Luciano Carlos Cunha[1]
Sumário
- 1. A alegação de que consumir os animais causa-lhes um benefício por trazê-los à existência
- 2. Esse argumento não se aplica à vasta maioria dos casos
- 3. Causar um benefício dá direito à causar um malefício?
- 4. A objeção de que alguns animais quase não são prejudicados com a morte
- 4.1. O apelo à identidade
- 4.2. O apelo às razões prudenciais
- 5. A objeção de que o consumo de animais poderia aumentar o saldo total positivo
- 6. Conclusão
1. A alegação de que consumir os animais causa-lhes um benefício por trazê-los à existência
Consumir os animais, apesar de causar suas mortes, faz com que outros nasçam no mesmo sistema, substituindo-os. Por vezes é defendido que isso torna correto o consumo de animais pois, alegadamente, os beneficiaria fazendo-os nascer. Esse argumento vem sendo conhecido como defesa da substituição.
2. Esse argumento não se aplica à vasta maioria dos casos
Um primeiro problema com esse argumento é que uma quantidade gigantesca dos animais que são criados para consumo vivem vidas que são, literalmente, um inferno. Esse é o caso dos animais que nascem na pecuária industrial, por exemplo. Portanto, não são beneficiados de maneira alguma por nascerem em tais condições. Muito pelo contrário.
Porém, o proponente da substituição poderia dizer que a sua proposta é justamente reformar o sistema de exploração animal para que os animais levem vidas positivas. É claro, é duvidoso que isso seria possível na prática, dada a alta demanda por produtos de origem animal. Entretanto, independentemente disso, é possível desafiar a própria ideia de que os animais são substituíveis. É o que veremos a seguir.
3. Causar um benefício dá direito à causar um malefício?
O segundo problema com a defesa da substituição é que, mesmo que o consumo de animais os fizesse nascer para terem vidas positivas, isso não implica necessariamente que é correto matá-los. Se implicasse, também seria correto que os pais matassem os filhos, desde que lhes dessem vidas positivas e fizessem nascer outros para substituí-los.
Se os animais não fossem prejudicados com a morte, talvez fizesse sentido dizer que tudo bem matá-los, desde que tivessem uma vida positiva e fossem substituídos. Entretanto, os animais são prejudicados com a morte porque esta os impede de desfrutar das experiências positivas que teriam se continuassem vivos.
É claro, existem casos onde os animais, se continuassem vivos, experimentariam somente sofrimento. Nesses casos é menos ruim morrer do que continuar vivo. Entretanto, esse não pode ser o caso dos animais aos quais o argumento faz referência, uma vez que o argumento tenta justificar o consumo de animais alegando que tal prática poderia fazer nascer animais que teriam vidas positivas. Entretanto, em tais condições, tais animais seriam prejudicados com a morte, já que esta impediria a continuação de uma vida positiva.
Em resumo, pode haver razões para fazer com que animais nasçam para ter vidas positivas (por exemplo, se alguém possui a meta de fazer com que o mundo contenha o maior número possível de seres sencientes com vidas positivas). Entretanto, uma vez que eles existem e levam vidas positivas, já há então fortes razões contra matá-los. Portanto, o fato de que o consumo de animais poderia, em condições ideais, fazer com que certos animais nascessem para ter vidas positivas não parece ser suficiente para justificar o consumo de animais. Matar tais animais causaria um mal maior do que deixar de produzir novos seres sencientes. Este ponto é discutido em mais detalhes neste texto.
4. A objeção de que alguns animais quase não são prejudicados com a morte
Por vezes é defendido que alguns animais (a saber, aqueles que alegadamente não retém uma conexão psicológica forte ao longo do tempo) não seriam prejudicados com a morte. A seguir discutiremos duas tentativas de fundamentar essa alegação: o apelo à identidade e o apelo às razões prudenciais.
