O debate sobre a desextinção

Luciano Carlos Cunha[1]

1. O que é desextinção

O termo desextinção refere-se à prática de fazer nascer membros de espécies que já estavam extintas. Em 2025 a empresa  Colossal Biosciences anunciou que desextinguiu o lobo terrível (Aenocyon dirus), extinto há cerca de 10.000 anos atrás. A desextinção foi feita com a utilização de edição de genoma e clonagem em lobos cinzentos. A mesma empresa anunciou que planeja desextinguir o mamute. No presente texto examinaremos as razões contrárias e favoráveis a esse tipo de prática.

2. Até que ponto a definição do termo é importante para o debate ético

Existe um debate sobre se a prática em questão consiste realmente de desextinção – isto é, se esses animais seriam realmente lobos terríveis, ou apenas lobos cinzentos com características modificadas. Esse debate poder fazer sentido em termos científicos (por exemplo, em termos da classificação desses animais como membros de uma espécie e não de outra). Mas, será relevante para discutirmos as questões éticas que tal prática coloca?

Para discutirmos as questões éticas, o que temos de nos perguntar é o seguinte: sendo ou não uma verdadeira desextinção, tal prática deveria ser requerida, deveria permitida mas não requerida, ou deveria ser proibida? O que poderia fundamentar enquadrá-la em uma dessas categorias e não em outra? Ou será que deveria ser requerida, permitida ou proibida dependendo das circunstâncias? Se sim, de que dependem essas circunstâncias?

Essas são as perguntas que faremos se nosso objetivo for discutir seriamente a moralidade da prática em questão. O nome pelo qual vamos chamá-la é muito menos importante.

3. Duas posições opostas predominantes que têm algo em comum

No debate sobre a moralidade dessa prática, duas posições de lados extremos opostos têm sido predominantes.

De um lado, é defendido que a desextinção é certamente justificada, talvez obrigatória, pelo simples fato de fazer ressurgir uma espécie já extinta. Essa posição assume (explícita ou implicitamente) duas ideias: (1) de que as espécies enquanto entidades não sencientes possuem valor em si (isto é, que possuem valor com total independência do modo como afetam os seres sencientes – ou seja, os seres capazes de sofrer e desfrutar) e; (2) que esse valor é tão alto que está justificado desextingui-las independentemente do impacto disso sobre os seres sencientes.

De outro lado, outra posição predominante é a que enxerga a desextinção como algo errado em si (por exemplo, por envolver manipulação genética, e que isso seria “brincar de deus”). Na base dessa posição está a ideia de que existem certos atos que são errados com total independência do modo como afetam os seres sencientes.

Assim, apesar de essas posições se oporem, elas têm algo de fundamental em comum: ambas desconsideram completamente o impacto sobre os seres sencientes. No próximo item será defendido que, por isso, ambas as posições são implausíveis.

4. Por que é implausível a ideia de que a desextinção é correta em si

Em relação à posição que afirma que a desextinção é sempre correta alegando que espécies possuem valor em si, não precisamos sequer entrar no debate sobre se espécies realmente possuem esse valor para percebermos que ela é implausível. Suponhamos que tivesse sido provado que espécies realmente possuem esse valor. Isso não implica necessariamente que, então, a desextinção está sempre correta. Por uma simples razão: mostrar que algo possui valor não é mostrar que é a única coisa que possui valor, e nem mesmo que possui mais valor do que outras coisas.

Assim sendo, o que teria que ser mostrado para fundamentar tal posição não é apenas que (1) espécies possuem valor em si, mas, além disso, que (2) são as únicas entidades que possuem valor em si (isto é, que o bem dos seres sencientes não importa em si) ou; (3) que apesar de não serem as únicas entidades que importam em si, o seu valor é tão maior do que o bem dos seres sencientes que torna sempre justificável desextingui-las, seja lá quais sofrem as consequências sobre os seres sencientes.

Provar o primeiro ponto já é algo difícil. Provar o ponto 2 ou 3 o é ainda mais. Na verdade, temos boas razões para rejeitar os pontos 2 e 3, que veremos a seguir.

Em relação ao ponto 2, é importante lembrar que os seres sencientes são passíveis de ser prejudicados e beneficiados. Isso se dá por duas razões. A primeira é que a senciência – isto é, a capacidade de ter experiências, de ter uma perspectiva de primeira pessoa – é aquilo que faz com que haja alguém a habitar aqueles corpos (em oposição a ser um mero corpo vivo). A segunda é que as experiências podem ser positivas ou negativas. O objetivo da consideração moral é evitar prejudicar e buscar beneficiar. Se os seres que são literalmente passíveis de ser prejudicados não importarem em si, fica ainda mais enigmático entender por que entidades não sencientes importariam em si. 

