Senciência em crustáceos decápodes: um breve resumo das evidências

Luciano Carlos Cunha[1]

Introdução

Um relatório oficial do governo do Reino Unido elaborado por uma equipe de cientistas especialistas revisou mais de 300 estudos e foi publicado em novembro de 2021 concluindo claramente que animais como caranguejos, lagostas, camarões e lagostins (crustáceos decápodes) são capazes de sentir dor. A seguir está um resumo das principais evidências que corroboram essa conclusão[2].

Decápodes reagem a situações prejudiciais

Estas desencadeiam neles uma resposta de estresse e estes mudam seu comportamento de longo prazo[3]. Isso mostra que a mudança em seu comportamento não é um mero reflexo.

Decápodes cuidam de seus ferimentos

Crustáceos esfregam, seguram e limpam uma área lesionada, e mancam e reduzem o uso de partes do corpo lesionadas[4].

Decápodes abrem mão de recursos importantes para evitar a dor

Se um animal está disposto a desistir de algo importante para evitar uma experiência dolorosa, isso sugere que o animal pode sentir dor. Há vários estudos que confirmam esse tipo de comportamento em decápodes[5].

Os caranguejos são presas noturnas, portanto um abrigo escuro é um recurso muito importante. Mas, estes preferem ficar em uma área iluminada e desprotegida se percebem que o abrigo lhes ocasiona um choque elétrico[6]. Da mesma maneira, caranguejos-eremitas preferem conchas de pior qualidade se percebem que a concha de melhor qualidade lhes ocasiona um choque[7].

Decápodes respondem a analgésicos

Estudos confirmaram que os camarões exibem comportamentos diferentes após um mesmo ferimento dependendo de se recebem ou não analgésicos[8].

Decápodes aprendem e formam memórias

A formação da memória pode ajudar a diferenciar entre meros reflexos e uma experiência dolorosa real, pois mudança de longo prazo no comportamento proporciona proteção contra lesões [9]. Crustáceos decápodes evitam a dor por meio do aprendizado e lembrança de uma negativa anterior. Por exemplo, eles lembram de evitar uma causa específica de dor por pelo menos 24 horas[10], lembram de outros de sua espécie por até 4 dias[11]. Caranguejos necessitaram de apenas duas tentativas para aprenderem a evitar uma mesma situação nociva[12] e se lembram de evitar um mesmo estímulo nocivo após um dia inteiro[13].

Decápodes experimentam estresse e ansiedade    

A dor é uma experiência negativa frequentemente associada a uma resposta ao estresse[14]. Sentir dor faz com que os indivíduos se tornem mais avessos ao risco, o que ajuda a protegê-los contra lesões e prolonga a sobrevivência. Ansiedade é o nome dado ao processo de evitar riscos decorrentes da dor[15]. Portanto, evidências de estresse e ansiedade podem indicar que um animal é senciente.         

Antes de receberem um medicamento ansiolítico, os lagostins evitavam ativamente o estressor, mas depois que a droga foi administrada, os sinais comportamentais de ansiedade desapareceram[16]. Em outro estudo, lagostins mudaram seu comportamento em decorrência da exposição a antidepressivos (como os humanos, seus cérebros utilizam o hormônio serotonina)[17]. O lactato é um indicador de estresse[18], e há numerosos estudos confirmando níveis aumentados de lactato em decápodes após uma experiência estressante[19].

REFERÊNCIAS

ALBERT, J.L., ELLINGTON, W.R. Patterns of energy-metabolism in the stone crab, Menippe mercenaria, during severe hypoxia and subsequent recovery. Journal of Experimental Zoology, n. 234, p. 175–183, 1985.

APARICIO-SIMÓN, B., PIÑÓN, M., RACOTTA, R., RACOTTA, I.S. Neuroendocrine and metabolic responses of Pacific whiteleg shrimp Litopenaeus vannamei exposed to acute handling stress. Aquaculture, n. 298(3-4), p. 308-314, 2010.

APPEL, M., ELWOOD, R.W. Gender differences, responsiveness and memory of a potentially painful event in hermit crabs. Animal Behaviour, n. 78 (6), p. 1373-1379. 2009a. 

APPEL, M., ELWOOD, R.W. Motivational trade-offs and the potential for pain experience in hermit crabs. Applied Animal Behaviour Science, n. 119, p; 120-124, 2009b. 

BARR, S., LAMING, P.R., DICK, J.T.A., ELWOOD, R. Nociception or pain in a decapod crustacean? Animal Behaviour, n. 75(3), p; 745–751, 2008.

BRAITHWAITE, V. Do fish feel pain? OUP Oxford. 2010.

BROOM, D.M., JOHNSON, K.G. Stress and Animal Welfare. 2nd ed. Springer: Berlin, Germany. 2019.

