Julgamentos de valor, descrições de fatos, objetividade e subjetividade

Luciano Carlos Cunha[i]

Sumário

1. A ideia de que julgamentos de valor são subjetivos

O que estou a chamar de julgamentos de valor são qualquer julgamento do tipo bom/ruim melhor/pior. Tais julgamentos são diferentes de julgamentos normativos, pois estes últimos dizem respeito às razões para agir dessa ou daquela maneira. Julgamentos normativos incluem, por exemplo, julgamentos sobre os melhores meios para alcançar um fim (algo que é discutido nas teorias da decisão racional) e sobre quais fins são justificáveis (algo que é discutido na área de ética normativa). Julgamentos de valor são discutidos na área conhecida como teoria do valor. É claro, normalmente a principal função de um julgamento de valor é orientar a prática, pois se concluímos que algo é bom ou melhor, isso parece nos dar uma razão para buscá-lo (e, analogamente, se concluímos que é ruim ou pior, isso parece nos dar uma razão para evitá-lo). Entretanto, tratam-se de domínios diferentes do pensamento. Portanto, tudo o que será dito aqui tem a ver apenas com julgamentos de valor.

Uma ideia bastante comum é a de que “fatos são objetivos, valores são subjetivos”. Normalmente, o que se quer dizer com isso é que é possível de se estabelecer se uma descrição sobre fatos é verdadeira ou falsa, enquanto que não é possível tal coisa para julgamentos de valor.

2. Dois sentidos do termo “subjetivo”

Há que se perguntar por que isso seria assim. Uma possível resposta seria dizer que os fatos, devido à sua própria natureza, seriam objetivos porque se situam no mundo exterior, o mundo físico, enquanto os valores, devido à sua própria natureza, seriam subjetivos porque são estados mentais.

Se a resposta é essa, então o termo “subjetivo” está sendo utilizado, sem se perceber, em dois sentidos distintos. Está sendo utilizado tanto para se referir a “estados mentais” quanto para se referir a “aquilo que não é possível de se estabelecer como verdadeiro ou falso”. Mas, não há porque se pensar que, se algo é subjetivo no primeiro sentido, necessariamente o é no segundo. Podemos constatar isso mesmo no caso das descrições de fatos, pois elas não descrevem apenas fenômenos do mundo exterior, mas, também eventos mentais. Por exemplo, se pergunto “João está sentido dor?”, há uma resposta correta para essa questão: é “sim”, se João estiver mesmo sentido dor, e “não” se não estiver sentido dor. Isso, por si só, já mostra que não podemos inferir, a partir de uma questão dizer respeito a um evento mental, que não há  necessariamente uma resposta correta para ela.

3. As atividades de descrever e valorar

Poderia ser objetado que, no exemplo acima, há uma resposta correta para a questão justamente porque a resposta envolve descrever estados mentais, e não, valorar. Segundo essa objeção, se uma questão tem ou não uma resposta correta não tem a ver com ela dizer respeito a um evento físico ou mental, mas sim, com ela envolver as atividades de descrever ou valorar.

No entender dessa objeção, descrições de fatos (seja de eventos exteriores, seja de eventos mentais) podem ser avaliadas como verdadeiras ou falsas. Já julgamentos de valor (isto é, julgamentos sobre o que é bom/ruim, melhor/pior) não podem ser avaliados como verdadeiros ou falsos.

4. Como confirmar um julgamento de valor?

Contudo, diante dessa objeção, temos de novamente perguntar por que se supõe que julgamentos de valor não teriam uma resposta correta. Diante dessa questão, poderia ser respondido que, quanto a descrições, há um evento no mundo (exterior ou mental) que podemos utilizar para confirmar se a descrição é verdadeira ou não. Já no caso dos julgamentos de valor, não haveria nada disso.

Entretanto, em resposta a isso poderia ser defendido que a objetividade dos julgamentos de valor se dá de modo distinto: a confirmação de que um julgamento de valor está correto ou errado não se dá por verificar se no mundo há certos fatos que correspondem ao julgamento, mas (pelo menos em alguns casos) por experiência direta daquilo que é avaliado como bom ou ruim, melhor ou pior. Vejamos:

Peguemos um exemplo com o caso mais escancarado de todos, que é o caso do sofrimento. Por sofrimento, quero dizer aqui toda e qualquer experiência negativa, desde a mais simples até a mais complexa, seja lá se surge de um estímulo físico ou psicológico. Imaginemos que alguém diga: “o sofrimento é intrinsecamente negativo”. Esse é claramente um julgamento de valor. Não estamos meramente a descrever que quem sofre é prejudicado com o sofrimento. Ao invés, estamos avaliando negativamente o sofrimento.

