Seria o critério da senciência, no fundo, antropocêntrico?

Luciano Carlos Cunha[1]

Os proponentes do antropocentrismo escolhem uma característica típica humana (por exemplo, o modo de raciocinar) e atribuem estatura moral aos animais não humanos de acordo com o grau de similaridade com humanos nessa característica. Por vezes os defensores do critério da senciência[2] (isto é, a capacidade de ter experiências, como sofrimento e prazer)  são acusados de fazerem o mesmo[3]: percebem que a senciência é uma característica dos humanos, e escolhem considerar apenas os seres que são sencientes. A objeção conclui que, em ambos os casos, só recebe consideração quem tiver similaridades com humanos (só mudando, em cada caso, a característica escolhida como padrão de similaridade).

A principal resposta a essa crítica aponta para duas coisas.

Em primeiro lugar, há diferença entre utilizar o modo de raciocinar e utilizar a senciência como critério de consideração moral: o primeiro não determina quem é passível de ser prejudicado e/ou beneficiado, e o segundo sim.

Em segundo lugar, não é que os proponentes do critério da senciência primeiro pos­tulam que humanos importam, e depois procuram, dentre os animais que pretendem também considerar, alguma similaridade com humanos. Não estão a defender: “devemos considerar os seres sencientes porque se parecem com humanos”, mas exatamente o contrário: “devemos considerar humanos porque são sencientes”. Assim, é falso que o critério da senciência seja, no fundo, antropocêntrico.

REFERÊNCIAS

CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.

REGAN, T. The Nature and Possibility of an Environmental Ethic. Environmental Ethics, vol. 3, n. 1, p. 19-34, 1981.


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] Para uma defesa do critério da senciência, ver Cunha (2021).

[3] Para um exemplo dessa acusação ver, por exempo, Regan (1981, p. 20-1).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.