4.1. O apelo à identidade
Segundo determinada teoria, o que faz alguém ser o mesmo indivíduo ao longo do tempo é sua conexão psicológica[2]. Segundo essa visão, se um ser que não possui sentido temporal de si (isto é, não retém memórias e não se imagina no futuro) não é o mesmo indivíduo ao longo do tempo, então tanto faz manter esse corpo vivo ou matá-lo e fazer nascer outro: de qualquer maneira, o indivíduo que existe agora é aniquilado (a diferença será apenas que o novo indivíduo nascerá nesse mesmo corpo ou em outro).
Uma crítica a essa visão defende que ela confunde dois sentidos do termo “o mesmo”: o sentido qualitativo e o sentido numérico[3]. Faz sentido afirmar que alguém que perdeu suas memórias “não é mais o mesmo” qualitativamente (isto é, no sentido de ser muito diferente psicologicamente do que era antes). Contudo, isso não significa que numericamente seja outro indivíduo a ocupar aquele corpo e que o indivíduo anterior morreu. É o mesmo indivíduo, apesar de ele não se lembrar do que aconteceu com ele. Neste texto você pode ver uma discussão mais detalhada sobre essa questão.
4.2. O apelo às razões prudenciais
Outra tentativa de defender que os animais que possuem pouca conexão psicológica são substituíveis concorda que a conexão psicológica não é relevante para determinar a identidade de um indivíduo, mas defende que ela é relevante para determinar a força das razões prudenciais de um indivíduo[4].
Razões prudenciais são as razões que alguém possui para tentar evitar eventos negativos e para buscar eventos positivos que poderiam acontecer consigo próprio. De acordo com a visão que estamos a discutir, a força dessas razões deveria ser determinada multiplicando-se o quão bom ou ruim é esse evento pela conexão psicológica que o indivíduo manteria com o seu “eu futuro”[5].
Segundo essa visão, os seres que possuem pouca conexão psicológica não são muito prejudicados com a morte, mesmo que ela os prive de ter experiências bastante satisfatórias.
Entretanto, considere o seguinte exemplo. Imaginemos que Bia ainda é uma criança de cinco anos, e tem o desejo de conhecer as pirâmides do Egito. Contudo, imaginemos que, se ela viajar agora, enquanto possui uma conexão psicológica forte com quem ela é agora, a viagem será prazerosa, mas que será muito mais prazerosa se ela viajar quando for adulta. Contudo, quando for adulta, terá uma conexão psicológica muitíssimo fraca com quem ela é agora (suas memórias, traços de caráter, crenças, desejos e intenções terão mudado bastante).
Parece que Bia tem razões prudenciais para preferir fazer a viagem quando for adulta, simplesmente porque a viagem lhe será muito mais prazerosa. Se isso estiver correto, então a conexão psicológica não é relevante para determinar a força das razões prudenciais que alguém possui para buscar eventos positivos e, por conseguinte, para evitar a morte.
Isso sugere que um indivíduo que possui pouca (ou mesmo nenhuma) conexão psicológica com o seu futuro não é necessariamente pouco prejudicado com a morte, pois deixar de experimentar os eventos positivos que a morte impediria não lhe é, por isso, pouco prejudicial. Portanto, um apelo à conexão psicológica não parece conseguir mostrar que os animais não humanos que, alegadamente, têm pouca conexão psicológica, são pouco prejudicados com a morte. Neste outro texto você pode ver uma discussão detalhada sobre essa questão.
5. A objeção de que o consumo de animais poderia aumentar o saldo total positivo
Alguns autores[6] defenderam que, se o consumo de animais os fizesse nascer para ter vidas positivas, como cada animal seria substituído por outro depois de ser morto, ao longo do tempo haveria muito mais animais nascendo e levando vidas satisfatórias do que se a exploração animal fosse abolida (pois então provavelmente menos animais nasceriam). Assim, defenderam que, por isso, o correto é defender uma reforma na exploração animal para que os animais levem vidas significativas, em vez da abolição da exploração animal.
