Quem é incapaz de prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte?

Luciano Carlos Cunha[1]

Por vezes é defendido que, quanto mais cognitivamente sofisticadas as experiências, mais valiosas elas são e que, por isso, alguém é prejudicado em maior grau se não puder experimentá-las[2]. Essa visão por vezes é utilizada para defender que, como os animais não humanos não são capazes dos prazeres intelectuais que os humanos adultos normais são capazes, a morte não lhes privaria de algo muito valioso. Segundo essa visão, apesar de os animais não humanos serem prejudicados com a morte, esta seria um dano pequeno a eles e, portanto, não haveria nada de muito errado em matá-los ou deixar de salvar suas vidas.

O primeiro problema com esse argumento é que é questionável a afirmação de que prazeres intelectuais são necessariamente mais valiosos. Por exemplo, poderia ser dito que uma maneira não arbitrária de averiguar o valor de um prazer é em termos de sua intensidade e de sua duração, e não, assumir de antemão que determinados tipos de prazeres são necessariamente mais valiosos do que outros.

Nesse sentido, estar perto de alguém de quem se gosta muito (uma experiência não intelectual) e jogar uma partida de xadrez (uma experiência intelectual) podem ser experiências igualmente valiosas para quem as tem, desde que produzam a mesma quantidade de satisfação e durem o mesmo tempo. Por outro lado, a concepção que diz que experiências intelectuais são mais valiosas teria de dizer que, nesse caso, jogar xadrez tem mais valor, mesmo que produza a mesma satisfação (ou mesmo que produza menos satisfação!), o que parece tendencioso.

O segundo, e principal, problema é que, mesmo que prazeres intelectuais fossem mais valiosos, disso não se segue que prazeres não intelectuais não são valiosos, ou que são pouco valiosos. Portanto, afirmar que prazeres intelectuais são mais valiosos não pode fundamentar a conclusão de que os animais não humanos são pouco prejudicados com a morte. Suas experiências não intelectuais podem ser, assim como acontece no caso humano, muitíssimo gratificantes, e, por isso, podem ser prejudicados com a morte em alto grau por serem impedidos de desfrutá-las.

REFERÊNCIAS

CAVALIERI, P. The Animal Question: Why Nonhuman Animals Deserve Human Rights. Oxford: Oxford University Press, 2001.

MILL, J. S. Utilitarianism. In: _____. Collected Works, vl. X. London: Routledge and Kegan Paul, 1969 [1861], p. 203-59.

SAPONTZIS. F. In Defense of the Pig. Journal of Animal Ethics, v. 4, n. 1, p. 5-17, 2014.

SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] Exemplos dessa visão são as posições de Mill (1969 [1861], p. 209-17) e Singer (2002 [1979], p. 83-6). Críticas a essa visão podem ser encontradas em Cavalieri (2001) e Sapontzis (2014).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.