DIARTE-PLATA, G., SAINZ-HERNÁNDEZ, J.C., AGUIÑAGA-CRUZ, J.A., FIERRO-CORONADO, J.A., POLANCO-TORRES, A., PUENTE-PALAZUELOS, C. Eyestalk ablation procedures to minimize pain in the freshwater prawn Macrobrachium americanum. Applied Animal Behaviour Science, n. 104 (3-4), p. 172-178, 2012.

DYUIZEN, I.V., KOTSYUBA, E.P., LAMASH, N. E. Changes in the nitric oxide system in the shore crab Hemigrapsus sanguineus (Crustacea, decapoda) CNS induced by a nociceptive stimulus. Journal of Experimental Biology, n. 215 (15), p. 2668-2676, 2012.

ELWOOD, R. Discrimination between nociceptive reflexes and more complex responses consistent with pain in crustaceans. Phil. Trans. R. Soc. B374:20190368.http://dx.doi.org/10.1098/rstb.2019.036, 2019.  

ELWOOD, R. W., ADAMS, L. Electric shock causes physiological stress responses in shore crabs, consistent with prediction of pain. Biology letters, n. 11 (11), 20150800, 2015.

ELWOOD, R. W., BARR, S., PATTERSON, L. Pain and stress in crustaceans? Applied animal behaviour science, n. 118 (3), p. 128-136, 2009.

FERNANDEZ-DUQUE, E., VALEGGIA, C., MALDONADO, H. Multitrial inhibitory avoidance learning in the crab chasmagnathus. Behavioural and Neural Biology, n. 57 (3), p. 189-197, 1992.

FOSSAT, P., BACQUÉ-CAZENAVE, J., DE DEURWAERDÈRE, P., DELBECQUE, J. P., CATTAERT, D. Anxiety-like behavior in crayfish is controlled by serotonin. Science, n. 344(6189), p. 1293-1297, 2014. 

GHERADI, F., ATEMA, J. Memory of social partners in hermit crab dominance. Ethology, n. 111, p. 271–285, 2005.

MAGEE, B., ELWOOD, R. No discrimination shock avoidance with sequential presentation of stimuli but shore crabs still reduce shock exposure. Biology Open, n. 5, p. 883-888, doi:10.1242/bio.019216, 2016b.

MAGEE, B., ELWOOD, R. W. Shock avoidance by discrimination learning in the shore crab (Carcinus maenas) is consistent with a key criterion for pain. Journal of Experimental Biology, n. 216 (3), p. 353-358, 2013.

MAGEE, B., ELWOOD, R. W. Trade-offs between predator avoidance and electric shock avoidance in hermit crabs demonstrate a non-reflexive response to noxious stimuli consistent with prediction of pain. Behavioural Processes, n. 130, p. 31-35, 2016.

MALDONADO, H., MIRALTO, A. Effect of morphine and naloxone on a defensive response of the mantis shrimp (Squilla mantis). Journal of comparative physiology, n. 147 (4), p. 455-459, 1982. 

PATTERSON, L., DICK, J. T., ELWOOD, R. W. Physiological stress responses in the edible crab, Cancer pagurus, to the fishery practice of de-clawing. Marine Biology, n. 152 (2), p. 265- 272, 2007.

REISINGER, A., REISINGER, L., RICHMOND, E., AND ROSI, E. Exposure to a common antidepressant alters crayfish behavior and has potential subsequent ecosystem impacts. Ecosphere, n. 12(6):e03527. 10.1002/ecs2.3527, 2021.


Notas

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] Para um relato mais detalhado, ver https://www.crustaceancompassion.org/do-crustaceans-feel-pain.

[3] Elwood, Adams, (2015); Braithwaite  (2010).. 

[4] Elwood, Barr (2009); Dyuizen et. al. (2012); Elwood (2019); Barr et. al.. (2008).

[5] Elwood (2019).

[6] Magee, Elwood (2016).

[7] Appel, Elwood, R.W. (2009b). 

[8] Barr et. al. (2008); Diarte-Plata et. al. (2012); Maldonado, Miralto (1982). 

[9] Elwood (2019).

[10] Fernandez-Duque et. al. (1992).

[11] Gheradi, Atema (2005).

[12] Elwood (2019); Magee, Elwood (2013); Magee, Elwood (2016b). 

[13] Appel, Elwood (2009a). 

[14] Broom, Johnson (2019).. 

[15] Elwood (2019).

[16] Fossat et. al. (2014).. 

[17] Reisinger et. al. (2021).

[18] Albert, Ellington (1985).. 

[19] Patterson et. al. (2007); Aparicio-Simón et. al.. (2010)..


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.