Luciano Carlos Cunha[1]
1. Objeções normativas e objeções estratégicas
Por vezes alguém não concorda com determinada meta. Chamarei isso de objeção normativa. Em outras vezes, alguém concorda com a meta, mas acredita que determinada estratégia não será eficiente para alcançá-la. Chamarei isso de objeção estratégica.
Em algumas vezes as pessoas reportam sinceramente se a sua objeção é normativa ou se é estratégica. Entretanto, há casos onde alguém diz que sua discordância é estratégica, mas na verdade não concorda com a meta proposta. Neste texto exploraremos como isso acontece em debates sobre ética animal.
2. A alegação de que “isso seria ótimo, mas não vai dar certo”
Há muitos casos onde alguém afirma que concorda com certa proposta, mas alega que defendê-la seria inútil ou mesmo contraproducente (isto é, que não teria efeito, ou teria o efeito contrário daquele pretendido).
Argumentos desse tipo surgem frequentemente contra qualquer posição que aponte que deveríamos nos preocupar com algo que até então não havíamos visto como um problema. A seguir veremos alguns exemplos.
3. Exemplos em questões de ética animal
A seguir estão exemplos de argumentos desse tipo em sete contextos distintos:
Exemplo 1. Diante da proposta de considerar moralmente os animais, afirmar algo como:
“Concordo que devemos considerar os animais. Contudo, se já é difícil as pessoas considerarem os humanos, que dirá considerarem os outros animais. Por isso, é melhor deixarmos para as gerações futuras a defesa dos animais e agora defendermos apenas os humanos, pois isso é o que tornará possível que no futuro as pessoas passem a considerar os animais. Defender agora que as razões para considerar os humanos implicam em considerar os animais só vai é fazer as pessoas acharem absurda a ideia de consideração moral e então rejeitarem considerar até mesmo os humanos”.
Exemplo 2: Diante da proposta de lutar contra o especismo, afirmar algo como:
“Concordo que devemos rejeitar o especismo. Contudo, se já é difícil as pessoas rejeitarem o racismo e o sexismo, que dirá rejeitarem o especismo. Por isso, é melhor deixarmos para as gerações futuras a luta contra o especismo e agora focarmos apenas em lutar contra o racismo e sexismo, pois isso é o que tornará possível que no futuro as pessoas rejeitem o especismo. Defender no momento atual que rejeitar o racismo e o sexismo implica rejeitar o especismo só vai é fazer as pessoas não rejeitarem nem o racismo nem o sexismo”.
Exemplo 3: Diante da proposta de defender a abolição da exploração animal, afirmar algo como:
“Concordo que a exploração animal deve ser abolida. Contudo, se já é difícil as pessoas aceitarem explorar menos os animais, que dirá aceitarem abolir a exploração. Por isso, é melhor deixarmos para as gerações futuras a defesa da abolição e agora focarmos apenas em reformas na exploração animal, pois isso é o que tornará possível que no futuro as pessoas aceitarem aboli-la. Defender agora a abolição só vai é fazer as pessoas rejeitarem até mesmo diminuir o sofrimento dos animais explorados”.
Exemplo 4: Diante da proposta de se chamar a atenção para a situação dos invertebrados (pois são a vasta maioria dos animais, tanto na exploração quanto na natureza), afirmar algo como:
“Concordo que devemos considerar os invertebrados. Contudo, se já é difícil as pessoas considerarem os vertebrados, que dirá considerarem os invertebrados. Por isso, é melhor deixarmos para as gerações futuras a defesa dos invertebrados e agra focarmos apenas nos vertebrados, pois isso é o que tornará possível que no futuro as pessoas considerarem os invertebrados. Defender agora os invertebrados só vai é fazer as pessoas não aceitarem considerar nem os vertebrados”.
