Senciência e vida biológica: o que tem valor enquanto fim e o que tem valor enquanto meio?

Luciano Carlos Cunha[1]

Se estar vivo é necessário para ser senciente, estar vivo tem valor em si?

Por vezes é defendido que, para haver senciência, é preciso que o organismo esteja vivo e que, por isso, deveríamos dar consideração moral a todos os seres vivos[2], sencientes[3] ou não.

A alegação de que a vida biológica é necessária para a senciência talvez se revele como falsa, se no futuro vierem a existir seres sencientes não orgânicos (por exemplo, em meios digitais). Essa é uma possibilidade aceita por muitos especialistas em filosofia da mente e também por muitos cientistas[4]. Se vierem a existir seres desse tipo, seriam seres sencientes, mas não estariam vivos, pois não teriam as características essenciais que definem um ser vivo: manter homeostase, possuir um ciclo de vida, ser compostos de células, sofrer metabolismo etc. Assim, é possível que no futuro haja seres sencientes que não serão seres vivos. Entretanto, pelo menos em relação aos seres sencientes que existem até hoje, a vida biológica parece necessária para a senciência.

Porém, independentemente disso, observar que a vida biológica é necessária para a senciência não serve como defesa de que devemos considerar os seres vivos não sencientes, pois o que essa observação mostra é que a vida biológica tem valor instrumental à senciência, e não, valor em si. Isto é, o que a observação em questão faz é dizer que a vida biológica é importante porque é (pelo menos até agora) essencial para haver senciência. Mas, mostrar que algo tem valor enquanto meio não é mostrar que esse algo tem valor em si.

É claro, isso também não mostra que é impossível que a vida biológica tenha valor em si. Entretanto, mostra que, se tiver, será por outra razão, e não, por ter valor instrumental à senciência. Assim, ainda que a observação em questão ofereça razões para mantermos vivos os seres sencientes, não oferece razões para mantermos vivos os organismos não sencientes.

Não seria a senciência apenas um meio para manter a vida?

Considere agora a alegação oposta. Um argumento que tenta mostrar que o que possui valor em si é a vida biológica, e não a senciência, aponta que os seres sencientes usam a sensação da dor para evitar o que os mataria e, por meio das sensações positivas, sabem quais coisas contribuem para permanecerem vivos.

Segundo esse argumento, a senciência é apenas um meio para preservar a vida. As experiências positivas não teriam valor em si e as experiências negativas não seriam ruins em si. Segundo essa visão, o seu valor ou desvalor seria meramente instrumental ao que realmente possui valor em si: estar vivo. O argumento conclui então que os seres vivos (sencientes ou não) deveriam receber consideração moral.

O principal problema com esse argumento é que, do fato de que os seres sencientes evitam as experiências negativas e busquem permanecer vivos não se segue que o façam porque enxergam a vida biológica como possuindo valor em si. O principal motivo pelo qual evitam experiências negativas é o próprio fato de serem negativas. É claro que é possível evitar certa coisa que causa sofrimento também por sabermos que ela nos causaria a morte. Mas, do fato de que almejamos permanecer vivos não segue que vejamos a vida biológica como tendo valor em si. Vejamos:

Normalmente, pensamos que estar vivo é bom porque nos permite ter experiências valiosas[5]. Os seres sencientes buscam certas coisas porque valorizam as experiências que essas coisas proporcionam. Não veem essas experiências como possuindo valor meramente instrumental à permanecerem vivos. Ao invés, estar vivo é bom porque permite essas experiências. Se essas experiências também contribuem para que continuemos biologicamente vivos ou para outras coisas (como a continuidade da espécie, por exemplo), isso é uma consequência: isso, por si só, não indica que os seres sencientes almejem tais coisas enquanto fins.

Normalmente pensamos que vale a pena viver quando a vida contém experiências valiosas o bastante para considerarmos permanecer vivo melhor do que morrer. Se pensássemos que a vida biológica possui valor em si, manteríamos que há algo de bom em permanecer como um corpo vivo sem nenhuma possibilidade de experiências (e nem de voltar a tê-las), e inclusive quando experimentássemos apenas sofrimento extremo e nada mais.

Isso tudo sugere que temos razões para concluir o oposto do que a objeção mantém: estar vivo é que só tem valor enquanto meio para se ter experiências significativas.

REFERÊNCIAS

BENTHAM, J. Introduction to the principles of moral and legislation. Oxford: Oxford University Press, 1996 [1789].

CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.

CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.

GOODPASTER, K. E. On Being Morally Considerable. Journal of Philosophy, n. 75, p. 308-25, 1978.

HORTA, O. Igualitarismo, igualación a la baja, antropocentrismo y valor de la vida. Revista de Filosofía da Universidad Complutense de Madrid,v. 35, n. 1, p. 133-152, 2010c.

HORTA, O. Moral Considerability and the Argument from Relevance. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 31, n. 3, p. 369-388, 2018a.

HORTA, O. Un desafío para la bioética:la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.

SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].

TAYLOR, P. Respect for nature. Princeton: Princeton University Press, 1986.    

TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators. 03 fev. 2015b.


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] A posição que defende considerar tudo o que é vivo é chamada de biocentrismo. Para exemplos de defensores dessa posição, ver Goodpaster (1978) e Taylor (1986).

[3] Para exemplos de autores que defendem que o critério adequado de consideração moral é a senciência, ver Bentham (1996 [1789]); Singer (2002 [1979]), Horta (2018a) e Cunha (2021).

[4] Ver Tomasik (2015b).

[5] Sobre o dano da morte para os animais não humanos, ver Horta (2007, p. 537-777; 2010c) e Cunha (2022a, p. 61-92).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.