Luciano Carlos Cunha[1]
Sumário
- 1. Riscos-s e riscos-x
- 2. Discutindo uma tentativa especista de defender o foco nos riscos-x
- 3. A alegação de que a humanidade é essencial para prevenir sofrimento
- 4. Razões para focarmos mais nos riscos-s
1. Riscos-s e riscos-x
Riscos de sofrimento futuro, ou riscos-s, são riscos de que no futuro ocorram eventos que resultem em sofrimento de magnitude gigantesca, que excede o sofrimento existente na Terra até agora[2]. Exemplos são o fato de a tecnologia no futuro ter o potencial de aumentar vastamente a exploração animal, os danos que os animais padecem em decorrência de processos naturais[3] e de criar novos tipos de seres sencientes, por exemplo, em meios digitais[4].
Já riscos existenciais, também conhecidos como riscos-x, são os riscos de aniquilação da humanidade (ou, pelo menos, de um colapso da civilização). Exemplos são aquecimento global, armas nucleares, pandemias etc.
Para termos o melhor impacto na história daqui para frente devemos focar em prevenir riscos-s ou riscos-x? É o que discutiremos neste texto.
2. Discutindo uma tentativa especista de defender o foco nos riscos-x
Uma maneira de defender o foco nos riscos-x é defender que os humanos importam muito mais. Entretanto, há dois problemas com esse argumento.
O primeiro, é que não parece haver como justificar dar um peso maior aos humanos. De um ponto de vista não tendencioso, iguais quantidades de prejuízo e benefício importam igualmente, independentemente de fatores que dependem da sorte, como a espécie a qual alguém pertence.
O segundo problema é que, mesmo que fosse dado um peso muito menor aos seres sencientes não humanos, a quantidade de seres potencialmente afetados pelos riscos-s é tão astronomicamente maior que ainda teríamos que concluir por investir mais recursos em prevenir riscos-s do que riscos-x.
3. A alegação de que a humanidade é essencial para prevenir sofrimento
Por vezes é defendido que devemos priorizar riscos-x não porque humanos importam mais, mas porque fazê-lo seria necessário para prevenir riscos-s. Na ausência de agentes com tecnologia à disposição, não haverá ninguém para diminuir o sofrimento no mundo. Com base nisso, poderia ser dito que, enquanto houver riscos-x não devemos nos preocupar com riscos-s.
A força desse argumento depende do quão positivo ou negativo será o impacto da humanidade na história daqui para frente. No melhor cenário, a humanidade continuaria existindo e tentando prevenir o sofrimento. Mas, outra possibilidade é continuar a existir e não se importar em reduzir o sofrimento que já existiria naturalmente ou, pior ainda, produzir muito mais sofrimento do que já existiria naturalmente. Comparemos três possíveis cenários:
(1) A humanidade continuar e haver menos sofrimento do que se fosse extinta.
(2) A humanidade ser extinta.
(3) A humanidade continuar e haver mais sofrimento do que se fosse extinta.
Parece que 1 é o melhor dos três cenários, e que 3 é pior do que 2. A ideia na base do foco nos riscos-s é que é mais importante evitar o pior cenário de todos. Além disso, uma estratégia essencial para evitar o pior cenário também é essencial para se tentar alcançar o melhor cenário: divulgar da maneira mais eficiente possível a consideração por todos os seres sencientes. Isso é crucial para garantir que, se a humanidade continuar a existir, tentará prevenir sofrimento em vez de aumentá-lo.
4. Razões para focarmos mais nos riscos-s
Algumas razões para focar mais em evitar sofrimento do que em riscos existenciais são:
(1) Severidade: Os riscos de sofrimento futuro têm o potencial de ter um impacto astronomicamente maior do que os riscos existenciais, seja em termos de severidade (pois representa a possibilidade de sofrimento extremo durante vidas inteiras de futuros seres sencientes), seja em escopo (pois afetaria todos os seres sencientes no universo daqui até o final dos tempos).
(2) Impacto esperado: A probabilidade dos riscos-s não é menor do que a dos riscos-x.
(3) Tratabilidade: Há também muito que poderia ser feito para tentar minimizar os riscos-s.
(4) Grau de negligência: Há já muito mais pessoas preocupadas em evitar riscos-x do que riscos-s.
Entretanto, também é importante lembrar que o foco em riscos-s ou riscos-x pode ser uma questão de grau, e não necessariamente de uma meta excluir a outra. Assim, acreditar que prevenir riscos-x é mais importante não justifica achar que prevenir riscos-s não é muito importante. Da mesma maneira, se alguém prioriza riscos-s isso não significa que pense que prevenir riscos-x não seja muito importante.
REFERÊNCIAS
BAUMANN, T. Avoiding the worst final: how to prevent a moral cathastrophe. Center for Reducing Suffering, 2022.
CUNHA, L. C. Vítimas da natureza: implicações éticas dos danos que os ani- mais não humanos padecem em decorrência dos processos naturais. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, 2018.
CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022.
ÉTICA ANIMAL. Introdução ao sofrimento dos animais selvagens. Oakland: Ética Animal, 2023 [2020].
ÉTICA ANIMAL. Utilitarismo. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 22 out. 2015.
TOMASIK, B. Applied Welfare Biology and Why Wild-Animal Advocates Should Focus on Not Spreading Nature. Essays on Reducing Suffering, 03 jun. 2022.
TOMASIK, B. Omelas and Space Colonization. Essays on Reducing Suffering, 23 mar. 2017.
TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators, 03 fev. 2015.
VINDING, M. Suffering-focused ethics: Defense and implications, Copenhagen: Ratio Ethica, 2020.
Notas
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2] Para uma análise detalhada das questões relacionadas aos riscos-s, ver Baumann (2022). Ver também Vinding (2020).
[3] Sobre como os animais são tipicamente afetados por processos naturais e as implicações éticas disso, ver Cunha (2018, 2022) e Ética Animal (2023 [2020]). Sobre como isso está relacionado a riscos-s, ver Baumann (2022, p. 50-2, 56, 84 ) e Tomasik (2017, 2022).
[4] Sobre isso, ver Tomasik (2015).
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