Já em relação ao terceiro ponto, há razões para priorizarmos os seres sencientes frente a entidades não sencientes, mesmo que entidades não sencientes importassem em si. A razão principal é que apenas os seres sencientes são capazes de experimentar sofrimento e de a morte impedi-los de ter experiências positivas. Esses são dois prejuízos muito graves. Basta ver o quanto nós mesmos nos empenhamos em evitar nosso próprio sofrimento e nossa própria morte. Nenhuma entidade não senciente é capaz de sofrer, nem de ser prejudicada com seu desparecimento – haja vista que não há alguém ali para ser prejudicado com coisa alguma. Assim, há razões para priorizarmos prevenir sofrimento e mortes de seres sencientes, mesmo que tivesse sido demonstrado que entidades não sencientes possuem valor em si.

5. Por que é implausível a posição de que a desextinção é errada em si

A posição que afirma que a desextinção é sempre errada por envolver manipulação genética é implausível pela mesma razão: por desconsiderar completamente o impacto sobre os seres sencientes. Assim como há formas de manipulação genética que provavelmente teriam um impacto negativo sobre os seres sencientes, outras poderiam ter um impacto positivo. Por exemplo, a terapia genética tem como objetivo curar doenças. A posição de que a manipulação genética é sempre errada condenaria a terapia genética, mesmo que o efeito de não fazê-la fosse aumentar o sofrimento e as mortes dos seres sencientes ao longo do tempo.

Algumas pessoas são partidárias dessa posição porque fazem a seguinte confusão: “o que há de errado com a manipulação genética no caso A é que os resultados são negativos; logo, no caso B, apesar de ela ter resultados positivos, é também errada porque continua sendo manipulação genética”. De fato, esse é um equívoco muito comum: aponta-se as consequências negativas de um tipo de prática em determinados casos com o objetivo de apoiar a conclusão de que deveríamos rejeitar o mesmo tipo de prática mesmo em casos onde ela teria resultados positivos, simplesmente por se tratar de uma prática do mesmo tipo.

6. A posição que tenta justificar a desextinção apelando a interesses humanos

Outra posição comum é a que tenta justificar a desextinção apelando não a um suposto valor intrínseco das espécies, mas ao interesse humano em sua conservação. Por exemplo, outras justificativas oferecidas pela Colossal Biosciences para desextinguir o lobo terrível são a preservação do patrimônio cultural e a educação e engajamento público.

Essa posição assume uma das duas teses a seguir: (1) ou que o bem dos animais não humanos não importa (importam apenas os interesses humanos); (2) ou que o bem dos animais não humanos também importa, mas que garantir os interesses humanos em questão é tão importante que automaticamente justifica a desextinção, seja lá quais forem as consequências sobre os animais não humanos.

Ambas as teses são implausíveis. Quanto à primeira, a própria razão que realmente explica por que os humanos deveriam receber consideração moral já implica que qualquer outro ser senciente também deveria recebê-la. A razão pela qual os humanos são moralmente consideráveis não é porque pertencem à espécie humana, nem porque possuem uma série de capacidades ou relações, e sim, simplesmente porque são passíveis de ser prejudicados e beneficiados. Entretanto, o são porque são sencientes. Assim, isso implica que qualquer outro ser senciente também é moralmente considerável.

Quanto à segunda, ela é implausível por ser arbitrária, pois assume que é mais importante garantir os interesses humanos em questão, mesmo se a sua garantia implicar um prejuízo maior para outros seres sencientes. Tal visão é arbitrária por dar peso menor a prejuízos maiores (portanto, viola o princípio da igual consideração), e também porque não seria considerada justa se não soubéssemos a espécie a qual pertencemos (portanto, viola o princípio da imparcialidade).

7. O que devemos levar em conta: o impacto sobre os seres sencientes

Dado o que vimos, temos boas razões para pensar que o debate deveria ter como foco principal justamente o ponto que tem sido até o momento negligenciado: o impacto da prática sobre os seres sencientes em cada caso.

Ao fazermos tal avaliação é importante levar em conta não apenas o impacto sobre os animais da espécie que seria desextinta, mas também o impacto direto ou indireto que esses animais terão sobre outros animais. Levando em conta ambos os aspectos, no caso específico da desextinção do lobo terrível parece que as consequências muito provavelmente terão um saldo bastante negativo. Veremos mais detalhes sobre isso a seguir.