Uma maneira de criticar essa posição é, como vimos, defender que o mal de matar um ser que já existe não é compensado pelo benefício de produzir um novo ser que levaria uma vida significativa. Entretanto, outra maneira de criticá-la é defender que, mesmo levando em conta apenas a meta de maximizar o saldo total de bem-estar, se levarmos em conta todas as consequências (e não apenas as consequências diretas do consumo), defender a abolição do uso de animais parece ter muito maiores probabilidades de realizar essa meta do que um ideal que reforça a ideia de que os animais não humanos são recursos para os humanos. Vejamos:
A abolição do uso de animais enquanto recursos, por divulgar o ideal de consideração pelos seres sencientes, poderia motivar as pessoas a tentarem minimizar o sofrimento e as mortes que os animais padecem em decorrência dos processos naturais[7] (que, ao contrário do que poder-se-ia pensar inicialmente, afeta uma quantidade enormemente maior de animais do que a quantidade de animais que é vítima da exploração). Também poderia motivar as pessoas a tentarem minimizar os riscos de sofrimento futuro que, caso se concretizem, podem ser tão astronômicos que tornariam o sofrimento existente atualmente (somando-se o sofrimento decorrente das práticas humanas e aquele decorrente de processos naturais) um “grão de areia” em comparação.
A defesa do consumo de animais, por outro lado, reforça o especismo[8] e a ideia de que os animais não humanos são meros recursos, tornando bastante provável que contribua para que seu sofrimento também seja negligenciado, seja de origem antropogênica ou natural. Assim, se a meta de alguém é alcançar as melhores consequências, terá que proibir a substituição. Neste outro texto essa questão é discutida em mais detalhes.
6. Conclusão
Vimos que há boas razões para pensarmos que os animais são, de fato, bastante prejudicados com a morte, ainda mais nas condições ideais que a defesa da substituição supõe, onde levariam vidas positivas.
Vimos também que, mesmo que não levássemos em conta o dano da morte e nossa meta fosse apenas maximizar o saldo total de bem-estar, provavelmente a substituição contribuiria para que ao longo do tempo fosse produzido um saldo altamente negativo de bem-estar. Por outro lado, como vimos, parece que defender a abolição do uso de animais seria uma forma bastante promissora de maximizar o saldo total de bem-estar ao longo do tempo.
Se isso estiver correto, então a substituição é injustificável.
REFERÊNCIAS
CRISP, R. Utilitarianism and Vegetarianism. International Journal of Applied Philosophy, v. 4, n. 1, p. 41-9, 1988.
CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
HARE, R. M. Moral Thinking. Oxford: Oxford University Press, 1981.
HORTA, O. Na defensa dos animais. Rianxo: Axóuxere, 2019.
HORTA, O. O que é o especismo? Ethic@, v. 21, n. 1, 162-193, 2022 [2010].
LOCKE, J. An Essay Concerning Human Understanding. Oxford: Clarendon Press, 1975 [1694].
MCMAHAN, J. The Ethics of Killing: Problems at the Margins of Life. Oxford: Oxford University Press, 2002.
NOONAN, H; CURTIS, B. Identity. In: ZALTA, E. N. (org.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Summer 2018 Edition.
OLSON, E. T. Personal Identity. In: ZALTA, E. N. (org.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Spring 2021 Edition.
Notas
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2] Essa visão é normalmente atribuída à Locke (1975 [1694], p. 335), mas foi defendida também por vários filósofos no século XX. Para uma lista desses autores, ver Olson (2021).
[3] Sobre essa distinção, ver Noonan e Curtis (2018).
[4] Essa visão é defendida por McMahan (2002, p. 43, 66-9, 75-80).
[5] McMahan (2002, p. 80).
[6] Ver, por exemplo, Crisp (1988) e Hare (1999, p. 238-239)
[7] Para uma discussão sobre as implicações éticas dessa situação, ver Cunha (2022a).
[8] Sobre a definição de especismo, ver Horta (2022)
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
