A alegação de que o veganismo causa ainda mais mortes do que consumir animais

Luciano Carlos Cunha[1]

Por vezes é defendido que, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, o veganismo causa ainda mais mortes do que o consumo de animais. De acordo com essa alegação, isso seria assim devido às mortes de animais causadas como efeito colateral da agricultura, como as mortes acidentais de pequenos animais nas colheitas, e mesmo mortes intencionais como no uso de pesticidas durante o plantio[2].

Uma possível resposta a essa objeção consiste simplesmente apontar que, quanto maior o número de pessoas veganas, menos plantações seriam requeridas, pois boa parte dos grãos produzidos no mundo é utilizada para engordar os animais que os humanos exploram para consumo.

Entretanto, um proponente da objeção poderia apontar que, se cada pessoa apenas consumir animais aquáticos pescados diretamente no mar, não haveria necessidade alguma de plantar e isso, no cômputo geral, alegadamente resultaria em menos mortes do que um mundo vegano.

Uma possível resposta aqui é questionar que, no cômputo geral, fazer isso implicaria menos mortes do que em um mundo vegano. Entretanto, independentemente disso, há outra resposta possível, que aponta para a importância de se levar em conta todas as consequências, e não apenas algumas. Vejamos:

Poderia ser apontado que a objeção está a levar em conta apenas as consequências diretas de cada forma de consumo, negligenciando a influência de cada visão de mundo que é passada adiante com cada tipo de atitude. Defender o consumo de animais é reforçar a visão de que eles são recursos à nossa disposição. Defender o veganismo, por outro lado, reforça a visão de que os animais são seres com quem deveríamos nos preocupar.

É somente em um mundo onde os animais recebem consideração moral que haverá pessoas preocupadas em minimizar as mortes indiretas decorrente da agricultura e em tentar melhorar a situação dos animais em geral. Definitivamente, defender o consumo de animais não contribui para que esse mundo seja possível (pelo contrário, atrapalha). Portanto, esses dois tipos de atitudes têm consequências muito distintas em longo prazo, devido ao ideal que reforçam.

As consequências da influência que as visões de mundo exercem são muito maiores do que as consequências diretas do consumo de cada pessoa, pois se estendem ao longo de muitas gerações. Por essa razão, o impacto positivo indireto que um modo de vida vegano possui, de reforçar a consideração pelos animais, é ainda maior do que o impacto positivo direto de evitar que mais animais nasçam para sofrer e morrer.

Portanto, mesmo que fosse verdade que a prática do veganismo matasse mais animais devido ao dano indireto causado no plantio e nas colheitas (e, diga-se de passagem, não há evidências de que essa quantidade de mortes seria maior do que as mortes decorrentes da exploração animal), ainda assim, se computarmos as consequências da visão de mundo que cada prática ajuda a passar adiante, é mais provável que defender o veganismo ainda teria melhores consequências no total.

REFERÊNCIAS

CUNHA, L. C. A situação dos insetos: o quão importante é essa questão? Revista de Filosofia Aurora, v. 35, e202330391, 2023, p. 1-16.

MCWILLIANS, If Vegans Replaced Plants With Insects, They’d Harm Fewer Animals. Huffpost, 14 nov. 2014. Disponível em: https://www.huffpost.com/entry/vegans-eat-insects_n_6153476. Acesso em: 24 abr. 2023.


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas (2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] Para um exemplo dessa objeção, ver McWillians (2014). Para uma resposta, ver Cunha (2023b).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.