Luciano Carlos Cunha[1]
- 1.1. O que são riscos-s?
- 1.2. Diferenças entre riscos-s e riscos-x
- 1.3. Como medir a seriedade de um risco-s?
- 1.4. Exemplos de riscos-s
- 1.5. Os conceitos de especismo e de substratismo
- 1.6. Classificação dos riscos-s
- 2. Identificando fatores de risco para os riscos-s
- 3. Estratégias longoprazistas: amplas e direcionadas
- 4. Mudando o debate público e as instituições políticas
- 5. Debates sobre estratégias de ativismo
- Conclusão
1. Conceitos centrais no debate sobre a importância do futuro
1.1. O que são riscos-s?
Na atualidade, um número enorme de animais sofre intensamente, e em muitos casos, de formas que não existiam no passado. Da mesma maneira, no futuro é possível que surjam novas formas de prejudicar os seres sencientes de forma massiva, em uma escala astronomicamente maior do que a do sofrimento existente na atualidade. Um conceito central nesse debate é o de riscos-s[2]:
- Riscos-s: riscos de que no futuro ocorram eventos que resultem em sofrimento de magnitude gigantesca, que excede o sofrimento existente na Terra até agora.
1.2. Diferenças entre riscos-s e riscos-x
Riscos-x são sobre são sobre riscos de aniquilação da humanidade. Riscos-s são sobre cenários com sofrimento astronômico. Há riscos-s que não são riscos-x, pois há formas de sofrimento sobre não humanos que não ameaçam a humanidade.
1.3. Como medir a seriedade de um risco-s?
A seriedade de um risco-se é medida multiplicando-se o quão ruim seria o cenário pela sua probabilidade de ocorrer (o resultado é o seu desvalor esperado, ou DE). Vejamos alguns exemplos de riscos-s.
1.4. Exemplos de riscos-s
| Exemplos de riscos-s | |
| Exemplo | Explicação |
| Aumento da exploração animal | Exemplos: (1) Expandi-la em escala (isto é, afetar um maior número de seres). (2) Torná-la qualitativamente pior (isto é, aumentar os danos sofridos pelos animais). (3) Criar novas formas pelas quais ela possa acontecer. |
| Expansão do sofrimento dos animais selvagens | Pode ocorrer devido a um aumento do número de animais na Terra ou devido à propagação intencional ou acidental da vida para fora dela[3] |
| Criação de novas formas de senciência | Um exemplo seria a criação de formas de senciência não biológicas. Tais seres, apesar de sencientes, poderão não ter rostos, e nem se movimentar ou gritar. Então, poderá ser difícil ter empatia por eles. Também pode acontecer de uma entidade digital ser senciente e nós não percebermos. Quantidades enormes desses seres podem vir a existir no futuro, pois criá-los poderia envolver menos custos do que criar seres sencientes biológicos. |
1.5. Os conceitos de especismo e de substratismo
Assim como o especismo é a discriminação baseada na espécie a qual alguém pertence, o substratismo é a discriminação baseada no tipo de substrato que compõe o corpo do ser (por exemplo, se é orgânico ou não orgânico). Assim como o antropocentrismo é uma forma de especismo (contra quem não pertence à espécie humana), o carbonismo é uma forma de substratismo (contra quem não é orgânico).
O substratismo, tanto quanto o especismo, pode produzir sofrimento em quantidades astronômicas no futuro[4]. Por isso é importante enfatizar que os animais devem ser considerados porque são sencientes (e não, porque são animais ou porque são seres vivos), e que isso implica em considerar outros seres sencientes não orgânicos, caso vierem a existir.
