grupos oprimidos, mas somente se concordarem com o que o especista disfarçado quer.

            O mesmo acontece em relação ao que deveria ser lido. Em vez de lerem o adversário e discordarem, afirmam que não precisam ler (e, em vários casos, que deveria ser proibido ler) autores que pertencem a certos grupos. Em vez de discutir os argumentos, pensam que é suficiente falar frases como “deveríamos decolonizar a causa animal[35]” ou “isso está errado porque o autor é homem, branco, europeu etc.[36]” (atitude que, aliás, não é mantida quando autores desses grupos corroboram o que estão a defender).

            Há uma diferença entre, por um lado, dizer que deveríamos ouvir o que tem a dizer as vozes que normalmente não são ouvidas ou mesmo são silenciadas (por se tratarem de vozes de pessoas que pertencem a grupos discriminados) e, por outro lado, dizer que só devemos ouvir essas vozes (e que deveria ser proibido discordar do que dizem).

            15. A tática do ataque à razão

               Outro comportamento comum do especista disfaçado são ataques à razão e a lógica. Um desses ataques consiste em afirmar que são “coisas de brancos, europeus, homens etc.”. Entretanto, tais ataques acontecem apenas quando alguém mostra que o argumento que ofereceram possui algum problema. Até então, argumentam, baseados na mesma razão e na lógica que classificam como uma “ferramenta de dominação”.

              Se alguém aponta problemas com o argumento que oferecem, também não é incomum acusarem de terem sido discriminados por pertencerem a algum grupo. Isso é a prova de que não possuem argumentos sólidos para defender suas posições. Do contrário, não precisariam utilizar essas táticas.

              Também é comum afirmarem que não estão tentando convencer ninguém de nada (pois a ideia de convencer os outros de alguma coisa é enxergada por essas pessoas como uma estratégia de dominação). Contudo, obviamente, o fato de negarem que estão tentando convencer os outros a aceitar sua posição não faz com que não estejam a fazer tal coisa. Entretanto, o efeito dessa negação é dizer que apenas o opositor está a fazer aquilo que eles mais condenam (argumentar, tentar convencer etc.).

              Em resumo, o objetivo é sempre tentar convencer o opositor a não falar, em vez de discutir sua posição, mas ao mesmo tempo se apresentar como aberto a novas ideias e mesmo como neutro. Enfim, são atitudes cujo objetivo é impedir que o debate aconteça, mas que se disfarçam de atitudes democráticas.

              16. Conclusão

                Os especistas disfarçados tiram proveito do fato de o especismo ser tão naturalizado em nossa sociedade que raramente é percebido. A maioria das pessoas, além de serem especistas, não conhecem bem o conceito de especismo e, portanto, não sabem avaliar quando uma atitude é ou não especista. Além disso, especistas disfarçados se aproveitam da tendência que a maioria das pessoas possui de se agarrar a comportamentos aos quais já estão acostumadas[37]. Então, se as pessoas escutam que ser antiespecista é compatível com, por exemplo, consumir os animais e que ninguém pode criticá-los por isso, é tudo o que gostariam de ouvir.

                Se os especistas disfarçados são contrários a leis que proíbam a exploração animal, se são contrários a destinar recursos públicos para ajudar os animais, se são contrários a fazer qualquer comparação entre humanos e não humanos, se são contrários a descrever o sofrimento animal, se são contrários a defender que todos temos obrigações para com os animais, o que permitem que o defensor dos animais faça então? A resposta é simples: nada. Toda e qualquer tentativa de falar algo para defender os animais não humanos será censurada, mas de maneira velada, pelo especista disfarçado. Esse é seu objetivo.

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                [1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina.

                [2] Ver, por exemplo, Souza (2015a, 2016c, 2016e, 2017f, 2019, 2022).

                [3] Ver, por exemplo, Souza (2016a, 2017b, 2020).

                [4] Para uma discussão detalhada sobre o uso desses termos, ver Cunha (2021) e Prava (2017, 2018b).

                [5] Ver, por exemplo, Souza (2016a, 2017a, 2017f)

                [6] Ver, por exemplo, Souza (2016c).

                [7] Ver, por exemplo, Souza (2016a, 2017b)

                [8] Ver, por exemplo, Souza (2020).

                [9] Para exemplos de posições contrárias a essas comparações, ver Souza (2015a, 2017a). Para uma defesa dessas comparações, ver Cunha (2021).

                [10] Por exemplo, Porfírio (1823 [ca. 280]) já o utilizava no século III, e esteve presente nas defesas clássicas dos animais por parte da vasta maioria dos autores da ética animal, dentre os quais podemos citar Bentham (1996 [1789], p. 282); Singer (2002 [1979], p. 85); Ehnert (2002); Miller (2002); Wilson (2005) e Horta (2014).

                [11] Ver, por exemplo, Souza (2015a).

                [12] Ver, por exemplo, Souza (2017b)

                [13] Para uma crítica a essas táticas, ver Prava (2017).

                [14] Ver, por exemplo, Souza (2016b, 2016c, 2017b, 2017f), 2017g.