Exemplo 5: Diante da proposta de ajudar os animais selvagens vítimas de processos naturais afirmar algo como:
“Concordo com a proposta de ajudar os animais selvagens vítimas de processos naturais. Contudo, se já é difícil as pessoas aceitarem até mesmo serem veganas, que dirá se preocuparem com sofrimento e morte que não advém de práticas humanas. Por isso, é melhor deixarmos essa questão para as gerações futuras e agora focarmos apenas no veganismo, pois isso é o que tornará possível no futuro as pessoas aceitarem a proposta de ajudar os animais selvagens. Defender agora que considerar os animais implica, além de rejeitar sua exploração, também ajudar os animais selvagens, só vai é fazer as pessoas não rejeitarem nem mesmo a exploração”.
Exemplo 6: Diante da proposta de que deveríamos fazer algo para prevenir que no futuro o sofrimento seja multiplicado para níveis astronômicos, afirmar algo como:
“Concordo com a preocupação com o futuro em longo prazo. Contudo, se já é difícil as pessoas aceitarem até mesmo se preocuparem com o presente ou com o curto prazo, que dirá se preocuparem com o longo prazo. Por isso, é melhor deixarmos para as gerações futuras a defesa da preocupação com o longo prazo e agora focarmos apenas no presente ou no curto prazo, pois isso é o que tornará possível que no futuro as pessoas aceitem a preocupação com o longo prazo. Defender agora que considerar os seres sencientes do presente ou do futuro próximo implica considerar os seres sencientes do futuro distante só vai é fazer as pessoas não aceitarem considerar nem mesmo os seres sencientes do presente.
Exemplo 7: Diante da proposta de que, se no futuro vierem a existir seres sencientes não orgânicos, eles devem receber tanta consideração quanto qualquer outro ser senciente, afirmar algo como:
“Concordo com a consideração por seres sencientes não orgânicos. Contudo, se já é difícil as pessoas aceitarem até mesmo considerar os animais, que dirá considerarem seres sencientes não orgânicos. Por isso, é melhor deixarmos para as gerações futuras a defesa de todos os seres sencientes, orgânicos e não orgânicos, e agora focarmos apenas nos animais, pois isso é o que tornará possível que no futuro as pessoas aceitem considerar seres sencientes não orgânicos, caso vierem a existir. Defender agora que considerar os animais implica considerar seres sencientes não orgânicos caso vierem a existir só vai é fazer as pessoas não aceitarem considerar nem mesmo os animais.
Os exemplos acima são apenas algumas amostras desse tipo de argumento. Como deve estar claro agora, todos eles seguem um mesmo padrão (que detalharemos no item 7), e esse padrão aparece em argumentos em muitos outros contextos. Porém os exemplos acima são suficientes para o que este texto almeja discutir.
4. Uma possibilidade: a motivação real não ser aquela que é declarada
Uma coisa em comum em todos os exemplos acima é o fato de as objeções serem estratégicas. Isto é, o proponente da objeção enfatiza que concorda com a meta proposta, mas alega que defendê-la (ou, pelo menos, defendê-la agora) será inútil ou até mesmo contraproducente.
É possível que em vários casos nos quais as alegações acima são feitas, quem faz a objeção esteja sendo sincero e sua ressalva seja realmente estratégica. Entretanto, há pelo menos outra possibilidade: na verdade a pessoa não concorda é com a meta proposta, mas diz que é contra por razões estratégicas.
Em resumo, é dito “não faça isso porque não vai dar certo” mas pode ser que a preocupação real seja “não faça isso porque pode muito bem dar certo e eu não concordo”. Isto é, apesar de ser dito “não adianta defender isso porque ninguém vai aceitar” pode ser que na verdade a preocupação real seja exatamente a oposta: “corre o risco de as pessoas aceitarem algo que eu não concordo”. Nesses casos o que é almejado é fazer com que o interlocutor desista de defender uma ideia da qual se discorda, mas, fingindo que se concorda com ela.
Não significa que isso necessariamente seja feito de modo deliberado. É possível que seja deliberado em alguns casos, e em outros seja feito de modo inconsciente.
5. É possível saber quando se trata de uma objeção normativa disfarçada?
Há como saber quando alguém apresenta uma objeção estratégica para disfarçar que sua discordância ser normativa? Um possível teste seria perguntar: “se você descobrisse que está enganado e que defender a ideia em questão agora seja a melhor forma de alcançá-la e de alcançar as outras metas que desejamos, você ainda seria contra defendê-la?”. Se nesse caso a pessoa ainda for contra, então sua objeção é normativa.