1.6. Classificação dos riscos-s
Riscos-s podem ser classificados quanto a vários aspectos. Eis alguns exemplos:
| Classificação dos riscos-s de acordo com a maneira como surgem | ||
| Tipo | Ocorrem… | Exemplos |
| Incidentais | Quando formas de alcançar certa meta geram bastante sofrimento, mas sem o sofrimento ser almejado por si. Os agentes podem até preferirem uma alternativa sem sofrimento, mas não estarem dispostos a pagar os custos. | Sofrimento como efeito da alta produtividade (como na pecuária industrial)ou para obter informações (como na experimentação animal). |
| Agenciais | Quando o agente deseja causar o dano | Agentes sádicos ou decorrente de sentimentos de ódio entre grupos. |
| Naturais | Surgem sem ação de agentes. | Sofrimento decorrente do modo como acontece os processos naturais. |
| Exemplos de outras classificações de riscos-s | ||
| Classificação | Explicação | |
| Conhecidos e desconhecidos | Dependem de se conseguimos imaginá-los atualmente ou não (assim como os medievais não conseguiam imaginar que surgiria a bomba atômica, por exemplo). | |
| Riscos-s desconhecidos de acordo com a maneira como surgem | ||
| Incidentais | Quando mecanismos não conhecidos conduzirão a riscos-s incidentais. | |
| Agenciais | Pode ser que os agentes venham a ter no futuro razões para causar dano, que ainda não conhecemos. | |
| Naturais | Pode ser que o universo já contenha muito mais sofrimento do que se imagina. | |
2. Identificando fatores de risco para os riscos-s
Uma das objeções à preocupação com os riscos-s é a dificuldade em estimarmos as consequências de longo prazo de nossas decisões. Uma resposta a essa objeção é apontar para a possibilidade de se investigar fatores de risco, que não são eles próprios riscos-s, mas aumentam muito as chances ou severidade dos mesmos.
O conceito de fator de risco já é muito utilizado na medicina. Por exemplo, se alimentar mal e não fazer exercícios não são, em si, doenças, mas aumentam muito a probabilidade de várias doenças, ainda que não as impliquem necessariamente. Para saber que é algo bom evitar esses fatores de risco não é necessário saber como será a trajetória de saúde de cada indivíduo. Similarmente, mesmo que não possamos estimar o futuro em longo prazo, podemos tentar identificar fatores de risco para os riscos-s e tentar identificar as ações que contribuiriam para evitá-los.
| Principais fatores de risco para os riscos-s |
| Desconsideração por seres sencientes não humanosDesconsideração por seres sencientes não biológicos |
| Demanda por produtos e serviços cuja produção prejudica seres sencientes |
| Expansão humana e aumento do poder tecnológico |
| O progresso tecnológico é muito mais rápido do que o progresso moral. |
A seguir estão outros exemplos de fatores de risco e a explicação do porquê são fatores de risco:
| Fator de risco | Por que é um fator de risco |
| Tecnologia avançada | Muitos riscos-s só são possíveis por conta de novas tecnologias. Exemplos: (1) Criar seres sencientes digitais poderia resultar em quantidades enormes de sofrimento por conta da desconsideração por seres sencientes não biológicos. (2) A colonização espacial pode multiplicar vastamente a população de seres sencientes, que estariam sujeitos às decisões dos agentes e aos processos naturais. Há entre 100 e 400 bilhões de estrelas em nossa galáxia, e entre 100 e 200 bilhões de galáxias no universo. Sem colonização espacial, o sofrimento ficaria limitado ao da Terra (que já é enorme, mas minúsculo comparado ao que poderia surgir). |
| Aversão à tecnologia | A tecnologia também oferece oportunidades para redução de sofrimento. Se fosse interrompido o progresso tecnológico, isso impediria o surgimento de riscos-s causados por humanos, mas não os riscos-s naturais (e também faria não haver tecnologia para impedir esses outros riscos-s). |
| Falta de esforços para reduzir riscos-s | Só podemos prevenir riscos-s se houver pessoas o suficiente se importando com isso. |
| Esforços ineficazes para reduzir riscos-s. | Ter a vontade de reduzir os riscos-s não é o bastante. É preciso que nossos esforços sejam bem planejados. Alguns riscos relacionados a essas possibilidades são: (1) Se a causa pela redução dos riscos-s ficar associada a ideias muito controversas, isso pode gerar uma forte rejeição. (2) É possível que os decisores relevantes queiram prevenir riscos-s, mas as instituições políticas sejam ineficazes ou haja problemas de cooperação. (3) Pode ser que os decisores não percebam certos risco-s em estágios iniciais e, quando perceberem, já seja tarde demais. |
| Polarização, conflito e hostilidade | A polarização em larga escala deixa pouco espaço para reflexão (sobre riscos-s ou qualquer outra coisa) e para compromissos mútuos. Ela também têm o potencial de resultar em conflitos e até mesmo em guerras, o que aumenta as chances de riscos-s agenciais. |
| Falta de segurança contra agentes malévolos | Indivíduos malévolos colocam sérios riscos quando alcançam posições de poder, o que não é incomum, pois possuem um desejo forte por poder e sua personalidade dá vantagens nessa busca. Esses riscos são aumentados se esses agentes tiverem acesso à tecnologia avançada. |
Assim como no contexto médico, essas catástrofes tem maior probabilidade de ocorrerem se vários fatores de risco coincidirem. Também as possibilidades de prevení-los aumentam se coincidem várias formas de prevenção.
