A exploração sobre insetos e por que devemos nos opor a ela

Luciano Carlos Cunha[1]

Sumário

1. Insetos  são  sencientes? 

Há uma quantidade crescente de evidências sobre senciência em insetos. A seguir estão alguns exemplos:

  • O comportamento dos insetos é flexível, apresentando tomadas de decisão em contextos de mudança de circunstâncias, comportamento adaptativo, generalização cognitiva e também aprendizagem, integrando diferentes tipos de informação[2].
  • Possuem sistemas nervosos centralizados com cérebros distintos. Dentre as regiões de seus cérebros, está o protocerebrum, que inclui os chamados corpos de cogumelo, contendo entre cem mil e um milhão de neurônios[3].
  • Em seus cérebros foram registrados potenciais de campo locais (isto é, atividade elétrica) com uma resposta entre 20Hz e 30Hz[4].
  • O conectoma de alguns insetos (isto é, o mapa de suas conexões neurais) é comparável às redes de trato de fibra encontradas em primatas, apresentando a chamada organização de pequeno mundo (alta conectividade entre regiões vizinhas combinadas com conexões de atalho para regiões distantes)[5].
  • Os corpos de cogumelo dos insetos recebem e integram informações multissensoriais distintas, permitindo que aprendam com as experiências anteriores, lembrem-se delas e integrem as informações[6], sendo portanto um centro especializado para processar informações espaciais e para organizar o movimento[7].

2. A exploração sobre insetos

O uso de insetos têm crescido vastamente nos últimos anos. Além da exploração de cochonilhas para produção de corante, de bichos-da-seda para produção de seda e de abelhas para produção de mel e outros produtos, os insetos vêm sendo cada vez mais utilizados diretamente para consumo humano, muitas vezes disfarçados como farinhas ou hambúrgueres, e também para a fabricação de ração para outros animais que os humanos também exploram[8].

A seguir estão alguns dados sobre mortes anuais de insetos na exploração[9].

  • Cochonilhas mortas na produção do corante carmim: entre 4,6 e 21 trilhões[10].
  • Insetos mortos para consumo: entre 2 e 3,2 trilhões[11].
  • Bichos-da-seda mortos para a produção de seda: entre 420 bilhões e 1 trilhão[12].
  • Não há dados sobre a quantidade de abelhas mortas para a produção de mel, mas a população de abelhas criadas para a fabricação de mel está entre 1,4 e 4,8 trilhões de indivíduos em um dado momento[13].

3. Como os insetos são prejudicados na exploração

O uso de insetos eleva a níveis gigantescos a quantidade de animais mortos. Por exemplo, como o tamanho desses animais é muito menor, é necessária uma quantidade vastamente maior de indivíduos para produzir o equivalente em termos de carne ou outro produto.

Além disso, provavelmente sofrem muito durante todo o processo. O espaço destinado aos insetos nas fazendas é ainda menor do que aquele dado aos outros animais em proporção ao seu tamanho[14]. Antes de retirá-los do confinamento, a prática comum é deixá-los sem comida por 12 a 24 horas e reduzir a concentração de oxigênio. Em seguida são mantidos vivos e resfriados a temperaturas próximas a 0ºC. Métodos típicos de matá-los são: congelamento, imersão em água com temperatura superior a 80ºC, em microondas, em fornos de túnel infravermelho e por trituração[15].

4. Razões para nos opormos à exploração de insetos

A primeira razão, evidente, para nos opormos à exploração de insetos é o fato de ela causar sofrimento e morte a uma quantidade gigantesca de seres sencientes.

Além disso, a exploração sobre insetos é injusta pelas mesmas razões pelas quais a exploração sobre qualquer outro ser senciente é injusta.

Primeiro, como toda prática onde há exploradores e explorados, ela viola o princípio da igual consideração[16] por ser tendenciosa na atribuição do peso do bem de cada indivíduo.

Segundo, como toda prática especista, ela determina quem serão os beneficiados e os prejudicados com base na espécie a qual pertence. A espécie, assim como a raça e o gênero, é também uma propriedade moralmente irrelevante, pois além de ser um resultado da loteria natural (e, portanto, não resultar de mérito ou demérito) não determina se alguém é passível de ser prejudicado ou beneficiado, nem a magnitude dos prejuízos e benefícios.

