O termo “ambientalismo” é aplicado a visões muito diferentes entre si. Por vezes, é utilizado em referência às posições que visam preservar o meio ambiente enquanto recurso para os humanos ou para os animais de outras espécies. Em outras é utilizado em referência às posições que defendem que certas entidades não sencientes (como ecossistemas e espécies, por exemplo) possuem valor em si, e não, enquanto recurso. No que se segue, utilizaremos o termo “ambientalismo” nesse segundo sentido, pois são essas perspectivas que são normalmente confundidas com a defesa dos animais, e o objetivo aqui é explicitar suas diferenças.
Boa parte da confusão ocorre devido à não percepção de quais são as metas finais de cada uma dessas visões (isto é, quais coisas são valorizadas em si) e quais coisas são valorizadas apenas enquanto meio para alcançar essas metas. O quadro a seguir explicita as metas finais de cada uma dessas posições:
| Posição | O meio ambiente deve ser mantido… |
| Antropocêntrica | Na configuração que for melhor para os humanos |
| Centrada na senciência | Na configuração que for melhor para seres sencientes em geral |
| Ambientalista | Em determinadas configurações*, mesmo que isso seja pior para os seres sencientes em geral |
*Cada variante do ambientalismo valoriza configurações distintas. Exemplos de critérios utilizados são: o grau de complexidade, o grau de raridade, o tempo com que levou para se formar, o grau com que foi pouco modificado por ações humanas e o grau com que apresenta propriedades estéticas.
A maior parte dos programas e das legislações que dizem respeito a animais selvagens possui metas ambientalistas. Isso se deve, em parte, à predominância da ideia de que os animais individualmente não importam (e sim, apenas os ecossistemas e as espécies). Nesses programas, os animais serão prejudicados ou beneficiados dependendo do que for mais eficiente para alcançar as metas ambientalistas. Entretanto, é comum que os programas ambientalistas sejam equivocadamente entendidos como possuindo uma meta centrada em beneficiar os seres sencientes. O quadro a seguir esclarece alguma das principais confusões sobre essa questão:
| Crença comum equivocada | O que realmente cada posição almeja |
| Ambientalismo e defesa animal possuem a mesma meta (o bem dos animais), mas discordam dos meios para alcançar essa meta: o ambientalismo concorda com matar uma minoria para salvar uma maioria enquanto a defesa animal discorda. Os programas ambientalistas que envolvem matar animais o fazem porque essa é a única maneira de salvar muitos animais dali para frente (essa é a sua meta). | Ambientalismo e defesa animal possuem metas diferentes. A defesa dos animais valoriza em si o bem-estar dos seres sencientes. O ambientalismo valoriza em si entidades não sencientes, como ecossistemas ou espécies. A meta do ambientalismo é manter os ecossistemas em certas configurações que valoriza, mesmo que isso não for o melhor para os seus habitantes. A meta dos programas ambientalistas não é salvar seres sencientes (seja maioria ou minoria). Já entre os defensores dos animais, há tanto quem acredita que é correto matar uma minoria se essa for a única maneira de salvar uma maioria, quanto quem rejeita essa posição. |
| A defesa animal é centrada nos indivíduos, enquanto o ambientalismo é centrado no “todo” (como espécies e ecossistemas). Isso significa que o ambientalismo prioriza salvar a maioria dos seres sencientes, mesmo que para isso seja necessário matar uma minoria, e a defesa animal se opõe a isso (pois prioriza o indivíduo) | Consideração por indivíduos não quer dizer necessariamente priorizar um indivíduo frente a vários. Quer dizer apenas que o foco da consideração moral são os seres sencientes (isto é, os indivíduos), e não, entidades não sencientes. Isso é compatível com posições que priorizam salvar uma maioria quanto com posições que defendem a prioridade de uma minoria em certas condições (por exemplo, estarem em uma situação pior). Da mesma maneira, consideração pelo “todo”, tal como presente no ambientalismo, não é a consideração pela maioria (ou por indivíduo algum). É a consideração pela espécie enquanto entidade abstrata (e não por seus membros) e por ecossistemas (e não por seus habitantes). |
| A diferença entre ambientalismo e defesa animal, no que diz respeito a ajudar animais selvagens, é que a defesa animal defende ajudá-los sem se preocupar com as possíveis consequências negativas em longo prazo de tal ação, e o ambientalismo prescreve não ajudá-los por receio de que fazê-lo possa causar ainda mais sofrimento e mortes em longo prazo. | A diferença entre essas posições não tem a ver com uma delas considerar o longo prazo e outra não. Ambas são compatíveis com considerar o longo prazo. O que diferencia essas posições são suas metas. Afirmar que certo programa de ajuda não deveria ser conduzido porque poderia causar mais sofrimento em longo prazo é uma preocupação com os seres sencientes (portanto, não é uma preocupação ambientalista). As preocupações ambientalistas diriam respeito ao impacto sobre entidades não sencientes que valoriza em si (e não, enquanto recurso para os seres sencientes). |
| Apesar das diferenças, ambientalismo e defesa animal convergem na prática, pois os animais precisam do meio ambiente como recurso, e o ambientalismo visa preservá-lo. | Isso será assim em alguns casos, mas não em outros. É possível preservar o meio ambiente nas mais distintas configurações. As configurações almejada pelo ambientalismo muitas vezes não coincidem com aquela que é melhor (ou mesmo boa) para os animais |
| Quanto maior o grau de equilíbrio ecológico e de biodiversidade, melhor para os animais. É por isso que os ambientalistas almejam tais coisas: porque sua meta é o bem dos animais | O ambientalismo valoriza o equilíbrio ecológico e a biodiversidade não por preocupação com o bem dos animais. Valoriza essas coisas em si, ou como meio para manter os ecossistemas em certas configurações (estas sim, valorizadas em si). Não necessariamente um maior grau de equilíbrio ecológico e/ou de biodiversidade coincidem com o que é melhor (ou mesmo minimamente bom) para os animais. Esses conceitos são baseados, respectivamente, na variação no tamanho das populações ao longo do tempo e na diversidade de espécies. Esses conceitos não indicam que o bem-estar dos animais em tais situações é necessariamente positivo. |
| Por vezes os programas ambientalistas ajudam animais. Isso mostra que a meta ambientalista é o bem dos animais | Por vezes esses programas ajudam certos animais porque fazê-lo é necessário para alcançar outra meta, esta sim, valorizada em si pelo ambientalismo (como preservar espécies raras de animais ou plantas por exemplo.) |
Caso você queira se aprofundar nesse tema e consultar referências, o link a seguir contém uma lista de textos que discutem essas questões em detalhes:
https://senciencia.org/#diferencas-em-relacao-ao-ambientalismo
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