Entretanto, esse teste não terá sucesso se quem disfarça sua objeção normativa de objeção estratégica o faz deliberadamente e perceber que estamos a tentar averiguar se sua ressalva é mesmo estratégica como diz ou não. Se perceber que estamos a testá-lo poderá mentir afirmando que, se defender a ideia em questão agora fosse uma boa estratégia, prontamente aceitaria defender a ideia em questão.
Porém, esse teste funcionará se o objetivo for averiguarmos isso em nós mesmos. Como veremos em mais detalhes no item 7, por vezes a pessoa diz que sua ressalva é estratégica mas é normativa, mas isso é feito de modo inconsciente. Então, é sempre possível alguém perguntar a si próprio: “se fosse provado que defender a ideia em questão agora é uma boa estratégia para alcançar o que ela propõe, eu ainda seria contra?”. Se sim, a discordância é normativa.
6. Por que isso ocorre?
Se alguém discorda de certa meta, por que simplesmente não diz que sua discordância é normativa, em vez de dizer que sua objeção é estratégica quando esse não é o caso? Há várias razões pelas quais é possível que isso ocorra. A seguir estão quatro exemplos.
Uma primeira possibilidade é a pessoa fazer isso para não ficar explícito que não tem bons argumentos para rejeitar a meta proposta.
Uma segunda possibilidade é a pessoa pensar que o disfarce tornará mais fácil convencer o interlocutor. Por exemplo, alguém poderá pensar que o interlocutor não dará ouvidos para quem discorda de sua meta, mas que escutará aqueles que aceitam a meta mas pensam que defendê-la agora será inútil ou contraproducente.
Uma terceira possibilidade é alguém perceber que a ideia em questão vem sendo cada vez mais aceita, e que discordar dela poderia ser mal visto. Peguemos um exemplo com a consideração moral dos animais não humanos. Em décadas anteriores, as objeções a tal consideração costumavam ser explicitamente normativas: era explicitamente defendido que não temos obrigações para com os animais, que os humanos devem receber um tratamento privilegiado, que a exploração animal está justificada etc. Entretanto, com o passar dos anos um número cada vez maior de pessoas passou a rejeitar o especismo. Assim, se alguém perceber que pode “não pegar bem” defender o especismo, isso pode levá-la a dizer que sua discordância é estratégica (para disfarçar que a objeção é normativa). O mesmo vale para os contextos dos outros exemplos que vimos.
Por fim, uma quarta possibilidade é o desejo de evitar a dissonância cognitiva, isto é, o desconforto que decorre de termos crenças conflitantes entre si ou atitudes conflitantes com nossas crenças. Por exemplo, pode ser que alguém acredite que a proposta em questão tem boas razões a seu favor, mas ela contraria suas crenças e atitudes prévias que cultivou durante muitos anos. Assim, ela passa a afirmar que defender a proposta em questão não vai dar certo, para poder continuar a manter as crenças e atitudes que mantinha antes e, assim, escapar da dissonância cognitiva. Um bom exemplo é quando é afirmado que ajudar os animais selvagens só tornaria tudo ainda pior, apesar da boa intenção, sem investigar se isso realmente aconteceria.
Quando aquelas alegações que vimos no item 3 são feitas dificilmente seus proponentes investigam se aquilo que afirmam teria ou não grandes probabilidades de ocorrer. Se não há tal investigação, então muito provavelmente a alegação é feita apenas para evitar a dissonância cognitiva, e não, porque a pessoa realmente possui bons dados para afirmar que aquilo que alega de fato ocorreria.
Falaremos mais disso a seguir.
7. Um padrão comum em objeções desse tipo
No item anterior falamos de possíveis motivações por trás daquelas alegações que vimos no item 3. Será que realmente a pessoa discorda por razões estratégicas ou será que está a disfarçar que sua discordância é normativa? Se for este segundo caso, faz isso de modo deliberado ou inconsciente? Seja de modo deliberado ou inconsciente, por que razão o faz?
