Luciano Carlos Cunha[1]
Novas tecnologias nos permitem observar coisas que nunca foram possíveis antes, como identificar insetos individualmente e reconhecê-los depois, e modelar como as várias populações de animais em um habitat afetam a presença e os números umas das outras. A análise dos dados coletados pode nos informar sobre a presença de espécies em uma área, seus números, sobre a maneira como a distribuição de diferentes grupos de animais muda ao longo do tempo e sobre os fatores que contribuem para isso, como mortalidade, saúde e comportamento dos animais. Veremos alguns exemplos a seguir[2].
As armadilhas fotográficas são câmeras com sensores de movimento que são fixadas no habitat natural. Podem tirar fotos periodicamente ou gravar vídeos em horários específicos, fornecendo atualizações contínuas. Podem coletar informações sobre a localização e o número de animais, seus comportamentos e condição física, ajudando a monitorar o bem-estar dos animais e os fatores que os afetam, como populações em rápido crescimento, presença de outras espécies, limitações de recursos na área e a maneira como os animais os utilizam.
A tecnologia de detecção e alcance de luz (LIDAR), também conhecida como varredura a laser 3D, produz imagens tridimensionais de paisagens. Pode ser implantada no solo ou em um veículo aéreo e produz imagens de alta resolução que mostram a estrutura de um habitat detalhadamente, até mesmo a posição das folhas nos galhos. Pode detectar a abundância e a distribuição das populações de espécies, e também as propriedades físicas do habitat que afetam essas populações. Os dados podem nos ajudar a entender as necessidades de recursos por parte dos animais e o quão adequadamente estão sendo atendidas.
A imagem térmica[3] usa câmeras infravermelhas para capturar as assinaturas de calor dos animais em uma área. Pode determinar a presença de tipos particulares de animais e seus números populacionais, incluindo dos animais que se camuflam. Uma de suas maiores utilidades é detectar o estresse físico, que pode ocorrer devido a uma lesão, doença, medo ou outro tipo de resposta à ameaça. Também permite identificar lesões locais.
A análise de dados acústicos (sons dos animais e dos ambientes em que vivem) fornece informações sobre a saúde, interações entre animais e mudanças nas condições de um habitat. As gravações incluem sons infrassônicos e ultrassônicos, ambos fora do alcance da audição humana. Existem microfones que funcionam tanto na água quanto na terra e no céu.
O DNA ambiental (eDNA)[4] é uma forma de coletar material genético em ambientes naturais, como pelos, penas, fezes e escamas. Não requer interação com os animais, evitando assim qualquer impacto negativo sobre eles. Fornece informações sobre a dieta, saúde e idade de um animal. Pode estimar os tipos de animais que vivem em uma área e suas quantidades.
Melhorias contínuas no poder de processamento de dados aumentarão nossa capacidade de usar os dados para obter insights sobre o bem-estar dos animais. À medida que aumentar a conscientização sobre a situação dos animais selvagens, o uso dessas tecnologias se expandirá, fornecendo muito mais informações práticas sobre como ajudar os animais.
REFERÊNCIAS
ANIMAL ETHICS. The potential of thermal imaging to help animals in the wild: A literature review. Oakland: Animal Ethics, 2020.
ÉTICA ANIMAL. O potencial para reduzir o sofrimento dos animais na natureza utilizando amostragem de eDNA. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 21 Set. 2022b.
ÉTICA ANIMAL. Quais tecnologias podem ser utilizadas para ajudar os animais selvagens? Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 28 Nov. 2022d.
NOTAS
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2] Para mais detalhes sobre essas tecnologias, ver Ética Animal (2022d).
[3] Para um estudo detalhado, ver Animal Ethics (2020).
[4] Para um estudo detalhado, ver Ética Animal (2022b).
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
