Os animais teriam uma conexão psicológica menor?

Luciano Carlos Cunha[1]

Por vezes é defendido que, para alguém ser bastante prejudicado com a morte, tem de manter uma conexão psicológica forte com o seu futuro[2]. Por conexão psicológica, se quer dizer o grau com que são mantidas memórias, traços de caráter, crenças, desejos, intenções etc.

Proponentes dessa visão afirmam que os animais não humanos (ou, pelo menos, muitos deles), por possuírem uma menor complexidade cognitiva, possuem uma conexão psicológica muito fraca e que, portanto, quase não são prejudicados com a morte: “é quase como se o futuro que perdem ao morrer fosse o futuro de outro alguém[3]“. Essa ideia por vezes é utilizada para defender que então, não haveria nada de muito errado em matá-los ou deixar de salvar suas vidas.

Uma crítica possível a essa visão é questionar a afirmação de que, para alguém ser gravemente prejudicado com a morte, precisa manter uma conexão psicológica forte com o seu futuro. Essa crítica pode ser vista aqui e aqui.

Neste texto, veremos outro tipo de crítica possível a essa posição: questionar a afirmação de que seres com menores capacidades cognitivas possuam pouca conexão psicológica com o seu eu futuro[4]. Vejamos um exemplo que ilustra essa crítica[5].

Suponhamos que Ana no instante T1 tenha 10 conteúdos mentais, e no instante T2 tenha também 10, mantendo 9 que já estavam em T1 e trocando um único conteúdo. Já Bia também tinha 10 conteúdos mentais em T1, e em T2 manteve todos os 10, mas ganhou outros 90.

IndivíduoConteúdos mentais em T1Conteúdos mentais em T2Conteúdos em comumNovos conteúdosProporção mantida
Ana1010 (9+1)9190%
Bia10100 (10+90)109010%

Se o grau de conexão psicológica for medido a partir da quantidade de conteúdos mentais em comum, Bia tem maior conexão psicológica (10 conteúdos em comum, em comparação a 9 conteúdos de Ana).

Por outro lado, se o grau de conexão psicológica depende é da proporção de conteúdos mentais em comum, é Ana quem possui maior conexão psicológica (manteve 90% de seus conteúdos mentais, enquanto Bia manteve apenas 10%), apesar de a mente de Bia ser mais complexa.

Com base nisso, poderia ser dito que, se o que o conceito de conexão psicológica visa expressar é o quão parecido psicologicamente alguém é entre um instante e outro, então a forma adequada de medi-la é em termos da proporção de conteúdos mentais em comum, e não de sua quantidade.

Se for assim, seres cognitivamente menos sofisticados não necessariamente possuem pouca conexão psicológica com o seu eu futuro. Pelo contrário: dada a proporção dos conteúdos mentais de seres cognitivamente menos complexos variar menos, é possível que estejam conectados psicologicamente aos seus futuros de maneira muito mais forte do que estão os seres cognitivamente mais complexos.

REFERÊNCIAS

FARIA, C. Animal Ethics Goes Wild: The Problem of Wild Animal Suffering and Intervention in Nature. Tese (Doutorado em Filosofia). Barcelona: Universitat Pompeu Fabra, 2016.

HORTA, O. Un desafío para la bioética:la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.

MCMAHAN, J. The Ethics of Killing: Problems at the Margins of Life. Oxford: Oxford University Press, 2002.


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] Ver, por exemplo, a visão de McMahan (2002).

[3] Essa afirmação, na verdade, é feita por McMahan (2002, p. 170) para se referir à morte de crianças pequenas, mas ele aplica a mesma tese para a morte de muitos animais não humanos.

[4] Essa crítica pode ser encontrada em Horta (2007, p. 752) e Faria (2016, p. 22).

[5] Esse exemplo foi adaptado de Faria (2016, p. 22).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.