Isso tudo é interessante de um ponto de vista da psicologia. Entretanto, para avaliarmos se as alegações em questão são ou não plausíveis, não é necessária essa investigação sobre a motivação real por trás das alegações. Neste e nos próximos dois itens discutiremos a plausibilidade das alegações.
Para começar, é importante observar que há um padrão comum em todas aquelas alegações:
(1) Que ninguém aceitará o que está sendo proposto enquanto outra atitude não for aceita.
(2) Que fazer as pessoas aceitarem essa outra atitude é tão crucial para preparar terreno para a aceitação do que está sendo proposto que deveríamos focar exclusivamente nessa outra atitude e deixar para as próximas gerações a defesa do que queremos propor.
(3) Que defender agora a proposta em questão fará com que as pessoas não aceitem outras posições que queremos que elas aceitem.
A seguir discutiremos de quem é o ônus da prova em relação a essas alegações.
8. De quem é o ônus da prova?
Os proponentes daquelas alegações frequentemente assumem que quem discorda delas tem que provar que elas não poderiam ser verdadeiras. Isto é, assumem que o mero fato de não ser impossível que essas coisas aconteçam joga o ônus da prova para o outro lado. Mas, não é assim. O ônus da prova é inteiramente de quem faz tais alegações, de mostrar que essas coisas de fato aconteceriam (ou, pelo menos, que haveria uma grande probabilidade de ocorrerem).
Isso é assim por um motivo simples: o ônus da prova é sempre de quem faz uma alegação que não é óbvia. Por exemplo, se afirmo que quem tem o nome começando com a letra L tem uma predisposição a gostar de músicas que começam no tom de dó menor, cabe a mim provar que isso é verdadeiro (e não, quem duvida ter que provar que é falso).
Para entender melhor por que o ônus da prova é de quem faz tais alegações, considere o seguinte exemplo.
Exemplo 8: Diante da proposta de combatermos o racismo e o sexismo, alguém afirmar algo como:
“Concordo que devemos rejeitar o racismo e o sexismo. Contudo, se já é difícil as pessoas considerarem os indivíduos da própria raça e do próprio gênero, que dirá rejeitarem o racismo e o sexismo. Por isso, é melhor deixarmos para as gerações futuras a luta contra o racismo e o sexismo e agora focarmos apenas em lutar para as pessoas respeitarem os indivíduos da própria raça e gênero, pois isso é o que tornará possível que no futuro as pessoas rejeitem o racismo e o sexismo. Defender agora que aquilo que realmente explica por que devemos respeitar os indivíduos da própria raça e gênero implica rejeitar o racismo e sexismo só vai é fazer as pessoas não respeitarem nem os indivíduos da própria raça e gênero”.
Diante de uma posição desse tipo, ficaria muito nítido que se está a fazer alegações que são, no mínimo, altamente controversas (e, nesse caso, a desconfiança de que se está a disfarçar de discordância estratégica uma discordância que é na verdade normativa provavelmente seria bem maior). Observe que não é impossível que tais alegações sejam verdadeiras. Mas, como tais alegações não são nada óbvias (aliás, são altamente controversas), cabe a seus proponentes provarem que elas são verdadeiras (ou, pelo menos, que possuem uma probabilidade muito alta de ocorrerem).
Mas, não é isso o que normalmente ocorre no caso das alegações que vimos antes. Normalmente seus proponentes, ou assumem que são os outros que têm que provar que elas são falsas, ou então tentam “cumprir” o ônus da prova dizendo coisas como “é óbvio que isso tudo aconteceria” ou “conheço casos onde isso aconteceu”. Nada disso cumpre o ônus da prova. Primeiro porque dizer “é óbvio que isso tudo aconteceria” não é oferecer razão alguma para pensarmos que ocorreria. Segundo porque apontar para casos onde ocorreu não mostra que isso ocorreria na maioria dos casos, e nem mesmo que ocorreria frequentemente.
Não é fácil cumprir o ônus da prova em relação às posições que vimos no item 3. Primeiro, porque cada uma delas envolve não apenas uma alegação controversa, mas três. Segundo, porque se uma das três não for provada o argumento já enfraquece muito, mesmo que fossem provadas as outras duas.
