A vida sem senciência tem valor?

Luciano Carlos Cunha[1]

Se adotarmos o critério biocêntrico[2], defenderemos que as vidas dos seres vivos, sencientes ou não, são valiosas. Por outro lado, se adotarmos o critério da senciência[3], diremos que é o fato de podermos ter experiências positivas na vida aquilo que a torna valiosa (e não o mero fato de haver vida biológica). Qual dessas posições devemos adotar? A seguir estão três exemplos que tem sido utilizados para defender o critério da senciência.

O exemplo do coma total irreversível

Imagine que você precisa escolher uma das duas opções a seguir:

(1) Ou morrer agora;

(2) Ou ser colocado em um coma total (sem experiência alguma, nem mesmo sonhos) completamente irreversível (isto é, sem chance alguma de sair do coma).

Se o mero fato de se estar vivo (sem experiências) fosse algo valioso, então seríamos beneficiados se fôssemos colocados em um coma total irreversível em comparação a morrer agora. Mas, do nosso ponto de vista não faz diferença morrermos agora ou sermos colocados no coma total irreversível. O indivíduo que habitava aquele corpo não vai estar mais ali de qualquer maneira, Isso sugere que o mero fato de se estar vivo em um sentido biológico não parece ser valioso em si.

Obviamente, poderiam existir razões indiretas para se preferir o coma. Seus parentes poderiam querer o seu corpo vivo. Você poderia ter deixado um pedido para manter seu corpo vivo o maior tempo possível. Mas, esses apelos indiretos são todos apelos às preferências de seres sencientes (às de seus parentes ou às suas, quando ainda era senciente). Portanto, não servem como defesa do biocentrismo.

O exemplo da seguradora estelionatária

Por vezes, quando as pessoas usam a palavra vida, na verdade o que querem dizer é senciência. Como há essa ambiguidade no uso da palavra, por vezes acontece de alguém estar a defender que é a senciência que tem valor, mas acreditando que está a defender que é a vida que tem valor.

Considere, por exemplo, quando as pessoas perguntam: “há vida após a morte?”. O que querem saber, na verdade, é se após a morte continuamos a ter experiências (isto é, se continuamos sencientes). Essa pergunta é feita por um motivo muito simples: valorizamos as experiências positivas que temos e, por isso, gostaríamos de saber se é possível continuar a tê-las após a morte do corpo. Nessa pergunta, o que se quer dizer com a palavra vida, não é a mera vida biológica, mas a vida psicológica, isto é, a senciência. Isso pode ser ilustrado pelo exemplo a seguir:

Imagine que uma seguradora garantisse que, se pagássemos uma quantia mensal até morrermos, teríamos uma vida após a morte. E mais: a seguradora garante que essa vida seria valiosa. Imagine então que você junta todas as suas economias e paga por quarenta anos a mensalidade.

Entretanto, um dia você por acaso encontra a cientista que foi quem descobriu como proporcionar uma vida após a morte. Ela lhe conta que, além de ser uma cientista, é também adepta do critério biocêntrico de consideração moral, e acredita que toda vida tem valor. Você então pergunta a ela, com muita curiosidade, como é essa vida após a morte. Ela responde sorridentemente: “é uma vida meramente biológica, sem senciência alguma. Você não terá experiência alguma, nunca mais, mas o seu corpo será mantido vivo por toda a eternidade. Não é maravilhoso?”.

Certamente que ficaríamos indignados com essa resposta (ainda mais depois de pagarmos a mensalidade durante quarenta anos). Mas, se ficamos indignados, é porque achamos que uma vida assim não tem valor. Se é assim, então não acreditamos que tem valor uma vida meramente biológica, sem possibilidade alguma de experiências. O que pensamos que tem valor são as experiências positivas que podemos ter na vida. Se esse for o seu caso, então você aceita o critério da senciência, e não, o critério biocêntrico.

O exemplo da senciência sem vida

Vejamos um terceiro exemplo, que também sugere que o que tem valor são as experiências, e não a vida biológica.

Suponhamos que você descubra, no futuro, que está com uma doença terminal, e que não há nada possível de se fazer para salvar o seu corpo biológico. Entretanto, imaginemos que está disponível uma nova tecnologia, que permite você trocar aos poucos o seu corpo biológico por um corpo feito de um material não biológico. Imagine que isso também se aplicará ao seu cérebro, com cada neurônio biológico sendo gradualmente substituído por neurônios não biológicos. Entretanto, diferentemente do exemplo anterior, sua senciência não desaparecerá: você continuará tão senciente quanto é agora, mas com um novo corpo, não biológico[4].

Nessa condição, você não seria mais um ser vivo, pois não teria mais as características que definem um ser vivo: manter homeostase, possuir um ciclo de vida, ser composto de células, sofrer metabolismo etc. Entretanto, a pergunta é: nessa condição, sua existência continuará tendo valor? Parece que, certamente, sim, pois você poderá continuar a fazer tudo o que gosta, e a experimentar tudo aquilo que faz com que a sua vida, agora, tenha valor – a única diferença será que seu corpo não será orgânico. Mas, então, isso sugere então que o que possui valor é a senciência, e não a vida biológica, pois em tal condição você continuaria sendo senciente, mas você não seria mais um ser vivo.

REFERÊNCIAS

BENTHAM, J. Introduction to the principles of moral and legislation. Oxford: Oxford University Press, 1996 [1789].

CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.

CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.

GOODPASTER, K. E. On Being Morally Considerable. Journal of Philosophy, n. 75, p. 308-25, 1978.

HORTA, O. Igualitarismo, igualación a la baja, antropocentrismo y valor de la vida. Revista de Filosofía da Universidad Complutense de Madrid,v. 35, n. 1, p. 133-152, 2010c.

HORTA, O. Moral Considerability and the Argument from Relevance. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 31, n. 3, p. 369-388, 2018a.

HORTA, O. Un desafío para la bioética:la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.

SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].

TAYLOR, P. Respect for nature. Princeton: Princeton University Press, 1986.    

TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators. 03 fev. 2015b.


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] A posição que defende considerar tudo o que é vivo é chamada de biocentrismo. Para exemplos de defensores dessa posição, ver Goodpaster (1978) e Taylor (1986).

[3] Para exemplos de autores que defendem que o critério adequado de consideração moral é a senciência, ver Bentham (1996 [1789]); Singer (2002 [1979]), Horta (2018a) e Cunha (2021).

[4] Sobre a possibilidade de senciência não biológica no futuro, ver Tomasik (2015b).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.