Luciano Carlos Cunha[1]
Por vezes é defendido que a proposta de ajudar os animais selvagens[2] deveria ser rejeitada porque, alegadamente, violaria a liberdade dos animais.
A resposta a essa objeção consiste simplesmente em apontar que ocorre exatamente o oposto: essa proposta, na verdade, é essencial para que os animais exerçam sua liberdade, pois preveniria as coisas que impedem o seu exercício: sofrimento extremo e morrer prematuramente. Em resumo, não ajudar os animais é que tem como resultado os animais não poderem exercer sua liberdade, uma vez que estarão mortos.
Poderia ser objetado que há situações onde temos de escolher entre, ou garantir a liberdade do animal, ou garantir que esteja livre de sofrimento ou morte. Esse seria o caso, por exemplo, se tivermos que fazer uma escolha entre, ou deixar um animal livre na natureza, mas sujeito a todos os riscos que isso implica, ou retirá-lo de lá e colocá-lo em, por exemplo, um santuário, onde seria cuidado e protegido, mas teria acesso a uma área bem menor.
Um primeiro ponto importante a se observar em relação a essa objeção é que ela avalia o grau de liberdade a partir do tamanho do espaço disponível para locomoção. Mas, há outra forma de se avaliar o grau de liberdade: a partir do quanto é possível realizar aquilo que se quer. De acordo com essa segunda forma de avaliação, é possível ter menos espaço e mais liberdade, e vice-versa. Por exemplo, se um animal está na natureza, ele terá mais espaço do que em um santuário. Mas, se isso implicar também estar ferido, com doenças, sem acesso a comida e água, sendo atacado etc., isso implica em não realizar nenhuma das coisas que o animal quer. Analogamente, é possível que em outra situação o animal tenha menos espaço, mas, por ser cuidado e protegido, a possibilidade de realizar os seus interesses seja bem maior. Assim, se ter liberdade é poder realizar os seus interesses, é nesse segundo contexto que o animal possuirá maior liberdade. Em resumo, se ter liberdade é poder fazer o que se quer, isso não necessariamente coincide com estar em uma área territorial maior.
Observe que isso não implica que, então, é melhor que os animais estejam em zoológicos, justamente porque em um zoológico os animais não podem realizar os seus interesses. Santuários são essencialmente diferentes de zoológicos. Em um santuário, o objetivo é beneficiar os animais. Em um zoológico, o objetivo é proporcionar entretenimento para os humanos, desconsiderando o que seria melhor para os animais.
Contudo, suponhamos para efeito de argumentação que essa segunda forma de definir liberdade esteja errada, e que liberdade deva ser definida apenas em termos do tamanho da área na qual alguém está. Se for assim, não fica nada claro que o melhor para os animais seria estarem em uma área maior e terem mais sofrimento e morrerem prematuramente. Poderia ser objetado que há muitos animais que fogem de tentativas de resgatá-los de situações de desastre como incêndios e enchentes, ou de tentativas de vaciná-los, e que isso então mostra que aquilo que os animais valorizam em maior grau é ficarem livres de interferência humana, mesmo que isso implique em sofrerem mais e em morrerem prematuramente. Entretanto, a forma adequada de avaliar o que alguém valoriza em maior grau não é a partir do que esse alguém escolhe de fato, mas, o que esse alguém escolheria se tivesse acesso às informações relevantes[3]. Nos casos em questão, os animais fogem muito provavelmente porque não sabem que, nesses casos, os humanos estão ali para ajudá-los e, principalmente, porque não sabem o terrível destino que os espera em um incêndio ou em uma inundação. Se tivessem disponíveis essas informações, parece que muito provavelmente escolheriam receber ajuda.
Assim, se liberdade for definida em termos do tamanho da área territorial, então parece que é falsa a alegação de que os animais valorizam a liberdade acima de qualquer outra coisa. Talvez seja falsa até mesmo a alegação de que os animais valorizam a liberdade em si. Isso também vale para o caso humano. Geralmente, valorizamos a liberdade porque ela permite que façamos as coisas que queremos. Dificilmente a valorizaríamos em um contexto onde ela não permitisse isso. Por exemplo, dada a definição de liberdade que a objeção assume, se fôssemos jogados no meio do deserto do Sahara teríamos mais liberdade. Mas, ninguém escolhe isso para si próprio justamente por saber que implicaria em sofrimento e na morte. Isso mostra que valorizamos em maior grau estar livre de sofrimento e não morrer, em comparação a estar em uma área mais ampla. Mas, não há razão para pensar que no caso dos animais acontece o contrário, uma vez que também são gravemente prejudicados pelo sofrimento e pela morte.