O que se quer dizer com intrinsecamente negativo é que o sofrimento é negativo em si: ele próprio já é ruim, não precisa conduzir a outra coisa ruim para ser ruim. Esse julgamento implica também defender que o sofrimento, quando tem valor, só pode ter valor instrumental, isto é, quando conduz a alguma coisa boa ou evita alguma coisa ruim. Isso ocorre, por exemplo, quando a dor que sentimos ao encostarmos no fogo faz com que nos afastemos e isso evita de nos queimarmos ainda mais ou que morramos. Nesse caso, o sofrimento teve valor instrumental. Por essa mesma razão, o caso dos masoquistas não mostra que o sofrimento não é negativo em si: na verdade, tal caso confirma que o sofrimento só pode ter valor instrumental (uma vez que, no caso dessas pessoas, conduz ao prazer).

O que então realmente prova que o sofrimento é intrinsecamente negativo? É a impossibilidade de experimentá-lo de outro modo, a não ser como algo negativo. Todos os que experimentam sofrimento o experimentam como negativo. Se não é negativo, não é sofrimento. O que mais poderia ser feito para comprovar o julgamento de valor “o sofrimento é intrinsecamente negativo”? Uma vez que todos que experimentam o sofrimento o experimentam como negativo em si, e que é impossível experimentrá-lo como algo positivo em si, esse julgamento de valor necessariamente está correto. Se alguém disser que o sofrimento não é intrinsecamente negativo, o seu julgamento de valor está incorreto, uma vez que o sofrimento é negativo em si.

Tudo o que foi dito até aqui para o desvalor das experiências negativas pode ser dito analogamente para o valor das experiências positivas. Ou seja, todos os que experimentam prazer ou felicidade experimentam essas coisas como positivas em si. Novamente, experiências positivas só podem ser negativas instrumentalmente. Isto é, elas só podem ser negativas se conduzirem a coisas negativas ou impedirem coisas positivas. Isso ocorre, por exemplo, quando, devido a uma comida ser muito saborosa, exageramos ao comê-la e passamos mal depois (e então teremos sofrimento) ou morremos (e então seremos impedidos de desfrutar estados positivos).

5. O exemplo dos alienígenas que tiveram até então apenas experiências neutras

É porque temos acesso direto ao sofrimento e ao prazer que sabemos qual é negativo em si e qual é positivo em si. Isso é tão óbvio para nós que sequer nos passa pela cabeça que tal experiência direta é uma prova sobre julgamentos de valor. Se não tivéssemos tais experiências, tudo o que poderíamos querer em termos de prova sobre julgamentos de valor seria sermos capaz de tê-las. A seguir está um exemplo para ilustrar esse ponto.

Suponhamos que houvesse uma espécie alienígena cujos membros fossem sencientes mas que, em seu mundo, não houvesse nada que lhes cause sofrimento ou prazer. Por isso, as experiências desses alienígenas até o momento são todas neutras: nem positivas, nem negativas. Entretanto, lembre-se que eles são capazes de experiências negativas e positivas: acontece é que nunca encontraram algo que lhes causasse tais experiências. Por conta da seleção natural, no mundo real provavelmente tal espécie não existe. Entretanto, lembre-se que trata-se apenas de um experimento de pensamento para defender que a objetividade dos julgamentos de valor acontece por experiência direta.

Agora imagine que tais alienígenas ouviram falar que na Terra os seres sencientes experimentam sofrimento e prazer. Só que, porque esses alienígenas nunca tiveram essas experiências, eles não fazem ideia de como são essas experiências. Eles ouviram falar que os terrestres dizem que uma delas é negativa (o sofrimento) e outra é positiva (o prazer). Mas, eles não sabem o que isso quer dizer pois, como nunca experimentaram nada positivo ou negativo, não formaram o conceito de valor. O que poderíamos fazer para provar a tais alienígenas que é o sofrimento que é negativo e que o prazer que é positivo e explicar o que se quer dizer com os conceitos de negativo e positivo? Fazê-los experimentar cada uma dessas coisas. É por isso que experimentar o sofrimento como negativo e o prazer como positivo é a prova de que tais coisas são, respectivamente, negativo e positivo.

6. Coisas que é impossível explicar a não ser a partir de seu valor/desvalor

Outra prova adicional é apontar que, diferentemente de outras coisas, não é possível explicar o que é o sofrimento e o prazer sem citar como suas características principais serem, respectivamente, negativo e positivo. Comparemos com outras coisas. Por exemplo, há pessoas que defendem que espécies ou ecossistemas possuem valor em si. A razão pela qual faz sentido manter que tal afirmação é discutível é que conseguimos explicar de maneira completa o que é uma espécie ou um ecossistema sem ter que mencionar, entre suas características centrais, serem “positivos em si”. Isso, como vimos, não acontece em relação à afirmação de que o sofrimento é negativo em si e que o prazer é positivo em si.