3. Estratégias longoprazistas: amplas e direcionadas
Se nosso objetivo é que nossas decisões tenham o melhor impacto para todos os seres sencientes, precisamos levar em conta o seu impacto no longo prazo[5]. Em relação a isso, existem dois grupos principais de estratégias longoprazistas:
| Estratégia | Ampla | Direcionada |
| De que consiste | Tentar ter o melhor impacto possível em uma grande diversidade de cenários. | Tentar ter o melhor impacto possível em cenários específicos. |
| Vantagem | Terão um impacto positivo em muitíssimos cenários, talvez em quase todos. | Podem ter um impacto muito grande se ocorrer o cenário que elas tratam. |
| Desvantagem | Esse impacto é mais reduzido do que o das estratégias direcionadas quando acontece o cenário para o qual elas são planejadas. | Podem ter um impacto muito reduzido ou mesmo nulo se acontecem outros cenários. |
Os quadros a seguir mostram alguns exemplos de estratégias amplas e direcionadas:
| Exemplos de estratégias amplas | |
| Tipo | Exemplo |
| Aumentar a consideração pelos seres sencientes | Defender a consideração moral de todos os seres sencientes (focando nos mais negligenciados, como os animais aquáticos e invertebrados, e as novas formas de senciência que podem vir a surgir no futuro). Abordar todas as causas de dano para os seres sencientes (quer as causadas pela sua exploração, quer às devidas à sua situação no mundo selvagem em decorrência de processos naturais, quer outras que possam vir a existir no futuro). Promover mudanças institucionais que reforcem as mudanças de atitudeconseguidas e dificultem futuras regressões. |
| Aumentar nossa capacidade de ação no futuro | Difundir a preocupação com o futuro em longo prazo e com os riscos de sofrimento futuro, (isso fará com que mais pessoas venham a trabalhar nesse tema).Tentar aumentar os recursos das pessoas interessadas em prevenir o sofrimento futuro. Aumentar os nossos conhecimentos sobre longo prazo. Isso nos permitirá: (1) conhecer melhor como planejar as estratégias; (2) identificar estratégias ainda não consideradas e (3) elucidar, dentre as estratégias disponíveis, quais têm um maior potencial. |
| Exemplos de estratégias direcionadas | |
| Tipo | Exemplo |
| Foco em evitar a exploração animal | Prevenção de novas formas de exploração animal (por exemplo, mediante a proibição de novas formas de exploração de invertebrados para consumo).Desenvolvimento de proteínas e de materiais de origem não animal para que substituam os de origem animal. Tentar prevenir que a inteligência artificial seja utilizada para melhorar a eficiência da exploração animal. |
| Foco em evitar o sofrimento dos animais selvagens | Criar e consolidar o campo da biologia do bem-estar[6]. Estabelecer regulamentação da exploração espacial de maneira que evite a expansão intencional ou acidental de vida para fora do planeta Terra (mesmo da vida não senciente, pois esta poderia após muito tempo evoluir gerando seres sencientes). |
| Foco na consideração por novas formas de senciência | Tentar impedir a engenharia de novas formas de senciência, tanto biológica como não biológica.Tentar garantir direitos legais para entidades sencientes não biológicas.Buscar um alinhamento não antropocêntrico da inteligência artificial. |
Precauções ao se escolher estratégias longoprazistas
Vimos alguns exemplos de estratégias para prevenir o sofrimento em longo prazo. A seguir, estão algumas precauções que devemos tomar ao escolhê-las:
| Risco | Precaução |
| Subestimar a complexidade da questão | Dada a incerteza sobre o futuro, lembrar que provavelmente não há uma resposta única e conclusiva. |
| Vieses cognitivos podem nos levar a confiar demais em certas abordagens e descartar prematuramente outras. Temos a tendência de negligenciar os possíveis efeitos negativos das abordagens com as quais simpatizamos e os possíveis efeitos positivos das abordagens com as quais não simpatizamos inicialmente. | Lembrar que podemos estar enviesados em nossas avaliações, cultivar a humildade epistêmica e buscar sempre novas informações. |
| Certas abordagens possuem um alto risco de fazer com que pessoas que possuem outras prioridades rejeitem reduzir os riscos-s | É melhor defender metas que podem ser aceitas por um leque amplo de perspectivas. |
Veremos mais sobre este último ponto na seção a seguir.