O que parece acontecer é que algumas pessoas defendem que os animais devem ser largados à própria sorte, “livres” na natureza para sofrer e morrer, não porque os animais valorizam isso, e sim porque elas próprias acham que o certo é os animais selvagens serem deixados em tais condições, mesmo que isso seja muito pior para os animais. Mas, se é assim, então a alegação de que tal posição está preocupada em respeitar os interesses dos animais é apenas um artifício retórico, que visa mascarar uma posição que, de fato, envolve uma desconsideração pelos animais.
De fato, isso é muito comum. Há uma série de posições que defendem coisas altamente prejudiciais para os animais, mas se apresentam como posições preocupadas em respeitá-los. Ao mesmo tempo, essas posições tendem a retratar as propostas genuínas de defender e ajudar os animais como envolvendo algum desrespeito pelos interesses dos animais. Essa é uma estratégia comum, por exemplo, por parte de quem explora os animais e no discurso que tenta justificar as práticas ambientalistas de matança de animais[4]. Portanto, é esperável que a mesma estratégia de retórica surja por parte de quem é contra ajudar os animais que se encontram na natureza. Essa estratégia, por si só, já é um indicativo de que tais posições não têm justificativa pois, se tivessem, não precisariam mentir sobre o que cada uma das posições realmente almeja para tentar fazer com o que o público as aceite.
REFERÊNCIAS
ANIMAL ETHICS. Introduction to wild animal suffering: A guide to the issues. Oakland: Animal Ethics, 2020.
CONABIO. Estratégia Nacional Sobre Espécies Exóticas Invasoras. Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Biodiversidade de Florestas, 2009.
COUNCIL OF EUROPE. Convention on the conservation of european wildlife and natural habitats: Recommendation on the eradication of the ruddy duck (oxyura jamaicensis) in the western palaearctic by 2020. Standing Committee 36th meeting Strasbourg, 15-18 nov. 2016.
COUNCIL OF EUROPE. Eradication of the ruddy duck oxyura jamaicensis in the western palaearctic: a review of progress and a revised action plan for 2021–2025. In: convention on the conservation of european wildlife and natural habitats. Strasbourg, 03 dez. 2020.
CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
ÉTICA ANIMAL. A situação dos animais na natureza. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 23 out. 2016a.
ÉTICA ANIMAL. Ajudando os animais na natureza. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 23 out. 2016b.
ÉTICA ANIMAL. Um exemplo prático da oposição entre ambientalismo e consideração pelos animais: a matança ambientalista de javalis e javaporcos no Brasil. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 27 Jan 2021b.
FARIA, C. Muerte entre las flores: el conflicto entre el ambientalismo y la defensa de los animales no humanos. Viento Sur, v. 125, p. 67-76, 2012.
FARIA, C. Sobre o bem de tudo e de todos: a conjunção impossível entre ambientalismo e libertação animal. Agora: Papeles de Filosofia,v. 30, n. 2, p. 27-41, 2011.
GENOVEZ, A. G. Metas ambientalistas vs. consideração moral dos animais não humanos: o que pensam ambientalistas quanto ao uso de tecnologias para intervir na natureza? Revista Peri, v. 15, n. 1, p. 76-96, 2023.
HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010b.
SHELTON. J. A. Killing Animals That Don´t Fit In: Moral Dimensions of Habitat Restoration. Between the Species, v. 13, n. 4, 2004.
SOBEL, D. Full-information Accounts of Well-being. Ethics, n. 104, p. 784-810, 1994.
NOTAS
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2] Sobre a situação típica dos animais que se encontram na natureza, ver Ética Animal (2016a) Animal Ethics (2020) e Horta (2010b). Para os fundamentos filosóficos da proposta de ajudá-los, ver Cunha (2022a). Para exemplos de programas de ajuda aos animais selvagens, ver Ética Animal (2016b) e Animal Ethics (2020).
[3] Sobre isso, ver Sobel (1994).
[4] Para uma análise crítica detalhada dessa retórica por parte dos ambientalistas, ver Genovez (2023). Para um exemplo dessas práticas de matança no Brasil, ver Conabio (2009). Para um exemplo na Europa, ver Council of Europe (2016, 2020). Para uma crítica a esse tipo de prática no Brasil, ver Ética Animal (2021b). Para uma crítica geral, ver Shelton (2004) e Faria (2011, 2012).
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