8. Avaliando o caso da desextinção do lobo terrível

Impacto sobre os animais da espécie em questão

Em primeiro lugar, a empresa não revela qual seria o destino dos lobos: se seriam mantidos em santuários, em reservas, em laboratórios, em zoológicos, ou na natureza. Seja lá em qual desses locais fossem mantidos, nada garante que suas vidas seriam minimamente positivas. É importante lembrar que tal empreitada é motivada por ideais conservacionistas, onde o bem dos animais não é valorizado em si, e sim apenas enquanto meio para preservar a espécie. Por isso, é alto o risco de que nada seria feito para evitar o sofrimento e as mortes desses animais  quando o risco de extinção desaparecesse (por exemplo, se a população crescesse).

Impacto sobre animais de outras espécies

Em segundo lugar, em relação ao impacto que os lobos teriam indiretamente sobre outros animais, um dos fatores cruciais para pensarmos que esse impacto seria de saldo negativo é o fato de serem predadores. A predação, além de aumentar o número de mortes de outros animais, normalmente envolve mortes lentas e extremamente dolorosas (e não, as mortes instantâneas que costumam ser mostradas de modo romantizado em documentários sobre a vida selvagem). Por exemplo, na predação em geral, em muitos casos a presa é comida viva.

A objeção de que aumentos na predação diminuem o saldo negativo

Poderia ser objetado que não necessariamente aumentos de casos de predação implicam em aumentos de sofrimento e de mortes prematuras ao longo do tempo. Isso porque a predação, por matar as presas, diminui suas taxas de reprodução. Muitas dessas presas tem uma enorme quantidade de filhotes e a vasta maioria morre muito jovem, de inanição ou sendo predada. Os poucos que sobrevivem muitas vezes são também predadores. Assim sendo, a conclusão dessa objeção é a de que, apesar de a predação ter efeitos altamente negativos, ela também previne efeitos negativos, a ponto de o seu saldo total talvez ser menos negativo do que se não houvesse predação.

Essa objeção traz um ponto importante a ser considerado. Entretanto, é insuficiente para mostrar que está justificado aumentar as taxas de predação no mundo. Observe que a preocupação da objeção é prevenir mortes que decorreriam das taxas elevadas de reprodução. Mas, se a preocupação é essa, não há apenas a opção de criar mais predadores para tratar desse problema. Há também a opção de fazer diminuir as taxas de reprodução por outros meios que não implicariam (ou implicariam em menos) sofrimento e mortes.

Um desses métodos seria a esterilização, algo que já é conduzido para controlar populações de animais selvagens e poderia ser realizada com vários métodos, incluindo dispersão aérea de biscoitos que contém o esterilizante. Outra opção seria investigar quais tipos de vegetação ou outros elementos no ambiente, se estiverem presentes no local, tendem a diminuir as taxas de reprodução naquelas espécies que maximizam a quantidade de filhotes e cujos membros provavelmente terão vidas altamente negativas. Uma terceira opção seria proteger grandes herbívoros como elefantes, pois consomem muita vegetação e isso, indiretamente, diminui as taxas de reprodução daqueles animais que possuem ninhadas gigantescas. Quando há outras opções menos danosas que evitariam um mesmo resultado negativo, não faz sentido escolher a opção mais danosa, especialmente se essas outras opções forem mais eficientes para evitar o mesmo resultado.

Aceitamos essa máxima quando o que está em jogo é o nosso próprio bem, pois não há nenhuma proposta de desextinguir animais predadores de humanos e inseri-los nas cidades. Mas, fazê-lo diminuiria significativamente a população humana, que é a maior de todas as ameaças aos valores ambientalistas. O fato de medidas desse tipo serem propostas quando os animais não humanos é que seriam as presas evidencia a visão especista predominante.

Conclusão sobre o provável saldo da desextinção do lobo terrível

A empresa que desextinguiu o lobo terrível não levou em conta, nem o impacto de tal ação sobre o bem-estar dos próprios lobos terríveis, nem o impacto indireto que o comportamento desses animais teria sobre outros seres sencientes. Isso ocorreu porque tal empresa é motivada por ideais conservacionistas e antropocêntricos, e não se preocupa diretamente com o bem dos animais não humanos. Essa é uma forte razão para duvidarmos que tenha sido feito um estudo para garantir que a desextinção tenha um saldo positivo para os seres sencientes afetados. Exatamente por essa razão é que a desextinção nesse caso não deveria ter sido conduzida.

9. Intenções ruins podem ter bons resultados. Mas, provavelmente terão?

O que vimos acima sugere que a desextinção do lobo terrível foi moralmente errada. Observe que o erro se deu por conta de que provavelmente as consequências terão saldo negativo, e não porque a intenção dos agentes não era beneficiar os seres sencientes.