4. Mudando o debate público e as instituições políticas
Uma política disfuncional pode incentivar a polarização, impedir esforços para reduzir riscos-s, aumentar o risco de agentes malévolos chegarem ao poder e mesmo impedir a discussão sobre qualquer questão ética. Então, tentar melhorar a política (em termos de instituições e do debate público) é crucial para evitar os riscos-s[7]. A seguir estão algumas estratégias nesse sentido.
| Estratégias para melhorar o debate público e as instituições | |
| Estratégia | Explicação |
| Pensar em termos de nuance (e não em termos de “0 ou 1”, “nós x eles” etc.) | Se reconhecermos grãos de acerto e de erro em cada perspectiva, e pensarmos em termos de graus de confiança em vez de certezas rígidas, podemos evitar um pensamento do tipo “0 ou 1”, “nós e eles” etc. O tribalismo cria uma aparência de grande discordância mesmo quando a discordância é limitada. Reduzir o tribalismo abre as portas para a cooperação e compromissos mútuos. |
| Discutir o argumento , seja lá quem deu o argumento | A tendência geral é a de que, se quem deu o argumento pertence ao “nosso lado” ou ao grupo que queremos defender, o seu argumento é aceito, mesmo que não tenha razão, e se pertence ao “outro lado”, é rejeitado, mesmo que o argumento seja sólido e aponte um problema sério com nossa visão. Essa tendência tem impedido o debate sério sobre qualquer questão, mesmo nos meios acadêmicos. Uma maneira de evitar essa tendência é discutir os argumentos sem saber quem são seus proponentes. |
| Honestidade intelectual | Discutir os argumentos de maneira séria e intelectualmente honesta, sem distorcer a posição e os argumentos de quem discorda, e reconhecendo que podemos estar enganados quanto a muitas coisas. |
| Adotar uma abordagem abrangente | Consiste em enfatizar que as metas que queremos alcançar podem ser aceitas mesmo que as pessoas discordem de nós em outros pontos. Isso diminui a polarização (pois mostra que, apesar das divergências, pode haver metas comuns). Metas como a consideração por todos os seres sencientes, a prevenção dos riscos-s e do sofrimento dos animais selvagens, e a rejeição do especismo e do substratismo podem ser aceitas sem termos de aceitar uma visão específica, seja em ética ou política. Enfatizar isso aumenta o potencial de aceitação dessas metas por parte de pessoas das mais variadas posições éticas e políticas. |
| Proteger a democracia | A democracia previne que um único indivíduo consiga muito poder, e então, reduz a influência de agentes malévolos. Em termos de riscos-s, é mais importante evitar catástrofes institucionais do que tentar alcançar as melhores instituições possíveis. Por exemplo, em termos de riscos-s, a diferença entre uma democracia e um regime totalitário é maior do que entre uma democracia funcional e uma democracia falha. As democracias liberais modernas oferecem proteção aos direitos humanos e liberdades civis, como a liberdade de expressão, que são uma precondição para se levantar preocupações éticas. |
| Representação política de todos os seres sencientes | Tentar instituir representantes para seres sencientes que não podem representar a si próprios (como os animais não humanos e os seres futuros). |
5. Debates sobre estratégias de ativismo
Outro tópico cuja discussão tem crescido bastante nos últimos anos é sobre a eficiência de diferentes tipos de estratégias na defesa dos animais[8]. O quadro a seguir exemplifica alguns debates sobre diferentes questões referentes a estratégias de ativismo.