7. A confusão entre os domínios do valor e da ética

Poderia ser objetado que, se o prazer é bom em si, então o prazer que um torturador sente ao torturar suas vítimas é bom em si. Quanto a esse ponto, é importante observar que nada do que foi dito acima é sobre qual a ação correta (e sim, sobre como os indivíduos são afetados positiva ou negativamente). Podemos, sem contradição, manter que o prazer é sempre intrinsecamente positivo, e também manter que a ação de um torturador é injustificável. A razão principal para condenarmos tal ação é justamente o prejuízo causado para a vítima (que só podemos reconhecer se reconhecemos que o sofrimento é negativo em si). Assim, em tal situação, ao dizermos que o sofrimento é ruim em si e que o prazer é bom em si, tudo o que implica é termos de reconhecer que o torturador foi beneficiado pelo prazer que sentiu e que a vítima foi prejudicada pelo sofrimento que sentiu. Nada disso implica em aprovar a ação do torturador (na verdade, isso nos dá ótimas razões para condenar tal ação).

8. Comparando o grau de certeza para julgamentos de valor e descrições de fatos

Por vezes o grau de certeza que podemos ter em julgamentos de valor é maior do que em muitas questões sobre fatos. Por exemplo, a questão “quantos planetas existem no universo?” diz respeito a descrever fatos, mas é muito difícil de se ter certeza quanto à sua resposta. Comparemos isso com o julgamento de valor “o sofrimento é ruim”. Nesse caso, como estamos a experimentar diretamente o objeto de nosso julgamento, e o nosso julgamento diz respeito a essa própria experiência (e não a objetos no mundo exterior), não há como estarmos enganados em nosso julgamento.

É impossível que o sofrimento seja uma experiência positiva e estejamos todos enganados ao experimentá-lo como negativo: ele é negativo exatamente porque o experimentamos como negativo (ser experimentado como negativo é o que torna algo sofrimento). O mesmo vale para o julgamento de que a felicidade é positiva.

Assim, se há pelo menos uma coisa que possui desvalor em si objetivamente (as experiências negativas) e uma coisa que possui valor em si objetivamente (as experiências positivas), é muito fraca a tese de que “julgamentos de valor não podem ser estabelecidos como verdadeiros ou falsos”. Na verdade, uma vez que todos que conhecem o sofrimento e a felicidade sabem o quão fácil é perceber que o primeiro é negativo e a segunda é positiva, e que todos que conhecem tais coisas chegam ao mesmo veredicto, é no mínimo curioso o quão difundida é a ideia de que julgamentos de valor não podem ser estabelecidos como verdadeiros ou falsos.

9. A confusão entre todos e alguns

É claro, o que se pode querer dizer é que “nem todos os julgamentos de valor podem ser estabelecidos como verdadeiros ou falsos”. Mas, essa já é outra questão (e, mesmo em relação a essa outra questão, talvez essa tese também não se sustente). Quando alguém afirma “os julgamentos de valor não podem ser estabelecidos como verdadeiros ou falsos”, subentende-se que está a falar isso de todo e qualquer julgamento de valor. E, para se mostrar que essa tese é falsa, basta mostrar um único caso de julgamento de valor que pode ser estabelecido como verdadeiro ou falso (que foi o que fizemos com o exemplo das experiências negativas e positivas).

10. Conclusão

Se há pelo menos uma coisa intrinsecamente negativa (o sofrimento) e/ou pelo menos uma coisa intrinsecamente positiva (o prazer) e for impossível que estejamos enganados quanto a este veredicto, então é falsa a afirmação de que nenhum julgamento de valor pode ser avaliado objetivamente.

Importante: como vimos, o que discutimos aqui foi sobre a objetividade de julgamentos de valor, e não de julgamentos sobre o que devemos fazer. Por exemplo, alguém pode, sem contradição, reconhecer que o sofrimento é negativo em si e ao mesmo tempo defender que não tem razões para evitar o sofrimento. Entretanto, apesar de isso não ser contraditório em termos lógicos, não significa que seja uma posição plausível. Por exemplo, se a principal função dos julgamentos de valor é orientar a prática, então se algo é negativo, isso já é uma razão (conclusiva ou não, dependendo das razões contrárias) para tentarmos evitá-lo.


Notas

[i] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.