Terceiro, ela jamais seria aprovada se não soubéssemos se nasceríamos como humanos ou como insetos. Isso mostra que quem defende tal prática só o faz porque sabe que não será vítima dela. Se é assim, então ela não passa no teste da imparcialidade[17].

5. Respondendo a algumas objeções

5.1. Serão os insetos pouco capazes de sofrer?

Por vezes a exploração sobre insetos é defendida com base na alegação de que animais que possuem cérebros menos complexos são pouco capazes de sofrer[18].

Há pelo menos duas maneiras de se responder a essa objeção.

A primeira é apontar que, mesmo que fossem pouco capazes de sofrer, ainda seriam gravemente prejudicados com sua exploração, uma vez que ainda sofreriam e perderiam a vida. Portanto, mesmo que fossem pouco capazes de sofrer, isso parece insuficiente para justificar sua exploração.

A segunda é negar que uma menor complexidade cerebral implique em o indivíduo ser pouco capaz de sofrer. A capacidade de experimentar sofrimento e prazer é um traço que prevaleceu na história evolutiva provavelmente porque está diretamente conectado à motivação para o comportamento[19]. Isto é, os seres sencientes evitam os estímulos que os fazem sofrer e buscam os estímulos que lhes dão prazer. Esse comportamento, por  aumentar as chances de que sobrevivam, aumenta também as chances de que se reproduzam e passem esse traço adiante. O ponto é: quanto maiores as capacidades cognitivas, maior a diversidade de motivações para o comportamento e aprendizado. Então, é possível que seres com maiores capacidades cognitivas consigam sobreviver e passar seus genes adiante mesmo se não tiverem experiências de sofrimento e prazer muito intensas. Por outro lado, quanto menores forem as capacidades cognitivas de um animal, mais a sua motivação para agir dessa ou daquela maneira estará ligada unicamente à intensidade da dor e do prazer[20].

Isso significa que, em relação a animais com menores capacidades cognitivas, é bastante possível que sofram de maneira ainda mais intensa pois, se não fosse dessa maneira, muito provavelmente essas espécies não teriam tido sucesso em passar os seus genes adiante e não mais existiriam. Ryder (2002, p. 64) enfatiza esse ponto: “suas experiências podem ser mais simples do que as nossas, mas serão menos intensas? Talvez a dor primitiva que uma lagarta sente ao ser esmagada seja maior do que nossos sofrimentos mais sofisticados[21]“.

5.2. Serão os insetos pouco prejudicados com a morte?

Por vezes é defendido que, quanto mais cognitivamente sofisticadas as experiências, mais valiosas elas são e que, por isso, alguém é prejudicado em maior grau se não puder experimentá-las[22]. Alguém poderia querer apelar a essa visão para afirmar que nada de muito ruim é feito aos insetos se eles forem mortos pois não seriam capazes dos prazeres intelectuais que os humanos são.

Entretanto, o que teria de ser mostrado para manter que seres com menores capacidades cognitivas são pouco prejudicados com a morte não é que prazeres intelectuais são mais valiosos, e sim, que prazeres não intelectuais quase não tem valor. Entretanto, quando pensamos em todos os prazeres não intelectuais de que desfrutamos (estar perto de quem gostamos, passear, comer, fazer sexo, nadar etc.) parece que dificilmente esse seria o caso.

5.3. E se insetos contassem menos?

Suponhamos para efeito de argumentação que cada inseto deveria contar menos do que outros seres sencientes em nossas decisões. Quais seriam as implicações?

Poder-se-ia pensar que uma implicação é que estaria justificada a exploração sobre insetos. Entretanto, não há essa implicação. Uma coisa é conseguir fundamentar que certos indivíduos devem contar menos. Outra coisa é conseguir fundamentar que estamos justificados a explorar e matar os indivíduos que deveriam contar menos. Teria de ser endereçado um argumento adicional que fundamentasse essa segunda conclusão, pois ela não se segue necessariamente da primeira.