É claro, normalmente quando a intenção não é beneficiar os seres sencientes, há uma alta probabilidade de o resultado não vir a beneficiá-los. Entretanto, assim como a intenção de beneficiar os seres sencientes não garante que o resultado será positivo para eles, por vezes há casos onde a meta não é beneficiá-los mas eles acabam sendo beneficiados. Um exemplo disso é quando os animais selvagens são vacinados por razões antropocêntricas (proteger os humanos do contágio, por exemplo) ou ambientalistas (preservar uma espécie, por exemplo). Nesses casos, a meta final não é beneficiar os animais, mas certamente estes são beneficiados.

Entretanto, esse não foi o caso na desextinção do lobo terrível (a intenção não era beneficiar os seres sencientes e o efeito sobre eles provavelmente será de saldo negativo). Mas, isso não implica que necessariamente devemos rejeitar toda e qualquer prática que não seja conduzida visando beneficiar os seres sencientes. O que importa é saber se ela terá ou não um impacto com saldo positivo sobre os seres sencientes, e não a intenção (a intenção importa apenas indiretamente, por influenciar na probabilidade do saldo ser mais negativo ou mais positivo).

10. Isso não implica que toda desextinção ou manipulação genética seja errada

No caso em que estamos a analisar, a razão para rejeitarmos a desextinção são suas consequências negativas. Entretanto, como deve estar claro agora, isso não implica que toda e qualquer desextinção seria errada, pois algumas poderiam ter saldo positivo.

Igualmente, não devemos concluir que, porque nesse caso a ação foi moralmente errada por ter consequências negativas e envolvia manipulação genética, então que devemos rejeitar manipulações genéticas em geral, mesmo as que têm potencial de ter consequências positivas. Por exemplo, nenhuma das razões que listamos para condenar a desextinção nesse caso se faz presente no caso da terapia genética, pois esta tem como objetivo, ou tratar doenças de um indivíduo já existente, ou prevenir que os indivíduos que nascerão cheguem a ter essas doenças (tendo, portanto, um potencial para ter um impacto de saldo positivo).

11. Não importa a origem da extinção nem da desextinção

Algumas pessoas acreditam que, se uma espécie foi extinta por conta de práticas humanas, há o dever de trazê-la de volta. Normalmente essas pessoas também acreditam que, se uma espécie foi extinta por processos não antropogênicos, então há o dever de não trazê-la de volta, pois isso seria desrespeitar os processos naturais. E, pelo mesmo motivo, acreditam que, se a desextinção tivesse ocorrido por meios naturais, teríamos o dever de deixá-la continuar mas que, como nesse caso ocorreu por meio de uma prática humana, está errada.

Posições desse tipo determinam a moralidade da decisão a partir do fator origem do dano. Rejeitaremos por completo esse tipo de posição se realmente nos preocuparmos com os seres sencientes. Nesse caso o que nos importará não é saber se o que causou a extinção ou desextinção da espécie foram práticas humanas ou processos naturais, e sim, se sua desextinção implicará em uma história de mundo melhor ou pior levando em conta todos os seres sencientes afetados.

12. Aumentar o número de espécies aumenta necessariamente o número de indivíduos?

Poderia ser objetado que desextinções têm sempre maior probabilidade de ter resultados negativos porque aumentar o número de espécies aumentaria o número de animais que estariam vulneráveis ao sofrimento e à morte (seja por mãos humanas, seja por processos naturais).

Entretanto, aumentar o número de espécies não necessariamente implica em aumentar o número de indivíduos. Para visualizar esse ponto basta reparar que espécies diferentes têm potenciais reprodutivos diferentes. Então, é bem possível haver um mundo com uma maior quantidade de espécies mas uma menor quantidade de indivíduos (por exemplo, se essas espécies tiverem um potencial reprodutivo menor) e vice-versa.

13. Importa em si em qual espécie um indivíduo nascerá?

Outro ponto que é perdido de vista no debate sobre a desextinção é que, se nossa preocupação é o bem dos animais, para sabermos se é correto ou não produzir o nascimento de novos seres sencientes, não é relevante em si se eles nasceriam como membros de uma espécie que foi extinta no passado ou de uma espécie que nunca foi extinta. Isso porque um animal nascer como membro dessa ou daquela espécie não é para ele algo bom ou ruim em si, e sim, bom ou ruim indiretamente (por exemplo, por ser maior ou menor o seu lifespan, por ser maior ou menor a probabilidade de ser explorado, por ser maior ou menor a probabilidade de ter uma vida positiva etc.).

