Luciano Carlos Cunha[1]
Por vezes é defendido que não deveríamos ajudar os animais que vivem na natureza e são vítimas de processos naturais[2] (como fome, sede, doenças etc.) porque, se eles sobreviverem, aumentariam as chances de serem passados adiante os genes que não são os mais adaptados[3]. Segundo essa visão, deveríamos deixar a natureza seguir o seu curso, porque assim sobreviverão somente os indivíduos melhor adaptados, resultando em um melhoramento genético natural de cada espécie. Veremos, a seguir, três críticas a essa visão.
Os genes mais adaptados necessariamente beneficiam seus portadores?
A objeção em questão assume que, uma vez que deixando a natureza seguir o seu curso, sobreviverão e se reproduzirão apenas os organismos mais adaptados, isso será um benefício para os membros das futuras gerações, que herdariam esses genes. Entretanto, os traços eficientes em passar os genes adiante, favorecidos pela seleção natural, não necessariamente são benéficos para os seus portadores, nem para seus descendentes.
Por exemplo, uma espécie possuir o traço de se reproduzir maximizando a quantidade de filhotes é um sinal de que ela está muito bem adaptada em termos evolutivos, pois aumenta muito a probabilidade de essa espécie perdurar. Uma vez que as ninhadas são gigantescas, é altíssima a probabilidade de que pelo menos alguns indivíduos sobrevivam e se reproduzam, garantindo a continuação da espécie. Contudo, esse traço não é um benefício para os membros dessa espécie. Pelo contrário: nascer membro de uma espécie que se reproduz dessa maneira é ter as suas chances de sobrevivência drasticamente diminuídas, uma vez que a esmagadora maioria dos nascidos nasce apenas para sofrer e morrer prematuramente. Por exemplo, em populações estáveis, em ninhadas com milhares ou milhões de filhotes, em média sobrevivem apenas dois filhotes [4].
Além disso, outros traços que são passados em conjunto com este frequentemente são prejudiciais aos seus portadores. Por exemplo, nascer membro de uma espécie que se reproduz maximizando a quantidade de filhotes geralmente coincide também com ter um tempo de vida biológico natural muito curto. Isto é, nessas espécies, vivem pouco não apenas aquela vasta maioria que não consegue sobreviver até à idade adulta, mas até mesmo aqueles poucos que sobrevivem até a velhice. Em resumo, aquilo que é otimizado pela seleção natural não é o que beneficia os indivíduos[5].
A preocupação com os genes mais adaptados justifica deixar de ajudar os animais?
Certamente que, ao planejarmos os programas de ajuda, devemos levar em conta o risco de, ao ajudarmos os animais, os traços prejudiciais que eles carregam serem passados adiante, prejudicando os animais das gerações futuras. Contudo, a constatação desse risco não implica que a coisa certa a se fazer é não ajudar e deixar a natureza seguir o seu curso.
Por exemplo, poderia ser dito que a quantidade de sofrimento e mortes decorrente dos processos naturais é tão gigantesca que, mesmo que se o preço a se pagar por ajudar os animais fosse os membros das gerações futuras não terem os genes mais adaptados, ainda assim, isso teria um saldo muito menos negativo do que deixar a natureza seguir o seu curso.
Além disso, há várias formas de prevenir/minimizar o sofrimento e as mortes prematuras decorrentes dos processos naturais que não impediriam que os genes mais adaptados fossem passados adiante. Esse seria o caso, por exemplo, de buscar prevenir o sofrimento e as mortes prematuras por meio da esterilização e da pesquisa sobre quais tipos de elementos no ambiente resultam em maior ou menor quantidade de nascimentos nas espécies cujos membros comumente tem vidas predominantemente positivas ou negativas.
Aquilo que a objeção defende é considerado hediondo quando os afetados são humanos
Quando os humanos são afetados pelos processos naturais não é defendido que sejam largados para sofrer e morrer, para que haja um melhoramento genético natural da espécie humana. Pelo contrário, essa postura é normalmente vista como hedionda e o que é defendido é exatamente o oposto: prestar um cuidado ainda maior a esses humanos, pois sua vulnerabilidade é maior. Se a doença que os afeta é grave e hereditária, no máximo é sugerido que é melhor que não se reproduzam. Contudo, não é defendido que eles sejam largados para sofrer e morrer.
Se fosse aceitável o que a objeção em questão propõe, não seriam apenas os humanos mais vulneráveis que deveriam ser largados à própria sorte, e sim, todos nós, para que só os humanos mais adaptados pudessem passar os seus genes adiante. Quase ninguém aceita essa posição. Isto é, a maioria de nós considera mais importante minimizar o sofrimento e impedir as mortes, mesmo que isso implique em no futuro não existirem os seres mais adaptados possíveis. A posição padrão quando os humanos são as vítimas dos processos naturais é a de que devemos melhorar as condições de vida dos humanos por outros meios que não aqueles meios brutais que decorrem da seleção natural. Por outro lado, quando os animais não humanos são as vítimas, a visão padrão é a oposta. Mas, se o especismo é injustificável, então essa disparidade também é injustificada.
REFERÊNCIAS
ANIMAL ETHICS. Introduction to wild animal suffering: A guide to the issues. Oakland: Animal Ethics, 2020.
CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
ÉTICA ANIMAL. A situação dos animais na natureza. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 23 out. 2016a.
ÉTICA ANIMAL. Ajudando os animais na natureza. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 23 out. 2016b.
ÉTICA ANIMAL. Biologia do bem-estar. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 8 jul. 2019b.
ÉTICA ANIMAL. Dinâmica de populações e o sofrimento dos animais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 27 out. 2015b.
HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010b.
HORTA, O. La cuestión del mal natural: bases evolutivas de la prevalencia del desvalor. Agora: Papeles de Filosofia, v. 30, n. 2, p. 57-75, 2011.
KIRKWOOD, J. K.; SAINSBURY, A. W. Ethics of Interventions for the Welfare of Free-living Wild Animals. Animal Welfare, v. 5, n. 3, p. 235-243, 1996.
ROLSTON III, H. Disvalues in Nature. The Monist, n. 75 (2), p. 250-278, 1992.
NOTAS
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2] Sobre a situação típica dos animais que se encontram na natureza, ver Ética Animal (2016a) Animal Ethics (2020) e Horta (2010b).
[3] Exemplos desse argumento podem ser encontrados em Rolston (1992, p. 254) Kirkwood e Sainsbury (1996, p. 239). Para uma crítica a eles, ver Cunha (2021, p. 176-8; 2022, seção 8.3.9).
[4] Sobre isso, ver Horta (2010b) e Ética Animal (2015b).
[5] Sobre isso, ver Horta (2011).
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