Além disso, há várias razões para se duvidar de tais alegações. No item a seguir veremos cada uma dessas razões separadamente.
9. Razões para se rejeitar as alegações
Vimos no item anterior que o ônus da prova é de quem faz aquelas alegações. Neste item veremos que, além disso, podem ser oferecidas razões para duvidarmos das alegações em questão. Veremos também que, em relação a algumas daquelas alegações, mesmo que fossem verdadeiras, não fundamentariam a conclusão que seus proponentes almejam.
Consideremos a alegação de que ninguém aceitará o que está sendo proposto enquanto outra atitude não for aceita. Suponhamos que esse fosse o caso. O fato é que, como já há pessoas que aceitam a outra atitude, então quem faz a alegação teria que admitir que essas pessoas poderiam aceitar o que está sendo proposto. Por exemplo, uma das alegações é a de que, para se aceitar ajudar os animais selvagens, antes alguém tem que ser vegano. Como há pessoas que já são veganas, quem faz tal alegação teria que admitir que vale a pena falar sobre ajudar os animais selvagens com essas pessoas. O mesmo vale para qualquer uma das alegações nos outros exemplos.
Além disso, há casos que mostram que aceitar a outra atitude não é necessário para se aceitar o que está sendo proposto. Peguemos novamente como exemplo a proposta de ajudar os animais selvagens. Na verdade alguns de seus proponentes relatam que é mais fácil que as pessoas a aceitem do que aceitarem o veganismo. Isso é assim porque tal proposta exige menos individualmente de cada um de nós do que o veganismo, pois normalmente quem ajudaria seriam os profissionais dos programas de ajuda (o que cada um de nós teria de fazer é apoiar tais programas) enquanto o veganismo envolve cada um de nós modificar a forma de se alimentar e se vestir, por exemplo. Isso mostra que, para se aceitar a proposta de ajudar os animais selvagens, é falso que antes alguém tenha que ser vegano. Em qualquer um dos outros exemplos, apontar para o caso de pessoas que aceitam o que está sendo proposto mas que não aceitam a outra atitude demonstra que aceitar essa outra atitude não é necessário para se aceitar o que está sendo proposto.
E mesmo que aceitar a outra atitude fosse necessário para se aceitar o que estamos propondo, isso não implica necessariamente que devamos parar de defender o que estamos propondo e deixar tal tarefa para as gerações futuras. Por exemplo, poderia ser que defender as duas ideias simultaneamente fosse o melhor para realizar o que almejamos.
Por fim, também há razões para se duvidar da alegação de que defender agora as propostas em questão fará com que as pessoas não aceitem outras posições que queremos que elas aceitem. Há pelo menos outras duas possibilidades. Primeiro, pode ser que aquilo que está sendo proposto não tenha influência alguma em fazer as pessoas aceitarem ou rejeitarem essas outras posições. Segundo, também há a possibilidade de que aquilo que está sendo proposto na verdade contribuir para as pessoas entenderem por que devem aceitar essas outras posições e, assim, ajudar as pessoas a aceitarem essas outras posições.
Por exemplo, se explicamos para alguém que possíveis seres sencientes futuros importam porque também seriam capazes de ser prejudicados e beneficiados porque seriam capazes de sofrer e desfrutar, é fácil explicar por que a consideração moral pelos animais (não humanos e humanos) está fundada sobre os mesmos pilares. Analogamente, se explicamos para alguém que o especismo é injusto porque viola o princípio da igual consideração, fica fácil explicar que devemos rejeitar o racismo e o sexismo pelo mesmo motivo. Se explicamos que devemos nos preocupar com a situação dos animais selvagens porque são seres sencientes e os processos naturais os prejudicam, fica fácil perceber que também devemos nos preocupar com as práticas humanas que prejudicam seres sencientes, sejam domesticados ou selvagens, e assim por diante.
Como vimos no item anterior, não há necessidade de apontarmos essas razões contrárias para rejeitarmos aquelas alegações, pois o ônus da prova é de quem faz tais alegações. Entretanto, como vimos neste item, temos também razões para duvidarmos daquelas alegações.
Notas
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
