Equilíbrio ecológico e biodiversidade coincidem com o melhor para os animais?

Luciano Carlos Cunha[1]

Uma das razões pelas quais a consideração pelos animais é frequentemente confundida com o ambientalismo (e que conduz à aceitação por parte de defensores dos animais dos programas ambientalistas de matança de animais) é a crença de que metas tipicamente ambientalistas, como buscar a biodiversidade e o equilíbrio ecológico, coincidem com o que é melhor para os animais. Entretanto, é possível que uma situação tenha um alto grau de biodiversidade ou de equilíbrio ecológico, mas também seja terrivelmente ruim para os animais. Vejamos porquê:

A noção de equilíbrio ecológico diz respeito a uma certa estabilidade em relação a um estado tomado como referência[2]. Geralmente esse conceito é utilizado em relação à variação no tamanho das populações, mas, poderia sê-lo em relação a qualquer outro fator (por exemplo, o nível de água de um rio). Já a noção de biodiversidade diz respeito à variedade de espécies. Nenhuma dessas noções é baseada em, ou possui relação direta alguma com, aquilo que é melhor para os seres sencientes. Em outras palavras, há situações que são equilibradas e nas quais há alto grau de biodiversidade que podem ser terrivelmente ruins para os animais[3].

Por exemplo, os animais da maioria das espécies têm ninhadas gigantescas. Dependendo da espécie, são milhares ou mesmo milhões de filhotes (algo comum em anfíbios, répteis, peixes e invertebrados em geral). Em períodos de aproximada constância populacional é possível medir a taxa de mortalidade prematura a partir do tamanho da ninhada: se uma população permaneceu aproximadamente constante durante algumas gerações, então em média sobreviveu apenas um descendente por adulto (isto é, dois por ninhada). Todo o restante (milhares, milhões) dos filhotes teve uma curta existência, geralmente repleta de sofrimento[4]. Essa é uma situação equilibrada, mas nela são maximizados o sofrimento e as mortes prematuras. As situações nas quais há biodiversidade também normalmente apresentam esse mesmo resultado.

Poderia ser objetado que, se houvesse menor equilíbrio ou menos biodiversidade, então o sofrimento e as mortes prematuras seriam ainda maiores. Entretanto, não há necessariamente essa correlação. Tudo dependerá de como o maior ou menor grau de equilíbrio ou de biodiversidade afetam outros fatores que afetam diretamente o bem dos seres sencientes. Por exemplo, dependerá de se resultam em uma maior quantidade de nascimentos em espécies cuja maioria de seus membros têm vidas repletas de sofrimento ou em espécies cujos membros têm mais chances de terem vidas positivas. Dependerá também de como afetam fatores como disponibilidade de alimentos e de abrigo e a quantidade de doenças conflitos entre os animais. Não há nenhuma correlação direta entre maiores níveis de equilíbrio ecológico ou de biodiversidade com a prevalência de vidas positivas sobre as negativas, e de vidas longas sobre as curtas.

Em resumo: equilíbrio ecológico e biodiversidade apenas coincidentemente poderiam resultar em algo melhor para os animais, e muitas vezes resultam em situações altamente negativas para eles. Portanto, se o objetivo é conseguir o melhor estado de coisas para os animais, devemos investigar diretamente como os animais são afetados positiva ou negativamente (algo que poderia ser feito, por exemplo, pelo campo da biologia do bem-estar[5]), e não, centrar a análise no grau de biodiversidade ou de equilíbrio.

REFERÊNCIAS

CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.

ÉTICA ANIMAL. Biologia do bem-estar. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 8 jul. 2019b.

ÉTICA ANIMAL. Dinâmica de populações e o sofrimento dos animais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 27 out. 2015b.

FARIA, C.; HORTA, O. Welfare biology. In: FISCHER, B. (org.). The routledge handbook Of animal ethics. New York/London: Routledge – Taylor & Francis group, 2020, p. 455-66.

GRIMM, V.; WISSEL, C. Babel, or the ecological stability discussions: an inventory and analysis of terminology and a guide for avoiding confusion. Oecologia, v. 109, n. 3, p. 323-334, 1997.

HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010e.

LÉVÊQUE, C. Ecology: From Ecosystem to Biosphere. Enfield: Science Publishers, 2003.


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] Ao contrário da crença comum, a noção de equilíbrio ecológico não é utilizada em ecologia. O termo técnico mais aproximado seria “estabilidade”. Contudo, este também não possui uma definição precisa e, por essa razão, tem sido também abandonado entre os especialistas. Grimm e Wissel (1997), ao revisarem a literatura acadêmica em ecologia, encontraram 163 definições distintas (muitas delas contraditórias) do termo “estabilidade”. Lévêque (2003, p. 224-6) aponta que tentativas de definir o termo “estabilidade” concluíram que ele é muito complexo para ser definido precisamente e precisa ser partido em conceitos menores, como resiliência (a capacidade de um ecossistema de retornar à sua estrutura primitiva depois de uma perturbação); elasticidade (a velocidade desse retorno); amplitude (o escopo máximo de perturbação que ainda permite um retorno ao estado original); resistência ou persistência (a capacidade de um ecossistema de permanecer constante ou manifestar uma resposta a variações ambientais) e irreversibilidade (quando um ecossistema não pode retornar por meio de processos naturais a um estado anterior). Tais conceitos são uma versão moderna da noção de equilíbrio ecológico. Contudo, a conclusão do autor é que também nenhum desses conceitos pode ser definido com precisão de tal maneira que seja realmente operacional. Grimm e Wissel (1997, p. 323-4) concluíram que o termo “estabilidade” é o mais nebuloso de toda a ecologia, sendo tão ambíguo a ponto de ser inútil, e que poderia ser substituído por “permanece essencialmente não modificado”, “retorna ao estado tomado como referência depois de uma perturbação” e por “a persistência ao longo do tempo de um sistema ecológico”, dependendo do que se quer expressar com o termo.

Além disso, a estabilidade que é imaginada no senso comum nunca foi uma realidade na natureza. Sobre esses pontos, ver Grimm;Wissel (1997) e Lévêque (2003, p. 202-44).

[3] Para uma análise detalhada dessa questão, ver Cunha (2022a, p. 250-4).

[4] Sobre isso, ver Ética Animal (2015b). Para uma análise detalhada, ver Horta (2010e)

[5] Sobre biologia do bem-estar, ver Ética Animal (2019b). Para uma introdução mais detalhada, ver Faria e Horta (2020).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.