Luciano Carlos Cunha[1]
A ética centrada na senciência[2] defende que, para uma situação ser boa/ruim, melhor/pior, é preciso haver um ou mais indivíduos que sejam prejudicados ou beneficiados em tal situação. O critério da senciência defende que os seres para quem as coisas podem ir melhor ou pior são os seres sencientes, isto é, os seres que possuem uma subjetividade, pois são capazes de experiências que podem ser positivas ou negativas, podem ter suas preferências satisfeitas ou frustradas etc.
Consideremos agora uma objeção ao critério da senciência. Essa objeção diz que devemos rejeitá-lo porque, se aceitarmos que, para uma situação ser melhor ou pior, é necessária a existência de seres com subjetividade (como é assumido na ética centrada na senciência), então estaremos assumindo uma concepção subjetiva do valor (isto é, assumindo que não existe algo que todos deveriam reconhecer como bom ou ruim, independentemente do que preferirem).
Entretanto, uma coisa não implica necessariamente a outra. O que toda concepção de valor centrada na senciência assume é que, para existir valor/desvalor no mundo, é necessária a existência de seres capazes de serem afetados positiva ou negativamente. Isso é compatível com afirmar que há coisas que todos deveriam reconhecer como boas ou ruins.
Por exemplo, poderia ser dito que a felicidade tem objetivamente valor em si e o sofrimento objetivamente desvalor em si. Segundo essa concepção, os seres sencientes apenas reconhecem aquilo que contém valor ou desvalor: não são eles que criam o valor ou desvalor. Poderia ser dito, por exemplo, que não são os seres sencientes que “inventam” que o sofrimento é ruim e que o prazer é bom. O valor do prazer e o desvalor do sofrimento vêm de suas características intrínsecas.
Defender isso não implica ter que dizer que coisas que não são experiências, tais como espécies e ecossistemas, possuem valor em si. Defender que existem coisas boas ou ruins em si objetivamente é compatível com afirmar que, para existir valor ou desvalor, há que haver seres para quem as coisas podem ser positivas ou negativas.
Em resumo, a objeção em questão confunde dois sentidos do termo “subjetivo”. Algo pode ser subjetivo no sentido de fazer referência à consciência. Algo pode ser subjetivo no sentido de não haver uma verdade objetiva a seu respeito. Entretanto, como vimos, uma coisa não implica necessariamente a outra.
REFERÊNCIAS
BENTHAM, J. Introduction to the principles of moral and legislation. Oxford: Oxford University Press, 1996 [1789].
CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
HORTA, O. Moral Considerability and the Argument from Relevance. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 31, n. 3, p. 369-388, 2018a.
HORTA, O. Un desafío para la bioética:la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].
NOTAS
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2]Para exemplos de defesas do critério da senciência, ver Bentham (1996[1989], p. 282n); Singer (2002 [1979], p. 67); Horta (2018a) e Cunha (2021, p. 57-61).
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