                [15] Por exemplo, em MOVA (2021a), lemos: “não diremos que, se o seu feminismo não inclui as fêmeas não humanas então ele não é feminismo de verdade. Em vez disso, estamos aqui para apontar como o capitalismo é um sistema de exploração e morte”.

                [16] Para exemplos de defesas de que o veganismo precisa ser anticapitalista, ver MOVA (2020a, 2020c, 2020d, 2020e, 2020g, 2020h, 2021i, 2021j), Rios (2022), Souza (2017b, 2017c, 2017d, 2017e) e Vegano Periférico (2023). Para exemplos de defesa de que o veganismo precisa considerar a diversidade de posicionamentos políticos, ver Carvalho (2018) e Prava (2018a, 2019a, 2019b).

                [17] Por exemplo, Carvalho (2018) defende que “trabalhar para melhorar a realidade dos animais dentro do sistema sócio-político-econômico vigente (que inclui as corporações como grandes atores poderosos da sociedade) não significa concordar com esse sistema; significa colocar os animais em primeiro plano”.

                [18] Ver, por exemplo, MOVA (2021f), Rios (2022), Souza (2017b).

                [19] Ver, por exemplo, MOVA (2020a, 2021e), Souza (2017d, 2017e), Vegano Periférico (2023).

                [20] Esse ponto é observado por Carvalho (2018).

                [21] Ver, por exemplo, UVA (2021).

                [22] Ver, por exemplo, Monielle (2020), MOVA (2020h, 2021d, 2021i, 2021j), Rios (2022), UVA (2020a, 2020d).

                [23] Ver, por exemplo, MOVA (2021d, 2021h, 2021i).

                [24] Ver, por exemplo, a posição defendida em MOVA (2021b). 

                [25] Ver por exemplo, Souza (2016c, 2016e, 2019, 2022), MOVA (2021b, 2021g), UVA (2020d). Por exemplo, em MOVA (2021b) é defendida a uma posição contrária a criminalizar atrocidades contra cães e gatos, com o argumento de que, por conta de preconceito racial e de classe, as penalizações não seriam aplicadas imparcialmente. Em contrapartida, em MOVA (2021g) a mesma organização agradece a um deputado por propor um projeto de lei, por demanda da organização, para proibição de Froie Gras em Porto Alegre. Por sua vez, em MOVA (20202) é defendido “propor leis restritivas ao cultivo de transgênicos e à utilização de agrotóxicos, evitando expor a população ao consumo de alimentos não comprovadamente seguros e que representam ameaças à biodiversidade e ao meio ambiente”. A diferença de postura depende de quem potencialmente seria punido por cada tipo de lei. Por exemplo, em UVA (2020d), é dito; “entendemos a necessidade de responsabilizar agentes de exploração animal, mas sabemos que o sistema penal é racista, elitista e seletivo”, mas conclui defendendo que “todavia, reconhecemos que em casos de políticas mais duras, que estas sejam reservadas às corporações que exploram e matam há tanto tempo de forma impune”.

                [26] Curiosamente, são favoráveis a leis que regulamentem a exploração animal para benefício dos trabalhadores da exploração animal.  Por exemplo, em UVA (2022), há a defesa de “Ampliar a fiscalização sanitária de frigoríficos, abatedouros e laboratórios, estabelecimentos e instituições que manipulem animais, de forma a garantir ao menos o atendimento à legislação ética vigente, buscando assegurar, minimamente, condições salubres físicas e mentais para os trabalhadores”.

                [27] Ver, por exemplo, UVA (2021).

                [28] Sobre isso, ver Ética Animal (2021).

                [29] Para dados sobre o aumento do consumo de produtos de origem animal na China, ver Pomar (2026). Para dados na Índia, ver Torres, Santos (2023).

                [30]Por exemplo, em MOVA (2020f), é defendido que “temos que desvirtuar o movimento vegano de supostos dualismos morais (certo/errado)”. Em MOVA (2021c) é defendido que “O movimento vegano precisa se aproximar das pessoas e de suas realidades, estar disponível para dialogar e não para convencer”. Esses posicionamentos são escancaradamente autorrefutantes. Se não há certo e errado, o que haveria de errado com a exploração animal então? Se não se quer convencer ninguém, por que divulgar o veganismo então?

                [31] Para uma discussão em mais detalhes sobre esse ponto, ver Cunha (2021).

                [32] Para uma crítica detalhada a cada argumento ad hominen tipicamente utilizado por especistas disfarçados, ver Prava (2017).

                [33] Ver, por exemplo, MOVA (2020b)

                [34] Ver, por exemplo, Souza (2015a, 2016c, 2016e, 2022).

                [35] Ver, por exemplo, Monielle (2020), MOVA (2020h, 2021c), Rios (2022), UVA (2020d).

                [36] Ver, por exemplo, MOVA (2020b).

                [37] Isso deve-se a vários vieses cognitivos. Para uma lista comentada de vieses que induzem a esse tipo de atitude, ver Cunha (2025, item 4.4).