Em resumo, se nossa meta é o bem dos animais, a moralidade de produzir novos animais por meio de desextinções não é diferente da moralidade de produzir novos animais em espécies que nunca foram extintas (por exemplo, produzir lobos terríveis para serem explorados não é pior do que produzir porcos para serem explorados).

Mas, por que então a desextinção suscita muito mais debate do que, por exemplo, a produção de animais para consumo ou as reproduções em altas taxas de animais na natureza que resultam na maximização da quantidade de mortes prematuras e do sofrimento? Simplesmente porque muitas pessoas valorizam em si entidades como espécies, e muitas outras consideram a modificação genética como errada em si, mas muito poucas pessoas se preocupam com o bem de cada ser senciente. Caso se preocupassem, perceberiam que aquelas outras questões (exploração animal e sofrimento dos animais selvagens) são muitíssimo urgentes.

14. Por precaução devemos proibir desextinções em geral?

Outro argumento contra desextinções reconhece que é possível algumas terem saldo positivo, mas aponta que, como não estamos em posição de prever as consequências de longo prazo, proibir por completo as desextinções tem maior probabilidade de ter melhores resultados.

Um problema com essa objeção é que, se não estamos em posição de prever as consequências de longo prazo, então não podemos saber que proibir por completo as desextinções tem maior probabilidade de ter melhores consequências em longo prazo.

É verdade que, quanto mais longo o prazo, mais difícil prever a probabilidade das consequências serem essas ou aquelas. Mas, isso não implica que não possamos tentar fazer estimativas. Além disso, quanto mais aumentasse o nosso conhecimento sobre a questão, melhores poderiam ser nossas estimativas das probabilidades.

Tendo dito isso, há um ponto importante que essa objeção traz. No momento atual os animais não humanos são amplamente desconsiderados enquanto seres sencientes. São vistos como meros recursos para humanos, ou como componentes de ecossistemas e exemplares de espécies. Então, é provável que, se a desextinção for autorizada, será conduzida por pessoas que tem esse tipo de mentalidade. Como vimos antes, o fato de a intenção por trás da ação não considerar moralmente os animais não humanos não necessariamente implica que a ação terá saldo negativo para eles. Contudo, aumenta muito as chances de que o saldo seja negativo. Assim, parece que há boas razões para proibirmos desextinções (pelo menos quando o que a motiva não é uma preocupação com todos os seres sencientes).

Uma possível objeção a esse raciocínio é apontar que talvez seja muito difícil proibir as desextinções, e então o melhor que as pessoas interessadas em beneficiar os seres sencientes têm a fazer é tentar que elas beneficiem (ou, pelo menos, não prejudiquem, ou prejudiquem menos) os seres sencientes. Isso poderia ser feito pelo menos de duas maneiras.  A primeira seria tentando aprovar legislação que obrigue os programas de desextinção a levarem em conta o impacto sobre os seres sencientes. A segunda seria considerar trabalhar em tais programas, pois a probabilidade de no futuro os mesmos virem a ter como meta beneficiar os seres sencientes é maior quanto maior for o número de pessoas envolvidas que levam a sério a consideração pelos seres sencientes

Porém, mesmo quando a motivação por trás de uma desextinção for uma preocupação com todos os seres sencientes, teria de ser feito um estudo minucioso para ver se realmente há boas probabilidades de o efeito ter saldo positivo. Além disso, mesmo nos casos onde tivéssemos bons dados para concluir que desextinguir teria impacto positivo, ainda teríamos de perguntar: “há alguma outra forma de investir os mesmos recursos (nosso dinheiro, tempo ou carreira, por exemplo) que teria um impacto ainda mais positivo?”.

Por exemplo, no caso dos animais que vivem na natureza, mencionamos no item 8 várias medidas que poderiam diminuir significativamente o sofrimento e as mortes prematuras. A desextinção teria de ser comparada a essas e outras medidas para ver qual ou quais delas seriam as mais eficientes em tornar o mundo um lugar menos ruim (por exemplo, avaliando o custo/benefício, entre outros fatores). Isso não significa que necessariamente uma determinada desextinção não poderia ser uma dessas medidas. Significa apenas que isso tudo deveria ser estimado minuciosamente.

15. Conclusão

No debate sobre a moralidade da desextinção, assim como nos debates sobre a maioria das outras práticas, o bem dos animais não humanos é quase que completamente negligenciado. É hora de mudar esse foco. Só assim haverá o mínimo de chances de tornar o mundo um pouco menos ruim do que de outro modo seria.


Notas

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.