Importante: esse debate não é necessariamente sobre “essa ou aquela estratégia?”. Por exemplo, pode ser sobre o quanto focar em uma ou em outra.Outra discussão adicional é se seria melhor todas as pessoas terem o mesmo grau de foco em certas estratégias, ou ter diversas pessoas focando em estratégias diferentes, e compensar de acordo com o quão pouco uma estratégia foi tentada.
| Alguns debates sobre várias estratégias de ativismo | ||
| O que está em questão | Principal argumento das posições em conflito | |
| Devemos focar em defender o veganismo ou a redução do consumo? | Pró foco na redução: Pode ser mais fácil conseguir que muito mais pessoas reduzam o consumo do que aceitarem se tornar veganas. Muito mais pessoas fazendo menos pode ter um impacto melhor para os animais do que poucas pessoas fazendo muito. | Pró foco no veganismo: Defender a redução pode passar a impressão de que a exploração animal está correta. Mesmo se menos pessoas aderirem ao veganismo do que à redução, pode ser que o impacto total seja melhor para os animais, se essas pessoas forem mais engajadas no ativismo. |
| Devemos defender a reforma da exploração animal para que os animais sofram menos ou apenas sua abolição? | Pró reforma: regulamentar a exploração animal pode diminuir o sofrimento dos animais explorados e pode ajudar a aboli-la gradualmente, pois pode fazer com o que público se torne cada vez mais preocupado com o que acontece com os animais. | Contra reforma: Como os animais são itens de propriedade, as leis que exigem que sofram menos dificilmente terão efeito se reduzirem os lucros. O público pode pensar equivocadamente que eles estão a sofrer menos, e isso pode aumentar a demanda por produtos de origem animal e, então, aumentar o número de animais usados.. |
| No ativismo contra o consumo de animais, devemos focar no dano para os animais, ou também devemos falar de impactos ambientais e riscos para a saúde (isto é, argumentos indiretos)? | Pró argumentos indiretos: muitas pessoas defendem a exploração animal não porque acreditam que ela seja justa, mas porque gostam do sabor da comida de origem animal. Assim, se abandonarem o consumo de animais, seja lá por que motivo for, será mais fácil que depois se posicionem contra a exploração animal. | Contra argumentos indiretos: apelar a argumentos indiretos pode reforçar a ideia de que o dano para os animais não é suficiente para que a exploração animal seja injusta. Além disso, apelar a argumentos antropocêntricos e ambientalistas pode reforçar essas visões e tornar mais difícil que as pessoas se preocupem com outros danos para os animais (como no caso dos animais na natureza e os riscos-s[9]). |
| Ao falar dos seres sencientes, devemos focar nos não humanos, ou em problemas humanos também? | Pró foco amplo: abordar problemas humanos pode fazer com que outros movimentos sociais aceitem melhor o movimento de defesa dos animais, por perceberem que há metas comuns (a consideração por todos os seres sencientes) | Pró foco nos animais: a vasta maioria das pessoas já foca em problemas humanos e negligencia a situação dos animais. Por isso, há razões para enfatizar a situação dos animais, uma vez que os recursos para a causa animal são muito mais limitados e ela é muito mais negligenciada. |
| Foco em mudança social ou tecnológica? | Pró mudança tecnológica: Certas tecnologias podem tornar obsoleto o uso de animais (por exemplo, carne celular), e isso pode beneficiar os animais mesmo que as pessoas não os considerem. | Pró mudança social: o que irá determinar se a tecnologia será utilizada para causar sofrimento ou para preveni-lo são os valores que as pessoas cultivam. |
| Focar na população em geral ou em pessoas com influência e poder? | Pró foco em pessoas com influência e poder: um menor número dessas pessoas pode ter um impacto maior do que o impacto de uma maioria | Pró foco na população em geral: a maioria das mudanças precisará do apoio de um grande número de pessoas (sejam mudanças sociais ou institucionais). |
| Focar em mudanças de comportamento ou de atitude? | Pró mudança de comportamento: mudanças práticas engajam mais. Estas também podem quebrar a resistência à mudança de atitudes. | Pró mudança de atitude: é difícil as pessoas mudarem o seu comportamento em relação aos animais se elas não mudarem o que elas pensam sobre eles. |
| O quão controversa/ complacente deve ser a abordagem? | Pró ação controversa: a ação controversa chama a atenção para o problema. | Contra ação controversa: a ação controversa pode gerar rejeição. |
Conclusão
Nesse material tentamos apresentar um panorama geral das principais questões discutidas na área de ética animal. Obviamente, por questões de espaço muitas questões importantes foram deixadas de fora. Acreditamos, contudo, que o material oferece uma boa base introdutória para, quem quiser posteriormente se aprofundar, ter fundamentos sólidos para entender melhor essas e outras questões.
