Luciano Carlos Cunha[1]
Um argumento muito comumente endereçado para defender que está justificado matar os animais para consumi-los consiste em afirmar que, se os animais forem prejudicados com a morte, então plantas também o são (porque também estão vivas em um sentido biológico) e que, então, tanto faz consumir animais ou plantas, uma vez que em ambos os casos causaremos mortes.
O problema central com esse argumento é que a razão pela qual a morte é um dano não é porque ela impede a continuação da vida biológica, e sim, porque impede o indivíduo de continuar a desfrutar aquilo de positivo que experimentaria se continuasse vivo.
Isso mostra que a morte só prejudica seres sencientes, pois apenas em seu caso há alguém a “habitar” aquele corpo (um indivíduo, uma consciência), que a morte privaria de desfrutar algo positivo. Seres vivos que não possuem consciência são corpos vivos. Não há alguém que vive aquelas vidas. Portanto, não há alguém ali para ser prejudicado com a morte.
Poderia ser objetado que toda e qualquer vida, mesmo sem possibilidade alguma de senciência, é sempre valiosa. Entretanto, o experimento mental a seguir sugere que, para uma vida ser valiosa, é necessário que haja a possibilidade de acontecerem experiências nessa vida.
Imaginemos que alguém garanta que consegue nos dar uma vida após à morte se pagarmos uma quantia mensal até o final da vida, e garante que a vida futura será valiosa para nós. Contudo, suponhamos que, depois de pagarmos durante a vida inteira, descubramos que renasceremos como seres vivos, mas sem possibilidade alguma de consciência. Se, nesse caso, fomos enganados, então parece que uma vida meramente biológica, sem possibilidade alguma de experiências[2], não é valiosa.
Notas
[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral no Brasil das atividades da organização Ética Animal (www.animal-ethics.org/pt). É autor dos livros Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente (2021) e Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas(2022). Publicou também capítulos em outras obras e artigos em periódicos especializados, que podem ser lidos aqui: https://ufsc.academia.edu/LucianoCunha. Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org.
[2] Obviamente, isso é diferente de se estar com a senciência apenas temporariamente impossibilitada (como em um sono sem sonhos ou em um estado comatoso vegetativo, porém reversível).
A produção deste texto foi financiada pela organização Ética Animal.