Também poder-se-ia pensar que, se os insetos contarem menos, então estamos justificados a dar pouca importância à tentar mudar sua situação. Mas, novamente, não há essa implicação. Pelo contrário: a quantidade deles que sofre e é morta é tão gigantesca que ainda deveríamos priorizar protegê-los mesmo se eles contassem menos[23]. Por exemplo, suponhamos que cada humano contasse 1000 vezes mais do que cada inseto. Isso significaria que, para investirmos em ajudar insetos a mesma quantia de recursos que deveríamos investir em ajudar humanos, teria de haver 1000 vezes mais insetos do que humanos em situações igualmente ruins. Como no mundo real a quantidade de insetos explorados é gigantescamente maior do que isso, a balança ainda penderia para priorizar protegê-los mesmo que cada um deles contasse muito menos.

6. O que é importante concluir sobre essa questão?

Se cada ser senciente importa, então a exploração sobre insetos é um problema dos mais importantes, dada a vastíssima quantidade de vítimas. Essa quantidade é tão grande que essa conclusão se manteria mesmo se houvesse justificativa para dar um peso menor ao bem de cada inseto. Além disso, é importante observar que nada do que vimos mostra que há justificativa para se dar um peso menor ao bem dos insetos. Então, se é assim, a importância que devemos dar a esse problema é ainda maior[24].

7. Referências

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Notas

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] Sobre isso, ver EFSA (2005); Mendl et. al. (2011) e Adamo (2016).

[3] Kaas (2016).

[4] Polilov (2012).

[5] Kaiser (2015).

[6] Gronenberg; López-Riquelme (2004); Collett; Collett (2018).

[7] Barron; Klein (2016); Klein, Barron (2016).

[8] Sobre a exploração de insetos para consumo, ver Ética Animal (2021).

[9] Essas estatísticas estão em escala curta, onde 1 bilhão corresponde a 10^9, um trilhão corresponde a 10^12 e assim por diante.

[10] Rowe (2020a).

[11] Rowe (2020b).

[12] Rowe (2021).

[13] Schukraft (2019).

[14] Ética Animal (2021)

[15] Sobre esses métodos, ver IPIFF (2019) e Ética Animal (2021).

[16] Para uma explicação sobre esse princípio, ver Singer (2002 [1979], cap. 3) e Cunha (2021, p. 61-6).

[17] Sobre imparcialidade, ver Rowlands (2009 [1998], p. 118-175).

[18] Ver, por exemplo, as diretrizes da Comissão Européia: https://ec.europa.eu/‌environment/‌chemicals/lab_animals/3r/alternative_en.htm. Para outros exemplos, ver Pichler e Giacomini (2014, p. 53).

[19] Sobre isso (mas usando como exemplo o caso dos decápodes), ver Gherardi (2009).

[20] Sobre isso, ver Ética Animal (2022a). O exemplo a seguir envolve vertebrados, mas já sugere que a intensidade da valência não depende da complexidade cerebral. Os peixes-zebras adultos respondem a estímulos danosos de maneira que indica que são sencientes, e as larvas dos peixes-zebras respondem a esses mesmos estímulos de maneira similar (HURTADO-PARRADO, 2010; LOPEZ-LUNA et al., 2017a, 2017b, 2017c, 2017d, SNEDDON, 2018). Isso é assim mesmo que o cérebro de peixes-zebras adultos tenha cerca de 10 milhões de neurônios (HINSCH; ZUPANC, 2007), e o de seus filhotes, apenas cerca de 100 mil (FERRO, 2013).

[21] No original:”Their experiences may be more simple than ours, but are they less intense? Perhaps a caterpillar’s primitive pain when squashed is greater than our more sophisticated sufferings”.

[22] Ver por exemplo Mill (1969 [1861], p. 209-217) e Singer (2002, p. 83-86).

[23] Sobre esse argumento, ver Vinding (2019). Para estatísticas sobre a quantidade de invertebrados e vertebrados, ver Tomasik (2019).

[24] Para uma argumentação detalhada sobre a importância dessa questão, ver Cunha (2023).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.