Não é absurdo um mundo com menos sofrimento, mas manejado pelos humanos?

Luciano Carlos Cunha[1]

Um argumento que por vezes é endereçado em defesa da visão ambientalista contra o critério da senciência[2] é o seguinte. Se o quão boa/ruim é uma situação é algo que deve ser avaliado apenas pelo modo como beneficia/prejudica os seres sencientes, teremos então que dizer que é melhor um mundo apenas com árvores de plástico onde os seres sencientes tenham menos sofrimento e sejam mais felizes do que um com árvores naturais onde os seres sencientes estão em uma condição pior[3]. Os proponentes desse argumento defendem que é absurdo pensar que um mundo assim seria melhor, e concluem então que, por isso, devemos rejeitar o critério da senciência.

Algo que pode fazer com que esse argumento pareça sólido à primeira vista é o uso do termo “plástico” e não, “fabricado por humanos”. Quando pensamos em árvores de plástico, tendemos a pensar em árvores que estão muito aquém de uma árvore natural, e que não beneficiam tanto os seres sencientes quanto as árvores naturais. Assim, quando lemos “árvores de plástico”, a última coisa em que provavelmente pensaremos são árvores que são melhores para os seres sencientes do que as naturais[4].

Então, o uso da palavra “árvores de plástico” no argumento pode sugerir que um ecossistema modificado por humanos jamais poderia ser melhor para os seres sencientes do que um não modificado. Mas, o problema é o que o argumento não pode fazer tal sugestão, pois o que visa mostrar é que um ecossistema natural é preferível mesmo que um ecossistema modificado por humanos seja muito melhor para os seres sencientes (então, não pode dar como exemplo um caso onde a modificação é pior para os seres sencientes). O argumento, para ser honesto, teria de utilizar o termo: “ecossistema modificado por humanos que fosse melhor para os seres sencientes” (e não “ecossistema com árvores de plástico”).

Por exemplo, imaginemos que no futuro nos deparemos com um ecossistema que, olhando de fora, seja indistinguível de um ecossistema natural (contém árvores, rios, montanhas etc.), e que só conseguimos saber que ele foi modificado por agentes inteligentes porque nele há certas medidas que fazem com que o seres sencientes experimentem menos sofrimento. Se colocamos o argumento dessa maneira, então se torna muito fraca a ideia de que escolher um mundo assim seria absurdo[5]. Aliás, é um mundo assim que buscamos para nós quando usamos moradias, roupas, hospitais, medicamentos, centros de lazer e quase tudo o que fazemos na vida. Na verdade, parece que a maioria dos humanos acha absurdo é o contrário (pelo menos, quando eles próprios seriam as vítimas dos processos naturais).

Outra coisa que colabora para a rejeição do melhoramento ambiental é a dificuldade em se imaginar algo fabricado por humanos que seja menos ruim para os animais do que um ecossistema natural, dada a prevalência das visões que associam “ações humanas” e “resultado pior para os animais não humanos”, e “natural” a “bom”. Entretanto, a maior parte das pessoas não sabe que, em muitos casos, as ações humanas nos ecossistemas naturais beneficiam os animais, e também não sabem que os processos naturais tendem a maximizar a quantidade de animais que nasce para ter vidas repletas de sofrimento e uma morte bastante prematura, geralmente violenta. Então, se nos livrarmos desse preconceito, e imaginarmos um ecossistema modificado por humanos melhor para os seres sencientes do que um ecossistema natural, o que parece implausível é a ideia de que esse ecossistema é pior, apenas porque sofreu influência de ação humana.

REFERÊNCIAS

BENTHAM, J. Introduction to the principles of moral and legislation. Oxford: Oxford University Press, 1996 [1789].

CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.

HORTA, O. Moral Considerability and the Argument from Relevance. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 31, n. 3, p. 369-388, 2018a.

SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].

REGAN, T. The Nature and Possibility of an Environmental Ethic. Environmental Ethics, vol. 3, n. 1, p. 19-34, 1981.

SAPONTZIS, S. F. Morals, Reason and Animals. Philadelphia: Temple University Press, 1987.


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2]Para exemplos de defesas do critério da senciência, ver Bentham (1996[1989], p. 282n); Singer (2002 [1979], p. 67); Horta (2018a) e Cunha (2021, p. 57-61).

[3] Para um exemplo desse argumento, ver Regan (1981, p. 26, 27).

[4] Um exemplo de árvore artificial que parece ser melhor para os seres sencientes do que as árvores naturais é a árvore líquida. Uma explicação do porquê isso é assim pode ser encontrada aqui:  https://www.youtube‌.com‌/‌‌watch?v=89HnKRjtuSQ.

[5] Para um desenvolvimento desse argumento, ver Sapontzis (1987, p. 252).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.