Se rejeitarmos o especismo, como decidiremos questões de prioridade?

Luciano Carlos Cunha[1]

Na vasta maioria das situações, não conseguiremos evitar de prejudicar todos os indivíduos, nem conseguiremos ajudar a todos que necessitam. Diante de tal constatação, alguém poderia pensar então que, se dermos igual consideração a todos os seres sencientes, não teremos um guia para decidir: se todos contam por igual, como vamos decidir sobre prioridade[2]? Não seria necessário construir hierarquias de status moral? Por exemplo, se alguém atribui um status maior a humanos, ou aos seres mais inteligentes, terá um critério para decidir em casos de conflito.

Entretanto, a igual consideração é totalmente compatível com critérios de prioridade. A diferença, em relação a visões hierárquicas, é a seguinte. Em visões que constroem hierarquias de status moral, a prioridade é sempre dos membros do grupo privilegiado. Já os critérios de prioridade que poderiam ser adotados por visões que aceitam a igual consideração são intercambiáveis (isto é, qualquer um poderia vir a ocupar a posição que merece prioridade). Considere por exemplo, o critério “a prioridade é de quem estiver na situação pior”. Esse critério é intercambiável porque a prioridade seria de qualquer um que estivesse na pior situação, independentemente de sua espécie, tamanho, idade, gênero etc.

Há vários critérios de prioridade compatíveis com o princípio da igual consideração. A seguir está uma lista com quatro exemplos (embora possam existir muitos outros[3]):

(1) Gravidade: quanto pior a situação do indivíduo, maior sua prioridade.

(2) Quantidade: quanto maior a quantidade de indivíduos em uma situação ruim, maior a prioridade.

(3) Benefício: quanto maior o tamanho do benefício possível de ser causado a quem está em uma situação ruim, maior a prioridade.

(4) Impacto em longo prazo: Quanto maior o impacto positivo que um ou mais indivíduos teriam dali para frente se forem ajudados, maior sua prioridade.

Por vezes dois ou mais critérios apontam na mesma direção e em outras vezes conflitam entre si. Não é uma tarefa fácil decidir sobre questões de prioridade. Entretanto, o que vimos acima é suficiente para mostrar que a igual consideração é compatível critérios de prioridade. Portanto, é falso que, para decidirmos sobre questões de prioridade, temos de aderir a uma visão que constrói hierarquias de status moral.

REFERÊNCIAS

CUNHA, L. C. A igualdade, suas várias interpretações, e a ética interespécies. In: BARBOSA-FOHRMANN, A. P.; LOURENÇO, D. B.; AUBERT, A. C. P. (orgs.). Estudos e direitos dos animais: teorias e desafios. Porto Alegre: Editora Fi, 2022b, p. 104-128.

CUNHA, L. C. Especismo e priorização de causas. In: ROSARIO, M. C.; PEREIRA, F. S.; AZEVEDO, M. A. O. Anais do Simpósio Ética Animal em Ação. São José dos Campos: Entrementes Editorial, 2023, p. 33-45

FARIA, C. Equality, priority and nonhuman animals. Dilemata, v. 14, p. 225-236, 2014.


NOTAS

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.

[2] Sobre como cada teoria da ética normativa que aceita o princípio da igual consideração aborda questões referentes a critérios de prioridade, ver Cunha (2022b). Sobre aplicações de critérios de prioridade para seleção de causas, ver Cunha (2023).

[3] Sobre como decidir a prioridade levando em conta os níveis de desigualdade, ver Faria (2014).


A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.