REFERÊNCIAS
BAUMANN, T. S-risks: An introduction. Reducing Risks of Future Suffering: Toward a responsible use of new technologies, 2017. Disponível em: http://s-risks.org/intro/. Acesso em: 15 fev. 2019;
BAUMANN, T. Avoiding the worst final: how to prevent a moral cathastrophe. Center for Reducing Suffering, 2022.
BECKSTEAD, N. On the overwhelming importance of shaping the far future. Tese (Doutorado em Filosofia). New Brunswick: Rutgers University, 2013.
BURTON, K. NASA Presents Star-Studded Mars Debate. NASA, 25 mar. 2004.
DANIEL, M. S-risks: Why they are the worst existential risks, and how to prevent them. Foundational Research Institute, [s.l.], 2017.
ÉTICA ANIMAL. A importância do futuro. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 out. 2018.
FARIA, C.; HORTA, O. Welfare biology. In: FISCHER, B. (org.). The routledge handbook Of animal ethics. New York/London: Routledge – Taylor & Francis group, 2020, p. 455-66.
GREAVES, H. & MACASKILL, W. The case for strong longtermism. Global Priorities Institute, v. 7, set. 2019.
GREIG, K. Effects of farmed animal advocacy messaging on attitudes towards policies and decisions affecting wild animal suffering. Animal Charity Evaluators, 05 abr. 2017.
MEOT-NER, M.; MATLOFF, G. L Directed Panspermia: a Technical and Ethical Evaluation of Seeding the Universe. Journal of the British Interplanetary Society, v. 32, p. 419-23, 1979.
O’BRIEN, G. D. Directed Panspermia, Wild Animal Suffering, and the Ethics of World-Creation. Journal of Applied Philosophy, v. 39, n. 1, 2022.
PARFIT, D. Reasons and persons. Oxford: Oxford University Press, 1984.
REESE, J. Summary of Evidence for Foundational Questions in Effective Animal Advocacy. Sentience Institute, 24 dez. 2019.
SORYL, A. A.; MOORE, A. J.; SEDDON, P. J.; KING, M. R. The Case for Welfare Biology. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 34, n. 7, 2021.
TOMASIK, B. Risks of astronomical future suffering. Foundational Research Institute, 02 jul. 2019.
TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators. 03 fev. 2015.
Notas
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2] Sobre riscos-s, ver Baumann (2017, 2022);Daniel (2017) e Tomasik (2015, 2019.).
[3] Para exemplos de projetos de expansão da vida para fora da Terra, ver Meot-Ner e Matloff (1979) e Burton (2004).. Para uma crítica a essas práticas, do ponto de vista dos risco-s, ver O’brien (2022).
[4] Sobre isso, ver Tomasik (2015).
[5] Isso vem sendo conhecido como longoprazismo. Para uma introdução ao longoprazismo, ver Ética Animal (2018) Para mais informações, ver Parfit (1984, p. 351-443); Beckstead (2013) e Greaves e Macaskill (2019).
[6] A biologia do bem-estar é a área que estudaria como os animais em seus ambientes são afetados do ponto de vista do seu bem-estar (e não do ponto de vista da conservação de espécies ou ecossistemas). Sobre biologia do bem-estar, ver Faria e Horta (2020) e Soryl et. al. (2021).
[7] Para uma discussão detalhada sobre esse tópico, ver Baumann (2022, p. 65-76).
[8] Para um resumo detalhado destes e de outros debates, ver Reese (2019).
[9] Há um estudo que sugere que as pessoas que deixam de consumir produtos de origem animal por razões ambientalistas se tornam mais resistentes à proposta de ajudar os animais na natureza.Ver Greig (2017).
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
